segunda-feira, 13 de junho de 2016

Oh, vida difícil! Será?

 Fotografado: Gilson Alves da Cunha
Origem da imagem: fotografia do autor

Se você conseguiu safar-se de todos os revezes da vida e chegou à idade avançada, parabéns! Contudo, na condição de idoso, certamente, passa por alguns problemas. Não por sua culpa, mas porque produtos e papéis são feitos para todos, sem distinção, deixando de considerar aqueles que têm restrições. Algumas coisas melhoraram, certamente, porém, falta muito a avançar!

Há a alegação de que com alguns poucos recursos o dia a dia do idoso tem solução. Então, estamos acostumados a ouvir:
- “É só” usar óculos;
- “É só” andar de cadeira de rodas;
- “É só” apoiar-se na bengala;
- “É só” possuir acompanhante;
- “É só” pedir a alguém para ajudar a entender;
- “É só” valer-se das prioridades da idade;
- “É só” receber acompanhamento médico;
“É só”, uma pinoia! Vá, você, enfrentar!

As citadas “facilidades” e outras não são para a totalidade das pessoas nem estão à disposição de qualquer bolso, em todas as situações. Inclusive, pode ocorrer a falta de suporte para arcar com os planos de saúde, tributos, impostos e medicamentos; para revelar alguns. A lacuna deixada resulta na obrigação de o idoso recorrer aos serviços ditos públicos, que não contemplam, como deveriam, as necessidades, além dos transtornos de locomoção e de espera para o atendimento. Referi-me aos serviços “ditos” públicos pela precariedade vigente, ao invés de servir ao público, de forma geral e a contento.

Acontece que surgem contratempos que impedem o aproveitamento total dos já escassos recursos. Óculos ficam defasados ou caem e quebram; cadeira de rodas, uma vez que se disponha de dinheiro para o aluguel ou compra, pede reparo e necessita de quem a empurre e a transporte (pega aqui pra colocar ali, sem fim!); cuidador capacitado é figura rara e dispendiosa (tendo o idoso que manter estrutura para apoiar quem o apoia); a casa precisa ser adaptada em muitos aspectos; há a necessidade da marcação de consultas e exames, tarefa complicada, que envolve também transporte até o local; e, pelo incrível que pareça, a informatização dos contatos, único meio em diversas situações, não acusa solução tão fácil quanto se pensa, pedindo, de início, que haja o equipamento e que se saiba operá-lo, sem incluir a questão da senha, que sempre é um entrave à parte. Claro que é ferramenta utilíssima e quase indispensável, mas... Todavia, acima disto tudo, há problemas intrínsecos, atrapalhantes em demasia: a bula do remédio com letra mínima; a escrita complicada no conteúdo da receita médica; o condutor do fio dental – passafio, na cor branca, que se perde na bancada igualmente branca da pia do banheiro; os parafuzinhos insignificantes das hastes dos óculos (haja paciência e vista para, com uma chavinha, aplicar os tais parafuzinhos); o texto longo, detalhado e praticamente ilegível, de tão pequeno, dos contratos e outros documentos, cujo entendimento é para alguém pra lá de sagaz e com visão de lince; os minúsculos números componentes das etiquetas de preço, nos mercados, que não raramente precisam de auxílio de gente mais nova, mesmo estando o idoso com os quatro olhos a postos; o diminuto tamanho das letras dos livros, que se constitui em outro obstáculo, pois faz com que o idoso perca o interesse pelo enredo em função do incômodo ao ler, e, ao contrário, é o livro infantil/juvenil que traz as letras em dimensão maior, ao lado de grandes gravuras; e, para encerrar os exemplos, saliento a enorme dificuldade em perceber a real validade do medicamento, em função dos insignificantes números colocados, quando não são da mesma cor do frasco ou da tampa.

