quarta-feira, 19 de julho de 2017

Perdida, até certo ponto

Coisas que eu sei. Luisinha é doida. Só pode ser. Valha-me Deus!

Vivo atrás dela, pagando o maior mico. Já me declarei. Abri o coração. Pintei o sete. Não entendo o jeito dela. Não consigo conquistá-la de vez. Pra ficar direto e direito. Ter uma continuidade no relacionamento, com pé e cabeça nos lugares.

Às vezes, escreve quinze minutos ou mais de mensagem no WhatsApp. Desmanchando-se de bem-querer. Então, eu me animo, e digo:
- Vou aí, correndo.
Em resposta:
- Não, agora, não. Tenho um mundão de coisas a fazer.
Pronto, esfria tudo!
Passam-se os dias, ela retorna:
- Querido, você está podendo?
Pelo “zap”, também, respondo:
- Sim, amorzinho.
Veio a contrapartida:
- Foi somente para saber...
Desabafei comigo:
- Maluca! Pô!

Outra vez, depois de um tempão sumida, deixou recado:
- Desculpe-me pela ausência. Os dias são tão corridos (pensei que fosse escrever “os dias eram assim” – deixa pra lá!).
- Não tenho tempo de nada!
Em seguida, relacionou todas as tarefas, até quando escovou os dentes.
Parei. Pensei. E meti esta:
- Criatura, você não visita o vaso sanitário? Caso sim, leve o celular para o banheiro e escreva, ao menos, “oi!” – acho que dá tempo, enquanto se alivia. Ora, bolas!

Lucubro, seriamente, que a prioridade dela em relação a mim está baixa, muito baixa. Minha posição é a última da fila, com certeza! Intuo que ela anda perdida, até certo ponto.

Depois, arrumou a seguinte história:

- Ultimamente, um sedan vermelho ronda a minha casa. Estranho e engraçado, ao mesmo tempo, pois parece com o seu carro.

- Luisinha, “meu bem”, sou eu mesmo! Se você notou, por que não me perguntou sobre a estranheza nem foi atrás, acenando, pulando, sei mais o quê?

Claro, diante da dificuldade de aproximação, decidi mostrar presença! Na volta do trabalho, passava pela porta dela. Tentava despertar mais interesse. Buscar um encontro extra, uma surpresa, uma dúvida, motivos para incrementar o que está fraco. Chamei a atenção, sim, mas ficou nisso, sem reação.

Mas há esperança, penso. Avalio que deve haver, no mínimo, um “sabor” na nossa relação. Relação esta distante. Não posso afirmar que existe AMOR – seria forte. “Quem ama cuida”, diz a música, o que não ocorre, e me deixa triste, confesso.

Esta “largueza”, que nos acompanha, e não o “grude”, instiga-me a continuar batalhando pelo nosso pseudorrelacionamento, querendo estreitar a distância, inventando-me a cada momento. Imagino ser salutar, não? Ou é sofrido?
Deixo no ar, para pensarmos.

Porém, para complementar as ideias, surge o momento de revelar um drama que deve contribuir para este “vai não vai” de Luisinha. O passo à frente e o imediato recuo que frequentemente ela cumpre.

Há alguns anos, quando não a conhecia, ela estava pronta para casar. Refiro-me ao próprio dia do casório.

Foi ao salão preparar-se para a cerimônia. Durante os preparativos, caiu “aquela” chuva na cidade, de inundar tudo. Quando foi pegar o carro para voltar, a rua estava cheia, intransitável. Mas impulsiva como é, mandou o motorista avançar. Mais adiante, o carro enguiçou por causa da água. De repente, ela viu-se em pé na rua alagada, na lamentável situação: maquiada, penteada e de véu. Ah, e sem os sapatos! Em segundos, ficou toda molhada, com tudo aquilo que levou horas para ser feito desmanchando-se, escorrendo pelo rosto, e o véu, embora curto, murcho, despencado.

Conseguiu, no entanto, chegar a casa. Destroçada, mas firme.

