quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Presente de Grego


Ando ressabiado e sumido. Recolhido. Uma gripe durou quinze dias.

E sonhos, muitos loucos sonhos. De quase urinar na cama. No último, acordei suado e espantado. Não consegui, ainda, esquecer o danado do sonho.
Tentarei contá-lo, não sei se chegarei às minúcias.

“Toque da campainha do apartamento. Fui atender. Na soleira, dois policiais à minha procura.
 Queriam fazer entrega de algo que diziam me pertencer. Mal deixaram a coisa comigo, sumiram.
 Num estalo.
 Sabe de que se tratava? Fico apavorado quando me lembro! 
Era uma cabeça humana com o respectivo pescoço. Cabeça de homem, ornamentada com barbicha e costeletas. Os cabelos eram ralos, ruivos. Os olhos? Não sei. Nunca os vi.
 A figura era desconhecida. Fiquei com o troféu, louco para me ver livre. Que terror!
 Estive em todos os cemitérios da cidade. Não fiz escolha de religião. Quis, inclusive, cremar.
As respostas foram iguais e negativas. “Não enterramos cabeça sem corpo, além do mais, sem documentos.”
 Imaginei, pela cabeleira ruiva, ser alguém do norte da Europa. Pirei na batatinha! Estive em várias embaixadas. Sem sucesso.
Isso foi feito por dias. Extenuado e desiludido, voltei para casa.
Enquanto não surgia outra solução, veio-me o insight de guardar na geladeira.
Aliás, preciso dizer que recebi o material congelado, depois, com o rolar do tempo, estava esquentando, quase ficando vivo! (por sorte, como revelei, os olhos estavam fechados – pense se estivessem abertos, à espreita. Cruz-credo! Arre!)
Nesse ínterim, tive a impressão de que a barba do “de cujus” crescia. Esquisito isso. Talvez fosse o efeito do meu transtorno emocional.
Percebi, assustado, que a boca relaxou e alguns dentes ficaram à mostra. Situação macabra, de um quase sorriso.
Nos intervalos das tentativas de resolver o impasse, buscava ferozmente descobrir quem era o dono daquele pedaço de gente. Cadê que reconhecia?! Que presentão de grego!
Voltando à geladeira, desalojei parte do que havia no interior e soquei o “troço” para dentro, como pude. Fechei a porta com pressa, ofegante. Fiquei uma eternidade agarrado, de costas, à geladeira, braços firmes para trás, querendo deixar o segredo inviolável.
Aí, lembrei-me de meu pai. Morávamos juntos. Em nome da verdade, eu é que me aboletei na casa dele, de intruso.
Se ele visse, de certo, não aprovaria guardarmos ali o estrupício, ao lado de carne, queijo, frutas e tudo o mais que comeríamos. Como?! Elementos vivos ao lado de coisa morta? Indesejável. Nojento.
Continuei agarrado.”

Acordei!
Alívio do pesadelo ou início do pavor?
A prudência indicou nem chegar perto da geladeira. Vai que...
Sentado na cama, refleti: se verificar, não foi tão ruim assim. O sonho pode ter representado, afinal, um prêmio. É, sim, fui premiado por ter recebido o cérebro de alguém, porção pensante do corpo! Ganhei a inteligência, o talento, o pensamento. Para o restante, não vale cogitar profundamente.
Em resumo, sobrou para mim aquilo que é a essência do existir, apesar de ser um retalho de morto. Estar sem vida pode ser desconsiderado. Preferi encarar dessa forma.
Pior seria se o recebido tivesse sido um joelho arrebentado ou um pé cascudo. Não haveria explicação para explicar. Desanimador.
Sabe que me conformei com o sonho e com o presente decorrente? O sonho, pensando bem, sonhara, foi-se.