Enquanto escrevo, já tentei três vezes marcar o oftalmologista para o meu pai, de 84 anos, sem sucesso, por detalhes dificultosos apresentados no contato. A circunstância traz um bom exemplo do incômodo. Talvez, se a incumbência recaísse sobre os ombros dele, já tivesse desistido. E saiba que ele é articulado, sem inibição.
 
Para completar, por motivos da modernidade, pelo corre-corre diário, os membros da família não conseguem auxiliar nos momentos de necessidade ou simplesmente para se fazerem presentes.

Mas, vou levantar o astral, trazendo coisas mais divertidas e positivas, como no caso das irmãs Alvarenga. São três gaiatas, no melhor sentido. Lenir, Lenita e Lenira – a primeira não ouve bem, a segunda não enxerga bem e a terceira namora! Estão na faixa dos setenta anos (escondem a idade), contudo são pra lá de ativas e animadas, realizando todos os cursos e aulas que aparecem, desde bordado à dança de salão. Excelentes cozinheiras, vivem a convidar amigos para um “lanchinho”, que se estende noite adentro, com direito a sarau, porque, além de tudo, cantam à tripa forra.

A outra história pra cima é a do tio Adamastor, sujeito empertigado, alto, magrinho, cabelo esticado para esconder a careca, sempre de roupa branca, que, na aposentadoria, corta, milimetricamente, quilômetros de pão dormido, para fazer torradas e ofertar aos amigos e parentes. Estabelece quantidades certas e as embala em saco plástico, com todo o zelo. Depois, percorre as casas entregando o mimo, preparado com carinho. Diverte-se a cada parada, bebe cafezinho, conta histórias e retorna feliz da vida. Ah... Registro que o tio passou dos oitenta faz tempo!

Em resumo, qualquer que seja a idade, a pessoa, mesmo com algumas fragilidades na saúde e tendo pela frente dificuldades inerentes a quem está vivo, que infelizmente estão aí para nos tirar o sono, deve persistir em fazer o barquinho andar, remar para prosseguir engraçando a si e aos outros, ser generosa e leve consigo e com os demais, principalmente, para que continuem a lhe fazer companhia, que sem dúvida é a parte interessante da vida.

Alfredo Domingos

terça-feira, 24 de maio de 2016

Com quantos símbolos se faz um fusca?

 
Fonte da imagem: http://pin.it/Uuy8Gs4

Dizem, em tom ameaçador:
- Você verá com quantos paus se faz uma canoa!

E eu, aproveitando a sentença popular, emendo:
- Você verá com quantos símbolos se faz um fusca!

Aliás, faço o meu protesto, indignado, contra o pouco caso que as pessoas, geralmente, demonstram em relação ao carro mais charmoso que já surgiu. Ao menos, eu acho! Pronunciam com desdém:
- Pode largar o carrinho ali mesmo, no fundo; e
- Deixe em qualquer lugar, tanto faz.

Estas barbaridades são de detonar o orgulho dos proprietários. São de arrasar quarteirões.
Costumo dizer que se você tiver muito dinheiro poderá comprar qualquer carro, seja uma Mercedes ou um BMW, até zero quilômetro, porém, em relação a um fusquinha nota dez, joia rara, somente ocorrerá a venda se o dono estiver abilolado. Afastando esta hipótese, não há acordo.
O autor do fusca estilizado foi muito feliz na bolação. Foram utilizados sinais de pontuação, da Língua Portuguesa, e emoticons, usados na informática. Qualquer criação cuja inspiração é o fusca dá certo, ainda mais se são usados bom humor, pesquisa e inventiva.
Se pensarmos bem, ele tem todas as características para desagradar: pequeno, duas portas, sem conforto, sem ar condicionado e direção hidráulica (quando é original), arredondado de fio a pavio, capacidade limitada de bagagem, teto baixo na parte de trás, entre outras coisas (quer mais?), porém, agradou, e conquistou milhões de admiradores no mundo todo.
Sua logomarca é exitosa e inconfundível, tendo força de marketing para bem indicar tudo relacionado ao carro, de imediato:

  Fonte da Imagem: bashooka.com
Volkswagem - o carro do povo
(Volks – povo, em alemão)
(Wagen – carro, em alemão)

Foi concebido e construído na época da Segunda Guerra Mundial, na Alemanha, para alcance popular, tendo como vantagens suas características principais de economia e robustez. Passou, depois, a ocupar as cidades, em plena paz, feito praga, de cá pra lá, entrando e saindo de qualquer espaço, estacionando com facilidade, subindo e descendo, às vezes levando gente muito além da sua capacidade e, vitalmente, sem enguiçar, em função da mecânica bastante simples. Estranho fenômeno! (somente é inadmissível chamá-lo de “carrinho”)
Ao lançar mão de sinais e afins, o criador do nosso invulgar fusca usou toda a pista, para, com pouca coisa, representar perfeitamente não só o aspecto como o espírito gozador e abelhudo do carro.
Olhando de frente, a impressão que brota é a de uma cara gorda, de faces largas, de um sujeito bonachão, e ao mesmo tempo travesso.
As bochechas são marcadas pelos parênteses, para oferecer os contornos e abrigar os olhos grandes. Estes olhos, os faróis, estão mais para o número zero do que para a letra o, trazendo o ar de enxerido, que de tudo quer saber ou quer ver, e para cumprir, obviamente, a missão de iluminar muito, e longe.
Barra e barra invertida dão forma aguda ao capô, com dois travessões espaçados em baixo, recebendo o marcante ponto de exclamação, que representa o friso central. A exclamação acrescenta traquinagem ao modelo, tendo um papel de protagonista, pois se encaixa perfeitamente no espírito jocoso que, por si só, o carro possui. (interessa notar que nem foi necessário ornar o capô com o emblema da Volks)
O para-brisa não faltou! Repetiu-se o uso dos parênteses, incluindo na base três travessões. Não foi preciso consolidar o teto! As curvas dos parênteses fizeram o serviço.
Os retrovisores estão presentes, por meio dos pontos, um de cada lado, que no meu entendimento não cumprem a sua missão essencial, a de finalizar. São dois brincos deslocados, que desprezaram a linha dos olhos à procura das orelhas, compatíveis com a modernidade, compondo a tal cara vislumbrada acima.
Poderia ser comentado que faltam os limpadores do vidro, os piscas sobre os faróis, o para-choque, mas todos estão subentendidos, deixando a imagem mais “clean”, sem tantos detalhes para poluir a concepção, pra lá de enxuta.
Ao finalizar, deixo caraminhola na cabeça do leitor. Uma questão serve para inquietar a vida e concluir com graça o texto.
Há um senão no nosso fusca!
Erro, de verdade! Proposital ou não. Não sei...
Olhe bem! Coloque na mente um fusca das antigas. Analise-o.
Não há pressa.
.
.
.
.
Atente para os penduricalhos.
Os segredos e mistérios podem estar nos pequenos tamanhos.
Nem desconfia? Já gastou o bestunto?
Tristeza!
Acabo com o mistério?
.
.
.
.
Vou revelar, então: o fusca original nasceu com um único retrovisor! O da esquerda. Lembrou-se?! (daí, o sublinhado feito em “um de cada lado” - foi dada a dica!)
KKKK! (linguagem frequente no WhatsApp – indica muita risada, gozação endereçada ao outro, o que peço licença para fazer agora com o amigo – não me leve a mal!)

Alfredo Domingos

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Pé pra o quê?

- pra refrescar, pé de vento;
- pra comer, pé de couve;
- pra proteger, pé de coelho;
- pra conversar, pé de ouvido;
- pra sustentar, pé de mesa;
- pra entrar, pé direito;
- pra sair, pé no rabo;
- pra sambar, pé de malandro;
- pra saborear, pé de moleque;
- pra beber, pé de cana;
- pra arrombar, pé de cabra;
- pra amealhar, pé-de-meia;
- pra nadar, pé de pato;
- pra trabalhar, pé de boi;
- pra vagabundear, pé de chinelo;
- pra costurar, pé de máquina;
- pra dançar, pé de valsa;
- pra correr, pé que te quero;
- pra viajar, pé na estrada;
- pra acelerar, pé-de-chumbo;
- pra rezar, pé de santo;
- pra musicar, pé de bode;
- pra sonhar, pé deitado;
- pra casar, pé de alferes; e
- pra amar, pé com pé.