Apressadamente, reverteu a coisa. Arrumou-se com o vestido que não esteve na chuva, desprezou o véu arrasado, recuperou, ela mesma, a maquiagem e o cabelo, e largou-se a enfrentar novamente a água. Havia de triunfar, depois de tanta determinação diante da amolação.

Conseguiu, finalmente, chegar salva à igreja.

Mas faltava o noivo.

Resultado: ele não chegou. Não apareceu o tal de Fernando. No seu carro, a caminho do casamento, também na enchente, não pôde evitar cair no rio Jaguarão, dentro do veículo. Acharam-no, rio abaixo, ainda com o cravo branco na lapela do paletó de noivo.

Que má sorte dos dois (mais a dele, aliás!). Chuva assassina!

Provavelmente, Luisinha carrega o peso da tragédia, como um freio, travando a sua decisão de envolver-se definitivamente com alguém. Está de permanente quarentena, ressabiada. Passa essa impressão!

E eu sinto as consequências.

Aqui comigo, crio a esperança de que as coisas têm um tempo e o tempo, do mundo, resolve, obviamente com a nossa intermediação. Precisamos ajudar o acaso ou as circunstâncias. Mas vamos e venhamos, dois anos é um tempo excessivo para indecisões. Urge que o pacote seja fechado. Com solução favorável ou não.

Sonhar não custa nada, mas esperar sem limite custa, e como! O coração baqueia.

Passei a entender que cabe a mim forçar o desfecho da dúvida. Dar rumo. Para um lado ou outro. Necessito desadaptar-me do vazio, da pasmaceira. Desagonizar!

Alfredo Domingos

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Cinderela urbana

Fonte da imagem: foto do autor (17/5/2017)

Desci do vagão do metrô, afobado, andando acelerado, na direção da rua. Estação Uruguaiana, no Centro do Rio. Manhã sob nuvens e vento frio circulando.

O trabalho aguardava-me com um repertório extenso de tarefas. 

No início da escada rolante, constatei que ela estava parada. Não sabia do que se tratava. Um transtorno a mais, apenas. Pus-me a subir os incontáveis degraus. De certa forma despreocupado, considerando que fora obra do acaso.

No topo da escada, no entanto, fiquei surpreso ao verificar o exato motivo da paralisação do meio de acesso.

Como a imagem acima expõe, o “pomo da discórdia” era um sapato de salto, de elegante confecção, que, por descuido ou outro motivo mais grave, ficou preso na plataforma superior da escada rolante.
 
A dona do objeto, a protagonista da cena, que roubava esta posição do sapato, era moça de trinta e poucos anos, de cabelos longos e alourados. Trajava conjunto de saia e blazer, ambos em cor pastel, blusa branca discreta, meias finas compridas, um lenço de tom róseo, de seda, envolvendo o pescoço, e, completando, a bela figura, diga-se de passagem, trazia uma pasta preta, que induzia a pensarmos que havia um laptop no seu interior, o que é equipamento que oferece “status”, mesmo nos dias atuais, nos quais as redes comerciais oferecem o material a preços acessíveis, em parcelas generosas e a longo prazo. A descrição fundamenta a condição observada por mim de que se tratava de gente de bem, que certamente se tornou vítima de um infortúnio profundamente desagradável, cujas consequências jamais foram pensadas. 

Anote-se que a fila dos passantes, com aqueles que não conseguiram galgar a escadaria, era enorme, já fazendo burburinho em sinal de reclamação pela espera.  

A descrição, falemos de novo, ganha consistência, quando revelo que ao redor da moça havia volumoso grupo de homens, todos gentis ao extremo, na tentativa de livrar o sapato. Ops!... Retifico - na tentativa de livrar a criatura, isto sim, do aperto pelo qual passava. Heróis em potencial, para tentar aproximação - eu imagino. 

Cinderela da cidade, na brincadeira de Saci Pererê, num pé só, fazendo o possível para manter-se em posição ereta. Beleza reluzente, mesmo no aperto.