Alfredo Domingos

(por questão de justiça, revelo que Allam (escreve-se assim mesmo), meu primo, deu-me o motivo deste pequeno conto. O tema, verdadeiramente sonhado, veio dele)

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Picadeiro do circo e das letras

A escrita para mim é um picadeiro, no cenário do circo.
Faço malabarismos,
Pulo,
Balanço,
Arrisco,
Vou às alturas,
Desço ao chão,
Mas não há rede,
É sem proteção.
São os sonhos que dão o ritmo,
Regidos pela inspiração.
Aí, vamos!
A vertigem desequilibra,
As luzes passam brilhantes,
No girar incessante,
O foco oscila.
Anestesia para corpo e alma.
O chão se envolve com o teto,
Num vaivém.
O tombo, às vezes, significa voltar,
Para refletir e recomeçar.
Refazer e corrigir o texto dói, porém, constrói.
Você escreve numa ladeira:
Ora sobe, ora desce,
Frases brilhantes, parágrafos medíocres.
O trapézio vai e volta,
Sobe e desce.
A vida no picadeiro tira o fôlego,
A vida nas palavras atua igual.
Cometemos excessos do mesmo jeito.
Há sustos aterrorizadores!
Incríveis são as descobertas!
Urge a cabeça erguida para a nova subida,
É necessário melhor elaborar as sentenças.
Colocar o ponto final é pousar,
Aterrissar em terra firme.
Mas também penso se existe essa terra.

Alfredo Domingos

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Romaria


É de sonho e de pó                                                  
O destino de um só
Feito eu perdido em pensamentos
Sobre o meu cavalo
É de laço e de nó
De gibeira ou jiló                                                
Dessa vida cumprida a sol

Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
E funda o trem da minha vida
Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
E funda o trem da minha vida *1

O meu pai foi peão
Minha mãe, solidão
Meus irmãos perderam-se na vida
A custa de aventuras
Descasei, joguei
Investi, desisti
Se há sorte eu não sei, nunca vi *2

Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
E funda o trem da minha vida
Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
E funda o trem da minha vida *3

Me disseram, porém,
Que eu viesse aqui
Pra pedir de romaria e prece
Paz nos desaventos *4
Como eu não sei rezar
Só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar *5

Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
E funda o trem da minha vida
Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
E funda o trem da minha vida

Compositor: RENATO TEIXEIRA DE OLIVEIRA (primeira gravação em 1977, por Elis Regina)

O Programa Globo Rural (8 de outubro de 2017) e a Revista Globo Rural, de outubro de 2017, considerando os festejos de 300 anos (12 de outubro) do encontro, no Rio Paraíba, da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Padroeira do Brasil, trouxeram uma homenagem à canção “Romaria”.

Alegrou-me a homenagem! Resolvi partir para a escrita, a reboque da inspiração deixada pelos veículos de comunicação.

A letra, de Renato Teixeira, que também fez a música, foi colocada acima, para deleite de todos nós. Aproveitemos, então.

Claro, que é música conhecida sobremaneira, ainda mais na voz marcante de Elis Regina, cuja mensagem de fé se tornou muito forte. Ao ser executada, comove e faz refletir, seja nas romarias a pé, nas igrejas ou nas apresentações da TV.

A melodia traz a sensação de estarmos numa procissão, em plena sessão litúrgica, pela carga religiosa e pelo ritmo. Olhar para si é mandatório. A contrição faz-se necessária. O momento assume atmosfera diferente e sagrada. Maria, a Mãe de todos, ressurge em cada rito onde a música permeia. Gente, a emoção está presente ao som de Romaria!

Esmiuçando a letra, encontramos curiosidades e licenças poéticas. Tudo a que o poeta tem direito. Vamos percorrê-la. 

Até *1 (vejam na letra), o autor se identifica como cavaleiro, caipira, indicando o trem como representante da sua vida passante, e nos apresenta Nossa Senhora de Aparecida, pedindo luz. Curiosa é a inserção do “jiló”, carregando o seu amargo para indicar o difícil da vida, complementada por “vida cumprida a sol”, colocando a aridez inerente ao sertanejo. 

Até *2, o autor trata da família. O pai na lida, correndo mundo, a mãe solitária nos trabalhos domésticos. Os irmãos nas traquinagens. Ele no dia a dia comum, sem, porém, encontrar a sorte, que costuma aparecer simbolicamente, assim mesmo quando se faz algo extraordinário, não sendo, na verdade, a tal sorte caída do céu, do nada, mas fruto de esforço, de labuta. 

Até *3, sequência repetida, sem novidade. É interessante assinalar que o autor, ao ser perguntado sobre como interpretar “ilumina a mina”, simplesmente, respondeu: - gosto do som que ficou em “...mina” a “mina”. Criação de artista a gente aplaude, não é?