Alfredo Domingos

terça-feira, 3 de maio de 2016

Janela para o mundo


 Fonte da imagem: streetartutopia.com
Autor não identificado

 Que saudade, Juju! Mas, entenda aqui comigo. Ao ver esta imagem, lembrei-me, claro, de você.

A natureza era tudo o que lhe atraía, a sua cabeça ganhava em criatividade, conforme narrava seguidamente as viagens feitas, por exemplo, às savanas africanas, aos Alpes franceses, aos recantos dos Andes, ao mar do Caribe, etc. e tal.

Na empolgação, você se deslocava para a janela, pedindo apoio para “furar” o horizonte e ir atrás dos sonhos, e, de costas para mim, descrevia as aventuras. Havia tanta euforia nas narrativas, que eu era apenas um ouvinte, às vezes, atordoado. E você falava sem parar, subindo o tom da voz, alheia ao resto.

Janelas rasgam o mundo para que alcancemos o infinito de expectativas. A vida vira adjetivo, com momentos de interjeição, saindo da simplória condição de substantivo.

Nem são necessárias as grandes viagens, como dobrar o Cabo das Tormentas, passar por riscos incalculáveis ou cometer façanhas. Abra uma janela, apoie os cotovelos, segure a cabeça. Já é!

Você, companheiro, que lê este texto, quer saber?...

Saia pelo quintal ou ali pela pracinha do bairro. Serão encontrados antúrios, caramujos, musgos, samambaias selvagens, cogumelos, paus, gravetos, joaninhas, borboletas, micos, cágados e uma infindável coleção de outros seres, sem contar cheiros, barulhos, raios de sol e pingos de chuva. Concordamos ser indescritível o prazer de sentir o cheiro da terra molhada, para exemplificar uma das sensações.

Num pedaço de chão, chega-se a incríveis descobertas, com mínimas quantidade e variedade de animais e vegetação.

Juju, enquanto não reconsideramos a bobagem que nos separou, naquela manhã de domingo (aliás, vamos combinar, a sabedoria indica não romper alguma coisa num dia morno, lento, de calças curtas – cometemos um erro!), podemos engendrar ideias para a imagem acima.

Para começar, entendo que há um artista por trás, ou na frente, das emoções. Grandíssimo trabalho preencheu a ombreira da janela. Cores fortes. Predominância de tons de verde (de acordo com o cenário externo), com traços de vermelho, laranja e roxo. De janela aberta, a jovem protagoniza a cena, de cara para a natureza, debruçada caseiramente, abancando-se no parapeito a sonhar, enfim! Seu perfil está bem definido, vigoroso, embora possua ar contemplativo.

A criação supera tudo o mais! Ao bater os olhos na imagem, apaixonei-me pela concepção. O truque de utilizar a lateral funcionou muito bem. O ângulo da foto colaborou bastante. É nítida a impressão de interação entre paisagem e personagem, sob a lente aguçada do mestre, unindo o que há de melhor.

Cabe lucubrar sobre a escolha. Por que o artista optou por uma jovem para modelo? Arrisco-me a acreditar que ele apostou na curiosidade própria dos jovens, na vontade irreprimível que eles têm de descobrir.

Sinto inveja, não nego! Deveria ser eu a figura. Roubaria para mim a chance. Curtiria muito!