O que acabou ficando engraçado, confesso, foi a minha atitude repentina de atravessar a massa do entorno, abaixado, afastando um a um, para chegar até a moça. Ufa! Ponha luta nisso, viu! Com o celular na mão, meio sem graça, cheguei a ela. Quando me dirigi:

- Incomoda-se que eu tire uma foto do sapato preso? Achei a situação inusitada. Como sou cronista, penso ter conseguido uma boa matéria. Risos! Não incluirei você, em respeito a este momento constrangedor. 

Recebi de volta a aceitação, sem problema.

Retirei-me do local com sorrisos. Refleti que as situações ridículas ocorrem e que estamos sujeitos a elas (a restrição é que a pessoa não deve se machucar, obviamente). Ter espírito desarmado ajuda bastante. Os aborrecimentos estão por aí a nos rondar, então para quê o estresse, se o seu sapato ficar preso, se suas chaves caírem no bueiro ou, ainda, se houver um escorregão na rua?

Libere-se, viver requer “savoir-faire”!

Alfredo Domingos

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Para não chegar (pressa, incertezas e afins)

Estamos envoltos no “indo” (gerúndio) e no “será (futuro). Coitado do presente, abandonado. Geralmente, residimos na transição – “a empresa está revendo as suas estratégicas”; “os empregados estão sendo capacitados”; a lei passa por mudanças; para citar algumas das falas e procedimentos. Ou, então, tudo se resolverá para frente – “a empresa entrará em novo ciclo de prosperidade; “o governo tomará todas as providências”; “novos servidores serão admitidos, proximamente”; e, assim, transpomos o presente na busca do que ainda virá, e que sempre será algo novo e maravilhoso... pena que, somente na imaginação e nos planos “furados”! 

Pergunta: quando o presente acontece, afinal? (para não dizer “quando o presente estará presente?”) 

Tudo fica para depois. Tudo precisa ser refeito. Tudo está inacabado, em pleno 2017. 

Outra pergunta: quando virão a “prontificação”; o “resolvido”; o “estamos já na nova fase”; e o “planejamento encerrado e colocado em prática”? 

Precisamos penetrar e fincar o pé nas vozes ativa e passiva dos verbos, para que expressemos que as questões estão efetivamente resolvidas. Dessa forma, é que as coisas são encerradas. 

Duas moças pedalavam as suas bicicletas reluzentes, na Orla Conde, no Centro do Rio, semana passada, trocando ideias sobre alguma corporação que tem a sigla “KST” (não sei do que se trata). O que consegui ouvir da conversa, num curto tempo, foi: “A KST está repensando as suas políticas. Em breve ocorrerão mudanças”. 

Desculpem-me as moças, mas disseram o nada! Claro, que não acompanhei o contexto. Foram duas frases soltas para os meus ouvidos, porém, é necessário possuir muito contexto para que esse trecho tenha alguma relevância. 

Praticamente, todos nós estamos nessa vibe de mexer, alterar, revitalizar, reformar, etc., pretendendo chegar, sem alcançar resultados concretos. É um querer sem fim, brilho nos olhos para conquistar. Ansiedade. Alegria extrema. Mas ficando pelo caminho, infelizmente. 

O procedimento antigo do fazer devagar, com cautela, estudando prós e contras, para obter solidez, está em desuso. No embalo do face e do zapzap, com dedos nervosos, vamos antecipando, pulando etapas, terminando de qualquer jeito. Ampliando águas, que não deságuam em oceano algum. A pressa está dominando as ações. Corre-se para o quê? Chegamos sempre atrasados! Não é verdade? 

Aliás, a pressa merece reflexão. Estamos todos afobados. Espavoridos e esbaforidos! 

Reparo que rapidez e proatividade são diferentes da pressa louca. Realizar uma tarefa com pressa, às vezes, é melhor não fazê-la. Há confusão nesse quesito. 

A pressa desponta quando algo saiu do seu curso normal, geralmente motivado por falha no planejamento. O apressamento contamina as outras pessoas. Daqui a pouco, já estamos todos correndo com os nossos afazeres.