Até *4, trecho pequeno mas recheado de fé. São abrangidas a “romaria” e a “prece”. A primeira no ir ao encontro do momento de agradecer e de pedir, e a segunda exprime a devoção, a súplica. Ainda, consta do pedaço “Paz nos desaventos”, que segundo Renato Teixeira, “desaventos” poderia significar aquilo que está desarrumado, precisando de paz, como ventania inconveniente. Contudo, Renato usa de sinceridade ao confessar que não sabia da inexistência da palavra nos dicionários. Se foi inventada, não importa, coube bem no conteúdo proposto. Valeu!

Até *5, trata-se de espécie de desabafo. O olhar enternecido e, também, esperançoso de tempos melhores substitui a reza que lhe falta. Dessa forma, nem tudo está perdido. Renato, com sua voz mansa, deixou escapar que não sabia como terminar a estrofe. Depois de matutar, obteve fácil solução: repetir “meu olhar”. Talvez não tenha imaginado que a repetição ratificou a crença e deu continuidade ao olhar devoto. Aqui a melodia entra num remanso, dá uma travada, que combina com esse olhar em oração e em espera.

Até o final, houve outra volta ao que se pode chamar de “refrão”, com ênfase para: “Sou caipira, Pirapora nossa”. Este “nossa” afastado de Senhora de Aparecida, que desponta na linha abaixo. Não sei, não, mas está com pinta de ter sido imaginado com duas funções. Apadrinhar a cidade de Pirapora do Bom Jesus, chamando-a de “nossa”, amavelmente, e deixar “Senhora de Aparecida” triunfar sozinha, dando luz à mina. Vai saber...

Vamos curtir, daqui para frente, um pouco mais “Romaria”! Transformá-la em música de fundo de nossas vidas, sofridas ou não. Tê-la nas aflições, para redobrar forças, porém, não desprezá-la nos momentos prazerosos, em demonstração de sabedoria.

Alfredo Domingos

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Sirigaita Escalafobética


– Que “sirigaita escalafobética”, esta Juju!

A frase motivou risada da turma, na esquina das ruas Bartolomeu de Gusmão e Indaiá. Juju é conhecida no pedaço. Inclusive, já namorou alguns dos integrantes da roda de conversa. Ela mora no nº 38 da Bartolomeu. Seu caminho, então, é por ali, indo de ceca em meca.

Sem dúvida, é espevitada, sempre tramando espertezas. Fica à frente das novas ideias. Lidera as iniciativas. Promoveu comemorações durante os jogos da Copa do Mundo de Futebol; agitou festas juninas e julinas, também; arrecadou fundos para vizinho que perdeu tudo em incêndio na residência; e daí em diante. Para completar, não leva desaforo para casa. Responde na lata, tudo, em cima da bucha. É um tanto extravagante, estrambótica! A excentricidade inicia pelo cabelo vermelho, curto, e pelos piercings espalhados pelo corpo e termina na extensa tatuagem, nas costas, sobre a pele alva. De pernas longas e finas, vai de passo largo, traçando rumo, embora sem régua e compasso. Mas segue firme, não há o que lhe trave.

Pronto! Nos parágrafos acima, foi explicada, bem no feitio do “Aurélio” e na linguagem da moçada, a expressão “sirigaita escalafobética”. Legal, eu mesmo gostei! Fiquem à vontade para criar coisas do gênero, recomendo.

Alfredo Domingos

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Viajar é colocar reticências...

“Viajar é colocar reticências naquele momento de vida”. Penso assim e explicarei mais adiante.

Mas a escritora Martha Medeiros concebe diferente, uma vez que em nove de julho, escreveu na Revista Ela, de O Globo, que “viajar é abrir parêntese na vida”.

O tema, já deve ter sido percebido, aborda alguns dos sinais de pontuação, usados na Língua Portuguesa, inseridos completamente em todas as nossas atividades, na escrita e no falar, nem que seja na entonação.

Martha incluiu no texto certa aflição no antes do embarque e inquietação durante a viagem. Ela tratou do deslocamento aéreo, e o nosso foco será nele, também, para analisar da mesma forma.

Mas complementou, alegando que, ao chegar ao destino, livra-se de todo o peso e parte para aproveitar.
 
Bom, agora estou pronto para colocar o meu ponto de vista.

Primeiro dou o entendimento da gramática sobre reticências: indicam interrupção/fatos em curto espaço de tempo/supressão de um trecho.