Alfredo Domingos

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Meninos para hoje e sempre

 
Fonte da imagem: https://pt-br.facebook.com/ (Autor Desconhecido)

No acervo da MPB, destaco a música, de Rildo Hora e Sergio Cabral, com o título “Os Meninos da Mangueira". Estes, levados e sonhadores, muito apropriadamente, estão por todos os cantos, cumprindo venturas e aventuras. Da Mangueira ou não, do asfalto ou da comunidade, são apenas garotos. Emissários de São Jorge (repare na imagem que três deles trazem calções vermelhos – a cor do Santo, talvez ao acaso), com suas lanças simbólicas, de esperteza e de valentia.

A imagem aqui estampada merece comentário mais apurado.  A começar pelo pano de fundo, profundamente lúdico, que apresenta meninos ao lado deles mesmos, com o auxílio do grafite na parede. Genial!

De início, uma coisa salta aos olhos: a criatividade. Está clara a iniciativa de parceria entre os travessos e o grafiteiro, que, por sua vez, bem projetou tipos característicos do lugar.

Na obra, os detalhes foram caprichados, representando a intenção de misturar criaturas e cenário, de dar linha à pipa, afinal. Na caricatura, atentamos para ombros encolhidos, quase ocultos; barrigas proeminentes; pernas fininhas, tais e quais cambitos; pés desproporcionais; bocas gulosas e grandes, embora fechadas (dentes não à mostra, ao contrário de um dos meninos, apenas); e, fundamentalmente, foi deixado espaço entre os dois personagens.

Será que o artista previu a junção de seus modelos com os meninos? Sorrateiramente, saiu em defesa da boa molecagem? Vai saber... (só falta coincidir que o próprio é o fotógrafo, para ganhar uns trocados. Neste caso, temos estúdio e tripé prontos!)

Os garotos, na parede ou ao vivo, são do presente. Em tempos de que tudo é do amanhã, a meninada e seus interesses são para já. O presente arranha a zona de conforto, sendo implicante, contudo, sábio. Olhemos para os vivos: risonhos, peraltas, destemidos. Mas carentes. Sedentos de mim, de você e de todos. Ávidos por soluções para problemas que nem sei se são conhecidos na sua grandeza.

A infância e a juventude, abalroadas pelas necessidades, atropelam as “providências cabíveis”, das “autoridades competentes”, de cujos relógios saem horas defasadas em relação à pressa, que é ansiosa por demais!

Geralmente, nas situações mais delicadas surgem as respostas salvadoras, originais, produzidas no puro empenho. A mensagem do grafite é a de proporcionar união, deixando vãos a preencher, com qualquer um, da forma que pintar – sem trocadilho.

Então, cabe à comunidade promover a integração. Que maneiro!

“E o menino da Mangueira
Foi correndo organizar
Uma linda bateria.”

Este pequeno trecho da canção reproduz singelamente toda a esperança almejada pela sociedade: cada menino ter o seu sonho concretizado e obter algo, seja organizar uma bateria ou outro empreendimento que lhe for conveniente. Não importa o objeto a alcançar. Indispensável é a conquista!

Para concluir, perceba que interessante e grandiosa é a colocação do nome “Jesus”, no alto de tudo, sem arte alguma, porém, no sentido de abençoar as ações por ali conduzidas. Amém!

Alfredo Domingos

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Março para não esquecer


Quer saber? Foi de arrepiar!

Dizer ou escrever “no meu tempo...” ficou brega, sinônimo do que estacionou lá trás, pelo bolor do tempo e pelas ideias consideradas antigas.

Apesar desse consenso, vamos fazer uma pequena andança pelas posições e procedimentos ditos ultrapassados.

As chamadas “autoridades investidas” e profissionais de destaque recebiam consideração e chamamento correspondentes, naturalmente, dos tipos: Vossa Excelência, Senhor, Professor, Doutor, etc.

Por exemplo, acostumei-me a dar destaque aos meus professores, quase veneração. Sempre achei o médico um ser perto de Deus, ou seu representante, e nesta linha atribuía a ele irrestrito atendimento.

Hoje, tudo é íntimo, sem cerimônia, e, sobretudo, invasivo. Então, o tratamento é de você, cara, e assim vai, podendo falar e fazer o que der na telha!