Surgem casos de a pressa virar rotina, o que estressa e faz com que o produto final das várias tarefas fique prejudicado. Aí, voltamos ao gerúndio e ao futuro. No meio da correria, começam os comentários: “Fulano está fazendo tal coisa para me entregar. Só depois, farei isto”; “estou aguardando pelo relatório “x”, para realizar a minha parte”; e “somente amanhã, conseguirei terminar este trabalho”. 

A qualidade cansou-se. Esvaiu-se. Para recuperá-la, precisaremos de tempo e de trabalho. Entendo que o pouquíssimo está muito, nas contrapartidas das exigências. É um vazio de solução que está por aí. 

E o detalhamento? Sofrido. Relegado. Não temos paciência nem atenção para aparar arestas, contornar situações, aplicar berloques, longas explicações e usar a correta Língua Portuguesa. Tristeza! 

Há, porém, a certeza de que um dia, mesmo demorando, teremos que chegar... e alcançar os objetivos. Não podemos procrastinar por toda a vida. Atitude, irmão! 

Alfredo Domingos

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Deixe o carnaval nos levar!

Um amigo escreveu-me dura mensagem, tratando do carnaval. Revestido de pessimismo, alegou que “não entende o povo brasileiro, esbaldando-se nos blocos e nas festas de carnaval”. Continuou ele indignado com a efêmera alegria “de quem é tão sofrido, maltratado, mal-assistido e sem condições mínimas de trabalho, como exemplos”. 

Resolvi responder, em defesa do folião! Lancei mão de um papelzinho para entregar, como quem não quer nada. Para deixar debaixo do pires da xícara de café, em um dos nossos encontros matinais. Entendo que matéria escrita, com a nossa letra, causa mais impacto. 

Preparei o pequeno texto, transcrito abaixo. 

Carnaval de fato é passageiro, porém, é um momento de liberdade, sem chefe, sem contas a pagar, sem ponto para bater, hoje eletronicamente, sem paletó, sem macacão e equipamentos de segurança e sem os demais elementos incômodos e sérios. 

O sujeito canta, pula, grita, mexe-se, coloca os braços pra cima, bebe; tudo isso se sentindo livre, às vezes no descer e subir das ladeiras das cidades, escoando-se como o próprio chope derramado, pelas ruas, meio sem rumo, mas dentro da festa. 

Desafinado, repete as letras das velhas músicas, que geralmente trazem conselhos de amor, de encontros, de satisfação, de divertimento, como na famosa “Máscara Negra”, de Zé Keti e Pereira Matos, onde encontramos versos deste jeito: “Quanto riso, oh, quanta alegria! Foi bom te ver outra vez! Eu sou aquele pierrô que te abraçou e te beijou, meu amor! Eu quero matar a saudade! Vou beijar-te agora! Não me leve a mal! Hoje é carnaval!”. Música e letra levantam o astral de qualquer um! 

Fantasiado. Oculto de si mesmo e dos outros. Encarnando personagens inimagináveis, até ridículos, contudo, sem pensar em atribulação. 

Sai dali esgotado, bebum e pronto para mergulhar, em busca do sono profundo, na primeira cama que pintar. Terapia “de grátis” e divertida. 

Ao acordar, ainda sonolento, é que, aos poucos, retorna à realidade. 

Assim, tendo tido lampejos de diversão, no turbilhão da luta diária, conseguiu um oásis de felicidade, de descontração. Isso não é bom? Sim, claro! O resto corre sozinho. Inevitavelmente. 

Alfredo Domingos

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Sonhar não custa nada e faz bem

Lufa-lufa, corre-corre, confusão, atropelo e mais outros tantos substantivos podem indicar a complexidade do nosso dia e a agitação do nosso cérebro, embora, na maioria do tempo, seja o verbo que nos inferniza, designando tarefas.

Vivemos num encadeamento de obrigações, incluindo a rotina de trabalho e, até, a diversão. Ademais, há a íntima relação com as redes de comunicação, que absorvem a maior parte das atenções.