Pois bem, aproveitemos o conhecer do professor Evanildo Bechara para fazer analogia com a temática da viagem: “interromper” pode está atrelado a deixar a sua rotina e resolver parar, ainda que temporariamente, para viajar. “Fatos em curto espaço de tempo” remetem ao próprio período do passeio, que geralmente é limitado, repleto de emoções, tendo a ver, obviamente, com viagem. “Supressão de um trecho” sugere deixar de fazer o de sempre, retirada de um pedaço com o qual você estava acostumado, o que perfeitamente se encaixa na continuidade da vida, que de repente perde o seu fluxo normal, em função da viagem.

Posso dizer que a gramática nos ajuda a sustentar a validade da ideia das reticências?

Digamos, todos, um grandíssimo “SIM”, pelos argumentos por mim apresentados acima.

Exponho agora a conotação de reticências, moradora no meu imaginário: adoto que as reticências são meninas recatadas, pra lá de educadas. Dão o recado nas entrelinhas, não escancaram objetivos, nem pressão; fazem suspense. Deixam a avaliação para o leitor. Interpretação livre. Carregam alegria ou tristeza. Oferecem liberdade, são democráticas. E andam em grupo, na formação de trio.

Viajar com base nas reticências aponta a dúvida sobre o que será encontrado, retrata a ansiedade e a expectativa por novidades. Por mais roteiro que haja, o inesperado assume grande impacto.

Já na ida para o aeroporto começam as traquinagens da empreitada. O transporte acontecerá dentro do combinado? Sem atraso? O “check-in” na companhia aérea não trará surpresas? As malas chegarão ao destino, sem mexidas do alheio, perdas, etc.? A passagem pela alfândega será normal? O passaporte passará incólume pelos controles virtuais, agora implantados? E, assim, as dúvidas vão se sucedendo...

Na decolagem do avião, você decide se entrega a Deus e relaxa ou morre logo de medo!

Uma vez nos céus, com a aeronave nivelada, surge um “certo” alívio, se os ventos e as turbinas estiverem favoráveis.

Boa sugestão ao viajante é que ele se entregue a Morfeu, Deus grego dos sonhos. Durma tranquilamente, ainda que de cabeça torta e pernas encolhidas.

Voltando à escrita da Martha, peço licença para discordar, quando ela afirma que, no destino, fica em estado de calmaria, descontraída. Não é bem assim...

Em terra, novas apreensões assolam, se conseguirmos chegar ao hotel sãos e salvos.

Abrimos mala, fechamos mala. Verificamos mais de duzentas vezes se ela está efetivamente trancada. Cá pra nós, em função da apreensão, esquecemos o segredo do cadeado ou não nos lembramos de onde deixamos a chave.

Não achamos aquela camisa preta, bem na hora de sair. Aí, optamos pelo ridículo, ficar descasados nas cores e nas indumentárias. Porém, não perdemos a pose, alegando:

- Turista é assim mesmo, de qualquer maneira. Não há quem ligue.

Compramos água na esquina pra economizar dinheiro do frigobar, mas não nos importamos em gastar pernas e paciência, na peregrinação, atrás de pequena economia. O que vale é pagar menos, em qualquer circunstância, embora desconsideremos a despesa de maior monta, já realizada, com passagem, hotel, etc.

A permanência no destino da viagem não é coisa de se tirar de letra. É tensa! Mil atividades, que mesmo que neguem, geram ansiedade e desconforto. Costumo brincar, relembrando os anúncios de turismo, em que alguns deles repassam viagens mirabolantes, do tipo: “realize o seu sonho, viaje conosco numa programação de dez países em nove dias”. Aí, vira correria infindável, sem proveito em parte alguma, entrando e saindo de hotel, além do rígido horário, de colégio interno, até para ir ao banheiro.

Para complicar o que é complicado, por si só, há outros inconvenientes: grupo grande deslocando-se, sempre com algum dissabor, longa espera até que todos estejam prontos ou que cheguem aos pontos de encontro, imprevistos de saúde, de dinheiro, de lidar com a língua estrangeira, e por aí vai... Sem nem tocar na tal doença do viajante, que faz com que o banheiro seja o recinto mais visitado. Que Louvre, que nada!

Essas aventuras sugam o ânimo do viajor. A diversão fica prejudicada pelas circunstâncias, a não ser que a pessoa releve tudo, passando por cima dos contratempos.