O que parece bobagem, não é! Tratar pessoas considerando sua posição, título ou condição é dever. Pedir licença para entrar, sair, sentar, pegar coisas que não nos pertencem, abrir ambientes alheios e tantas outras circunstâncias era conduta habitual. Era! Agora, a situação mudou de figura, com a desculpa de não precisar dar satisfação, prestar conta, e que há liberdade de expressão e de ação. 

Respeitar e obedecer eram sentimentos inerentes às pessoas. Normalmente, as relações eram conduzidas sem descuido. Era dispensado respeito aos idosos, gestantes, gente de farda, pessoal da saúde e do ensino, poetas, magistrados; numa lista a se perder.

Dessa maneira, o bom jeito permeava a sociedade e balizava os procedimentos. Claro, que havia os exageros nos caminhos da dominação, da exploração, da intolerância de gênero, do racismo e do desrespeito à mulher; para nomear alguns desses excessos.

“Por favor” é expressão quase em desuso.

“Obrigado”, então, é facilmente substituído por “valeu”, “falou”, “show”, “devo esta”, etc.
Os membros da família andavam em bloco, unidos, e havia um chefe instituído a representar e a defender o contingente. Essa conduta permitia aspectos positivos não somente para eles como para a sociedade.

Nestes tempos, há a dispersão da família e o seu enfraquecimento, o que interfere no tecido social. Evidentemente, que a necessidade de correr atrás das oportunidades contribui para a desagregação. Os horários e os interesses são diferentes, o transporte nas grandes cidades é perverso, afastando os encontros, e, apesar das facilidades de comunicação, o tempo disponível é cada vez menor.  

A lufa-lufa separa as pessoas e faz com que elas vivam correndo, sem calma para os entendimentos, para a compreensão e para dar o respeito esperado. Sei que em tempos de pouco dinheiro o que vale é conquistá-lo. Aí, infelizmente, entra o pega pra capar desmedido!

Os valores básicos da sociedade estão em situação discutível, no mínimo, para não dizer que estão deteriorados. Os ânimos circulam agitados. A insegurança adentra os nossos lares e o trabalho, sem contar as ruas, que estão abandonadas e, ao mesmo tempo, tumultuadas. E, por fim, foi instalado o senso da artimanha, da arrogância, do pulo do gato, da malandragem, etc. 

Vamos ao ponto, no que arrepiou: o mês de março de 2016 não será esquecido! E tem tudo a ver com o aniquilamento dos agentes sociais. Março foi atingido duramente pelas questões negativas abordadas no parágrafo anterior, nos campos da política e da ética. Na verdade, não foram apenas as águas de março que nos atrapalharam, foram os vendavais do disse me disse; do falei isso, querendo dizer aquilo; da questão de foro; do concorda sem tomar para si; do está autorizado, porém, nem tanto; do sou sem assumir; do não conheço; do não vi; do caso precise; do não era meu; do não houve crime; etc.; etc. 

Essas desculpas esfarrapadas representam o que todos nós pensamos e agimos - retrato da Nação. Daí, temos como resultado várias ações desastrosas, de honestidade duvidosa: o voto mal dado, a ganância, o acreditar na impunidade, o entender que o jeitinho abre portas e achar normal fazer porque muitos fazem. Dessa forma, concordo com o pensamento contrário à afirmação de que o brasileiro é bonzinho, educado, hospitaleiro e outras qualidades a nós atribuídas. Estamos longe disso.

O livramento da pele, a qualquer preço, esteve presente, sobre quaisquer sinais de fogo e evidência. Foi um salve-se quem puder! E muita gente endoidou, na fuga apressada da responsabilidade. 
A conduta nos acontecimentos de março e naqueles de antes, com desdobramentos, que dominam a opinião pública desde 2013, além das consequências diretas ruins, indicou diversos agravantes, de repercussão incalculável. Encerramento de empresas, demissão de empregados, interrupção de obras, abandono de residências e até de animais, pois seus donos não tiveram condições de mantê-los. Isso foi e é terrível, sem conseguirmos estimar quando haverá conserto.