Nos raros instantes de não se fazer coisa alguma, é permitido, e também salutar, sonhar. Um bom instante para isso é o curto lapso de tempo, antes de pegar no sono. A imaginação voa e o torpor da sonolência vem nos abraçar.

É imensamente prazeroso levantar voo, permanecendo no mesmo lugar, com os pés no chão, pensando em passagens agradáveis, chamando para nós aquilo que oferece prazer. Estudos de neurocientistas apontam que sonhar acordado é benéfico. O sonho aceita tudo, ainda mais se engendrado pela nossa engenhosa cabeça. Igual a texto no papel. Nem precisa ser verossímil, sensato e embasado. Ocupa a seara do poético. Não necessita de início, meio e fim. Flui ao gosto do sonhador. Adapta-se conforme a sua vontade. E o melhor é que sendo do agrado atrai o bem-estar, quando estamos em sintonia. Dá a ideia de superpoder, com o qual podemos comandar o presente e o futuro.

Quando algo me aborrece, além de apurar a respiração, peço socorro às ideias, deixando-as soltas, para que a paz retorne. Invento. Crio histórias do meu jeito, normalmente maravilhosas e bem-sucedidas, evidentemente. Acabo dando risada e experimentando prazer. Será uma forma de terapia? No meu sentimento, sim. Escolho apropriar-me de “leveza” e de “o menos é mais”, no cumprimento de conselhos tão atuais, visando estabelecer um “clima” favorável aos devaneios. Devanear faz bem.

Busco personagens simples, que julgo serem interessantes. Boas pessoas para que eu fique bem cercado. Não imagino maldades, traições ou mortes. Os personagens, apenas, somem, não mais sendo lembrados, a partir de saírem do contexto. Desvanecem-se. Quando estão na roda-viva dos acontecimentos, são atuantes, criativos e bons. Procuro atrair a bondade, trago-a para mim, para me acompanhar.

De repente numa história, sem fim por enquanto, pois o roteirista sou eu e estou vivinho da silva, destaquei um personagem do restante dos participantes – Alice. Companheira-namorada. De nome doce ao pronunciar e de imaginar, ligado à nobreza, segundo os estudiosos de onomástica, e ao mundo lúdico de Lewis Carroll. Faço conexão direta entre a Alice criada por mim e a do País das Maravilhas, de Carroll, embora as idades e as épocas sejam completamente diferentes. O coadjuvante número um sou eu, que transito no entorno de Alice, a protagonista. Preferi assim.

À volta de Alice, resolvi inserir pessoas diversas daquelas das minhas amizades reais. Vou ao encontro de outras cabeças. Penetro no novo, uma vez que o sonho abriga qualquer conceito de comportamento, ou até nenhum conceito. Gente que seja de seara alheia à minha, ligada, habitualmente, às artes, às atividades esportivas, à gastronomia e ao lúdico. Busco trajetórias do gênero blasé cujos assuntos me atraiam e gerem conteúdo com característica de sonho mesmo. Penso nos urbanautas (insistentes pessoas andarilhas das cidades, caminhantes sem freio); nos cozinheiros das horas vagas, mestres-cucas amadores; nos violonistas ou pianistas solitários, que dão audições fechadas, pra pouca gente, nos sábados à noite, tendo como ouvinte atenta a chuva na vidraça; e assim vou arrebanhando pessoas de vários gostos e origens, para somarem com os seus comportamentos.

Ah! Na invenção, Alice possui uma filha, de outro homem. Moça casada, que mora fora da nossa cidade. Com a vida resolvida, não nos trazendo incômodos.

Programo, às vezes, uma viagem até a cidade da “enteada”. Passagem rápida, com algumas atividades como caminhada, escalada, etc. Faz parte do lazer pra relaxar. Sair da rotina.