E vamos combinar que surgem, pelos caminhos, contratempos de “derrubar”, mesmo quando os envolvidos formam um animado time de turistas. Que tal topar com o furacão “Irma”, enlouquecido, desembestado por mares e terras?

Haja reticências para representar as surpresas, os sustos, mas, também, as alegrias de uma viagem!

Além de tudo comentado, existe, no meio do turbilhão de aventuras, a compra voraz de coisas que nunca serão usadas, não cabem no indivíduo presenteado ou não agradam. Surge, então, a clássica pergunta ao retornar: - Por que comprei isto, meu Deus?

Alfredo Domingos.

A idade é o de menos

Inferno... de garoto! Vive atrás de Julinha. Arruma mil motivos para estar ao lado dela.

Sempre dizendo:

- Ju, espere por mim.
- Ju, ajude na minha agenda.
- Ju, vamos estudar juntos.

Enfim, é assim! Numa pequena amostra.

Ela é quieta por natureza. Não diz taxativamente “sim” nem “não”. Simplesmente, faz companhia, vai no embalo.

A idade é o de menos. Estão no início da adolescência. A pureza mora ali. Mas o coração está disparando por tudo e por nada. Mais por tudo!

Não sabemos se é AMOR. Talvez... Porém, afirmamos que é um grude só. Nossa Senhora!

Ela muito delicada. Baixinha. Branquinha. Magra. Cabelos bem pretos.

Olhos vivos são a sua especialidade. Curiosos, em busca de coisas ao redor.

Usa em excesso o “por quê?”. Quer saber muito sobre os momentos e as circunstâncias que os preenchem.

Ele faz um tipo semelhante, mas com diferenças capitais, que veremos adiante. Ajeitado. Branquinho. Óculos. Cabelos alinhados, no estilo. Carregando a Infalível mochila, com o escudo do clube de futebol.

A dupla caminha pra lá e pra cá, dando risada. Andando para não chegar. Jovens olhares iluminam o caminho. O riso é misto de alegria e de nervoso.

Estão na fase lúdica de esconder material escolar, jogar bilhetinho na mesa do outro, fazer caretas e trazer o lanche de um para o outro.

Depois do primeiro semestre de aulas, após as férias, foram correndo para a porta da escola, ofegantes, ansiosos. Encontraram-se num profundo abraço, de perder o fôlego e de dar dor na boca do estômago.

Ela tem mãozinhas de dedos finos, com unhas rentes, cortadas até o sabugo, reminiscência do colégio interno.

Atende ao tilintar do WhatsApp no mesmo instante que ele a chama. Cumpre horários, chegando sempre adiantada, pronta para o que der e vier. Obediente às regras e responsável.

Ele é mais apressadinho, fere um pouco as horas marcadas, atrapalhado, e recorre a ela frequentemente. Mas há uma qualidade a destacar: usa de bom humor, sendo engraçado, espirituoso, quase irônico.

Suas notas nas matérias são menores do que as de Julinha. Isso importa? Não sabemos responder. As virtudes são múltiplas. Num casal, os complementos são essenciais. Não devemos dar peso às faltas e aos excessos. Estes estão presentes, certamente.

Fazem um par semelhante ao cantado pela banda “Legião Urbana”, em “Eduardo e Mônica”. O poeta expõe os contrastes. No nosso caso, pode igualmente ser que a “liga” da parceria esteja nas diferenças. Quer saber? Acaba dando certo!

Sexta-feira passada, na volta para a casa, os dois iam, como de hábito, com a conversa agitada, quando Marcelinho parou e pegou Julinha por um dos braços, mudando de assunto e atacando, direto e reto:

- Ju, vou perguntar: qual será o momento de darmos um beijo de verdade?
- Há quanto tempo estamos juntos (o termo “juntos” foi forte, mas...) sem que coisa alguma tenha rolado? Nem um beijo decente, “daqueles”.

Julinha permaneceu muda.