Sem aliviar alguém, erramos todos nós! 

Estamos metidos num grande imbróglio, que nos custará caro para dele sair. 

Então, penso que o bom suporte familiar e a sociedade organizada, com os seus deveres e direitos definidos e respeitados, poderiam ter nos salvado da encrenca reinante, apesar da imposição constitucional, não sendo novidade alguma se assim fosse feito. Mas não deu!

Exemplo negativo foi deixado, quer para a atual, quer para as futuras gerações, disso não se pode fugir. Reparar o que está arranhado é obra para já, de acordo com o rumo certo a traçar.

Finalmente, para entrar no lúdico, pegando leve, apresento a mim mesmo o argumento de que os desacertos vêm de longe; e retiro alguns trechos da letra de Jorge Melodia, Noronha, Marcos Zero e César Ouro, do ano de 2004, do samba-enredo do G.R.E.S. São Clemente (RJ) - “Boi voador sobre o Recife”, que cabem perfeitamente no nosso contexto:

“Era a Corte um rebu
Se ouviu o sururu, vai pra ponte que partiu
Com o laranja endividado
O pedágio foi cobrado, o primeiro do Brasil
O boi voou, começou a roubalheira
A galhofa, a bandalheira, pra chacota nacional
Mas tira o olho, ninguém tasca eu vi primeiro
Tem muito boi brasileiro, pra comer nesse quintal

Onde a zorra vai parar
Eu tô sofrendo, mas eu gozo no final
A São Clemente faz a gente acreditar
Que no Brasil o que é sério é o carnaval”

Ah, não para por aí! O restante do nome da obra dos artistas do samba é “Cordel da Galhofa Nacional”. Que curioso! Tem coerência total com “março de 2016”! 

Alfredo Domingos

segunda-feira, 11 de abril de 2016

No cordão de Noel


Seu Noel, oh, seu Noel!
Ando Cismado, vacilando.
Confidenciei a desdita Ao Meu Amigo Edgar.
Ele estranhou, perguntando:
- Por que bebes tanto assim, rapaz?
E complementou: - Se é por causa de mulher, é bom parar. Porque nenhuma delas sabe amar.
Sei que sou um Bom Elemento,
Mas, Cansei de Implorar, Cansei de Pedir.
Não posso, porém, dar a impressão de ser Capricho de Rapaz Solteiro.
As emoções nos varrem como Chuva de Vento. Fazer o quê?
Bem sabemos que o Coração é o grande órgão propulsor.
- Coração, és o cofre da paixão. É o que tenho a dizer. Não é desculpa, não.
Quero ser firme, sem tremer ou tartamudear,
Conseguir, enfim, ser o Dono do Meu Nariz.
Enquanto isso, preciso impedir o Disse-me Disse.                
Todos acham isso ou aquilo. Falar é fácil.
Na real, Quem acha vive se perdendo,
Por isso agora eu vou me defendendo.
Em compensação, A filosofia hoje me auxilia
A viver indiferente assim, nesta prontidão sem fim.                                         
Devo tratar de Esquecer e Perdoar, para uma vida melhor levar.
Nunca... Jamais vou desanimar, e uma boa saída está no samba.
Assumo que o Batuque é um privilégio.
Ninguém aprende samba no colégio.
Tenho que dizer, modéstia à parte, eu sou da Vila.
Ademais, o nosso Martinho, sábio, já escrevinhou:
Sambar na avenida, de azul e branco, é o nosso papel,
Mostrando pro povo que o berço do samba é em Vila Isabel.

E nessa onda eu vou, esbaldando-me, jogando a tristeza pro alto...
Seguindo e reverenciando os bambas, como você, mestre Noel Rosa.

Alfredo Domingos

Nota: as partes do texto em Itálico são trechos de músicas de Noel Rosa e de Martinho da Vila.