Conhecemo-nos da maneira mais trivial possível. Esbarrão na saída do mercado. Desculpas dos dois, e convite a ela se queria companhia até a casa. Aceitou, desde que a deixasse na calçada, em frente ao edifício, evitando invasão. Concordei. Troca dos números dos celulares. E, dias depois, marcado o primeiro encontro. A partir daí, somente alegrias!

Alice é campeã! Gente fina. Cordata. Paciente. Fala mansa. Disposta para as aventuras. Elegante no vestir, sem exageros, e, principalmente, de gestos gentis. Eu precisava dourar a pílula da personagem! Sem o quê não haveria graça.

Ela nunca teve um parceiro fixo, como se diz. O que pensou que daria em amor definitivo durou o suficiente para ganhar a bebê. Depois, findou num estalo. Não sendo necessário tecer detalhes.

Os meandros do sonho louco permitem comparação com a feitura de refeição de fim de semana, onde os panelões e as grandes quantidades têm espaço. Colocamos ali um pedaço substancial disso; quilos de material com sustância; colheres daquilo; pitadas daquilo outro; bastante coisinha boba e inofensiva, que não matará os comensais; raspas de coisa consistente; algo que irá dar cor; folhinhas verdes para proporcionar frescor e agradar aos olhos; e, se houver fôlego, conseguimos uma travessa refratária para gratinar o que for sem graça.

A escrita, ainda que mental, pode ter a concepção inventada acima. Sem problema. Cabe tudo no panelão da cabeça, assim como na gororoba que o fogão produz.

No seio disso tudo, lanço mão de uma mochila. Carrego-a nas costas, e me utilizo das “facilidades” que ela guarda. Seu papel é especial. Dali, tal e qual os recadinhos do realejo, retiro intervenções para enriquecer o sonho. Coisas dos tipos: cada um morando na sua casa; dirigindo o seu carro; fazendo suas compras; e administrando seu dinheiro. Somos praticamente da mesma idade, para não haver lacunas nos interesses. Ela professora universitária, de História, e quanto a mim deixo em branco. Sou o que sou, quase um anônimo para o “roteirista”. Risos!

As facilidades evitam conflitos. Sabemos como eles atrapalham. Dessa forma, não abro mão da mochila para a felicidade geral do hipotético casal.
Há dois professores, uma professora – os três da mesma universidade da protagonista - e a prima, que fazem parte do grupo mais íntimo. Alice tem irmã, mas não participa muito do convívio. Por motivos particulares, mantém-se um pouco afastada.

Os dois professores trazem a nós boas diversões, de tipos diferentes.

Um dos professores é pianista, fora da sala de aula, praticamente profissional, tão dedicado que colocou um piano de cauda, daqueles famosos, na pequena sala de casa. Brinda-nos em dois fins de semana, pelo menos, no mês, com saraus caprichados. Alguns tira-gostos, taças de vinho, cervejas, e faz a festa! Sujeito simpático, divertido, com vários casamentos nas costas ou nas lembranças. Esforça-se em ser bom anfitrião, uma vez que vive sozinho. Faz pequenos intervalos entre as músicas, para contar histórias, narrando conquistas, algumas bem-sucedidas, outras nem tanto, e também casos hilários. Ri de si mesmo. Há suspeita de que boa parte das conversas é inventada. Porém, isso não nos incomoda.

O outro amigo é sociólogo, professor de ideias progressistas, porém, é com a culinária que faz a sua praia. Possuidor dos mais diversos utensílios, que busca temperos, bons ingredientes e receitas refinadas. Frequentador de feiras e de mercados alternativos. Brinda-nos com belos pratos, na sua área, no apartamento térreo, ou deixando-os na portaria de Alice, de surpresa. Entusiasta de passeios por matas e por cantos escondidos, recolhe frutinhas e folhas comestíveis, fotografando curiosidades da natureza. Calado, desconfiado, mas com boas sacadas e de uma prestimosidade acima do normal. Sem casos amorosos para contar ou parcerias para revelar, reserva-se na sua intimidade.