- Poxa, o que está faltando, caramba? (perguntou com ênfase)
- Nós damos beijos, sim, você esqueceu? - Ela respondeu tímida, falando baixinho.
- Sim, mas são beijos sem graça, no rosto. Parecemos, até, parentes ou amigos.
- Diga, quero lhe ouvir.
- Marcelinho, calma. Primeiro, faltou que você tivesse um pouco de “técnica”. Beijo não é para se anunciar ou perguntar a respeito. A vontade nasce. Evolui conforme a ocasião. E pronto, acontece! Ocorre que preciso me expressar sobre o quê sinto: ainda não estou à vontade para isso. Tenho, por enquanto, uma sensação esquisita. Entendeu?
- Bem, então precisamos meditar, “profundamente”, sobre o motivo de um beijo na boca ser esquisito. Podemos dar um tempo. Sei lá... durante essa reflexão toda. Só reconheço uma situação real: somos os verdadeiros “BV” (Boca Virgem).
- A nossa próxima atitude, sem dúvida, é sairmos daqui. Estamos no meio da calçada, com todos passando à volta, seu Marcelo Alcântara.
- Não se preocupe, resolverei a questão. A solução está nascendo. Vou dizer como:
- Escute, esse beijo virá, com certeza. Não fique assustada se surgir de repente. Cá pra nós, será muito bom. Afinal, representa o desejo de nós dois, não tenho dúvida. Deixe que viajemos na maionese, pois a dupla estará feliz. Risada!
- Venha, precisamos mesmo desocupar a calçada, Júlia Matos.

Alfredo Domingos

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Como será o daqui a pouco?

O ELEVADOR PAROU. QUE COISA!

Estou sozinho aqui. Não sei se é bom ou ruim. Ao menos, não há gente chata para reclamar, aumentar a aflição. Mas quem sabe fosse bom ter alguém para melhorar o astral? Contar piada. Poderia ser.

Acionei o alarme e a emergência. Todos os botões disponíveis foram apertados. Nada. Esta praga não se move. Ainda bem que não colocaram espelho. Já pensou me ver assim assustado? Encarando-me de frente.
Tentei puxar a porta pantográfica. Nada. Está emperrada. Tudo age contra, nestas situações. Pode ser medida de segurança.

Fim de dia. Pessoas saindo do edifício, que é comercial. Salas e salas. Amontoado de gente indo para não sei aonde, ou ficando para o quê?

Inventei de voltar e apanhar esta pasta para, talvez, olhar o processo no fim de semana. Nem sei se dará tempo. Fazemos besteiras para resultado algum.

Pior, estava em plena rua, livre. E agora, por causa da pasta, estou preso aqui dentro. Deu no que deu. Que babaquice.

Maldita pasta.

No Exército, diziam que soldado no quartel, fora do expediente, quer faxina ou cadeia. Então, que faço aqui? Idiota.

Esmurrar a porta não está resolvendo. Vou desabar. Sentar no chão. Cansei.

Para piorar, a luz apagou.

Contar carneirinhos não é agradável. O sono não virá, de jeito maneira. Acalmará? Acho que não.

Cantar não emplaca. A voz não sai. Também, não sou bom de canto. Minha mãe adjetivava como péssimo.

Não consigo enxergar que horas são. O mostrador do relógio está no escuro. Um dia, haverá relógio com a hora informada diretamente, minuto a minuto, sem ponteiros, e poderá conter luminosidade. Será o máximo.

Faz uma hora ou mais que estou nesta furada.

Deus do céu.

Poderia escrever. Me amarro. Mas como? Cadê a luz? Caneta e papel até tenho.

O porteiro estava na entrada quando voltei. Não observou que não desci?

Não.

Chegou a dar um boa-noite com aquela voz rouca de sempre.

SOCORRO. SOCORRO.

Lembrei-me de gritar. Em vão.

Agora, calculo que tenha passado mais uma hora. O tempo é um mistério. Quando você não quer que passe, ele voa. Quando espera rapidez, ele se arrasta como o quê. Qual o tempo que o tempo tem?

Sei lá. É assunto cavernoso. Na garotice, gostava de estalar o dedo. Tick. Para tudo. Devia ser ansiedade. Falava: “Fulana, faça isso” - Tick. Marcava ritmo.

Estou impressionado de não receber sinal de vida. Uma alma boa para me socorrer.

SOCORRO. SOCORRO.

Maldita pasta.

Começo a pensar que ficarei o fim de semana inteiro aqui. Hoje é sexta. Loucura.

Vou acabar sujando as calças. Estou apertado. Trata-se do tipo 2.
Vou arrancar esta gravata. Não havia sacado que ainda estava de colarinho fechado e gravata. Nas situações de pânico, a gente fica apalermado ou excessivamente ativo, descontrolado. Se estivesse com algum incômodo no corpo, algo me espetando, não daria conta. O perigo maior centraliza a atenção.