A professora, com nome marcante, Joana D’Arc, traz, ao lado do marido, a face glamourosa da vida. A participação derrama o luxo no meu sonho, por meio dos grandiosos salões da residência, em Copacabana, endereço de frente para o mar, onde boa parte dos movimentos da cidade ocorre. Das passeatas à festa de final de ano, somos convidados para assistir, literalmente de camarote, aos grandes eventos do Rio. Janelões, praticamente, jogam-nos na areia da praia. Comparecemos todos. Geralmente, brindamos o momento com especial espumante e iguarias servidos por impecáveis garçons. Para completar, no campo das maravilhas, o casal coloca à disposição bela casa na Costa Verde do Rio de Janeiro, dotada de lancha, piscina e a indefectível churrasqueira, além de acomodações confortabilíssimas. Querer mais? Por quê?

O tom cômico, hilário, precisava fazer-se presente. Pronto! Aí entra a prima. Figura sem lenço nem documento, excessivamente espirituosa, tendo a comicidade como modo de vida. Viu-se sem o  companheiro, sem entender bulhufas. O camarada avisou que iria à esquina comprar cigarros. Para brincar ela rememora que era de uma marca antiga – Hollywood – de tradicional embalagem vermelha. Afirma que tem ódio deste nome, pois traz à memória o perrengue que ela passou, pois o homem, malandro, nunca mais voltou. Procurou-o em todos os cantos, inclusive hospitais e Instituto Médico Legal, sem sucesso, no entanto. Desistiu. Não encontrou apetite para fazer outra união.

A vida seguiu e se manteve dona do nariz, “sem estorvo”, como gosta de dizer. Assim, teve aulas de circo, de sommelier, de barista, história da arte e assim vai sem brecar a curiosidade e o arrojo. Parece-me que as invenções são propositais para passar alegria e distração às pessoas. Ah, ia esquecendo-me: ultimamente, faz curso de montanhismo. A idade, contudo, apenas para nos situar, passou dos cinquenta há tempos. Integrante de todas as ocasiões seja para casamento seja para enterro. Aparece sem avisar. Chega chegando. Convoca o pessoal da casa basicamente para três coisas: jogo de cartas, preparo de comidas e muito papo, sendo que este rola recheado de pitorescas situações, para não dizer doces mentiras. Outro dia, adentrou o apartamento de Alice com um polvo pelos dedos, mais vivo do que morto. Lançou-o sobre a pia da cozinha e falou:

- Mais tarde, trataremos deste aqui, enfiando o dedo indicador na carne do molusco. Fazê-lo é minha especialidade!

Bem, outros personagens caberiam na história, assim como poderia tecer tramas paralelas envolvendo as pessoas já citadas, mas pecaria pelo cansaço em pontuar ações e reações do dia a dia. Penso que dei a amostra do tema que queria abordar. Está resolvida a questão!

Gente, tudo isto é sonho. Doideira. Mas faz um bem danado! Dessa forma, uso de escapismo, em alguns momentos do meu dia atribulado, para ser gentil comigo mesmo, na tentativa sadia de misturar a dureza da realidade com o bem-bom do sonho. Trata-se do pilates dos pensamentos, a reviravolta do perfeitamente real em prol da fantasia. Para nos ajudar, Fernando Pessoa deu o recado: “O homem é do tamanho do seu sonho”. Claro, que ele comparava o sonho, naquela sua época, com o que se quer conquistar. Mas mesmo assim, vale o conselho do poeta, aqui na nossa conversa.

Agora, deixo a minha dica: sonhe. Bastante! Tudo é possível na imaginação. Não se avexe, não. Tudo se passará com você mesmo, com os seus botões, no fundo da alma.

Alfredo Domingos
(consulta ao texto "As vantagens de sonhar acordado", de Claudia Hammond, da BBC Future)

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Passeio por Minas e pela arte


Na andança por cidades interioranas de Minas Gerais, após breve passagem por Belo Horizonte, fui bater com os costados em Tiradentes. A cidade é encantadora! Cheira a história, a boa conspiração, a liberdade e a terra. O ar é ferrífero! Trata-se de um permanente entorpecer por parte da natureza. Ela não nos dá sossego. Que bom!

Um aspecto de destaque é a arte. Há ambiente e inspiração para qualquer coisa e mais um pouco. Foquemos, porém, nas artes plásticas. Dessa maneira, no ir e vir e no sobe e desce das ruas, cheguei ao atelier do artista e arquiteto brasileiro Sérgio Ramos, na Rua da Câmara, 83, fácil de encontrar, em pleno centro histórico de Tiradentes.

O local é aconchegante, a começar pela excelente hospitalidade, em uma agradabilíssima casa antiga, mas não velha.

Resumindo a arte de Sérgio Ramos, ele introduz em suas obras inúmeros elementos, sem dó nem piedade, como verificamos no quadro acima, A CRAVIOLA, de 2012. Encontramos, evidentemente, em destaque, uma vistosa craviola, rodeada por peixes, casas, pássaros, galhos de planta, escada, bandeirinhas e um possante gramofone, este dos tempos da vovó.

A multiplicidade de cores é espantosa e, ao mesmo tempo, perfeitamente harmônica, sem choque na estética.

Por outro lado, as formas dão show de bola! Curvas e retas brincam, num ótimo entrosamento, desafiando a boa percepção, porém, oferecendo chance ao entendimento.    Imaginemos a música invadindo o resto das coisas, por meio deste instrumento de cordas projetado pelo compositor brasileiro Paulinho Nogueira. Mas ao final da observação, o espírito fica sossegado e maravilhado. Não é que a composição plástica deu certo!

A obra em pauta, vamos e venhamos, inibe qualquer ambiente. Domina o cenário, justificando a crença popular de que beleza põe mesa e parede, sim, senhor!

Finalmente, é para registrar que Sérgio Ramos abriga no currículo mais de cinquenta exposições, com vinte e cinco anos de atividade artística, tendo como mote a sua seguinte expressão: “Gosto do desenho, de contar uma história, de criar algo positivo por meio da pintura”.

Alfredo Domingos

Ficha Técnica:
Dimensões da tela: 120x80 cm
Técnica: tinta acrílica sobre tela
Fontes da pesquisa e da imagem: http://pt.wikipedia.org/wiki/Craviola e material promocional do artista
Observação: a craviola é construída pela fábrica Giannini. Possui o formato parecido com o do violão, e sua sonoridade recebe influência do instrumento cravo misturada com a viola, característica que deu origem ao nome.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Em minhas mãos

Na loja de soutien, durante a espera, veio à cabeça de imediato ter os seus seios em minhas mãos.

Descarto a peça para ficar com a alma, com o desejo da alma.

Livre para ter você, minha querida. Sair do sério. Gritar de alegria. Abrir a janela para a vida. Tomar o vento das boas novas, que só o bem-querer proporciona.

Rir, melhor ainda, gargalhar! Até a cabeça virar para trás. Ficar bobão.

Agarrar vc pelos braços, firme. Sentir o tremer. Encarar. Testa com testa. Provar as lágrimas dos dois. Quentura. Rodopiar de amor.

Beijos. Abraços apertados. Derrubar na cama. Acarinhar. Correr o dedo. Alisar o cabelo.

Corpos grudados. Falar baixinho, tão baixo quanto gemer. Todas as coisas. Da saudade. Da distância inclemente. Da vontade.

Morder a ponta da orelha. Os lábios. Beijos.

Acariciar o rosto molhado. Enxergar pelos seus olhos azuis, quase um oceano. Mergulhar neles. Lembrar-me de que vinham aos meus sonhos, insistentemente. Porém, tão distantes. Angústia.

Então, de repente, ali, proximamente. Meu Deus, que maravilha!

Suas pernas maravilhosas, pra enroscar. Pé com pé, vc comigo. Respiração descontrolada. Barrigas dando entre si. Seios em mim. Resistir para o quê?

Aproveitar. Fazer. Tratar. Dar. Receber!

Alfredo Domingos