O paletó, antes, tinha ido para o chão. Livrei-me logo do estorvo.

Maldita pasta.

Tenho vontade de abri-la e picar tudo do seu interior. De raiva. O que sobrar, lanço no lixo. Ela, inclusive. Com casca e tudo.

Malvina ficou de encontrar-me lá em casa. Bem que poderia dar falta cá do degas e vir me salvar. Não sei de qual jeito, mas poderia.

Mulher sabe criar na necessidade. E ela é danada para fazer isso. Costuma, à toa, tirar coelho da cartola. Solucionar. Gosto da conduta despachada.

Certamente, ao saber, dará uma daquelas suas broncas. Faz parte do cenário. Mãos nas cadeiras, nariz apontado para cima, cara vermelha e língua afiada. Adora mandar coisas do tipo: o quê você foi fazer lá, hein?

Ela anda estranha. Impaciente. Mais reclamona do que o normal. Só aparece nos fins de semana.

Será que estou com os dias contados? Acabará me detonando. Não saberei dizer o porquê. Espero que ela diga. Continuo o mesmo. Acho...

São cinco anos e tal de namoro. Cada um na sua casa. Ela mora com a irmã, uma chata de galocha. E eu tenho meu cachorro velho, Mr. Magoo. Cheio de manias. Igualzinho ao dono. Confesso.

Atualmente, tanta distância entre nós. Quer saber? A relação está cansada.

A Beth esteve me provocando. Fazendo-se de gostosa. Quase capitulei. Mas evitei confusão. Sou fiel. As duas se conhecem da academia. Tinha tudo para dar zebra. Cortei.

Eu preciso, ainda hoje, passar na casa da minha mãe. Estava me esquecendo. Dependendo da hora de este aborrecimento terminar, irei. Sem deixar de, primeiro, apanhar a “Vina”. Se eu bobear, ela estará desmaiada na cama, dormindo. Não vou dar bola. Farei com que levante para me acompanhar. Afinal, é sexta-feira. Dia de arejar.

Meu Deus. Continuo aqui.

SOCORRO. SOCORRO.

Vi que não adianta gritar. O prédio tem mais dois elevadores. Não estão sentindo a falta deste. Incrível.

No meu escritório, não deve ter ficado um puto. Quando voltei, somente o Barbosão estava.

Burro. Mil vezes burro, o que sou.

Lamentar não resolve. A encrenca está consumada. Daqui para frente, somente aceitarei trabalhar no térreo. Gato escaldado... Vou me virar para conseguir novo endereço.

Continuo na maldição. Calor. Breu. Prisão. Até que estou suportando.
No futuro, inventarão um telefone portátil. Sem ligação fixa. Para usar em qualquer lugar. Servirá para estas situações. Ou para as boas novas. Proibirão papo demorado – fofoca longa. Não será essa a finalidade.

Êpa. Êpa. Nossa.

Nossa.
.
.
.
.
.

Uma parte despencou.

Agarro-me numa lateral de madeira.  Feito gato.

Não acredito. A cabine está pendurada por um lado, apenas. Começo a pressentir o fim. Triste fim. Ao menos, virarei manchete, amanhã. O “Diário de Notícias” estampará na página de rosto:

“ADVOGADO MORRE PRESO NO ELEVADOR”

DELEGADO DO CASO ADMITE CRIME. HÁ TESTEMUNHAS DE QUE O ACUSADO DE ROUBO NO BANCO DO BRASIL, AGÊNCIA COPACABANA, HÁ OITO MESES, TERIA JURADO VINGANÇA PELA CONDENAÇÃO.


SOCORRO. SOCORRO.

Maldita pasta.

SOCORRO. SOCORRO.

Vou morrer agarrado nela – bem feito. O feitiço pegou o feiticeiro.

Hê-hê. Se soltou. Meu Deus. Está caindo.

Gente, estou livre.

Livre pra Morrer.

Faíscas. Barulho.

Enquanto tiver consciência,

acompanharei a minha morte.

Será que apagarei antes do choque final?

Dizem que o coração pifa nestas horas,

não suportando a iminência da tragédia.

Cadê a pasta?

Não sinto.

Não ouço.

Não vejo.

Cadê eu?

?

.

Alfredo Domingos
(obs.: o texto não pede exclamações de alegria, na pontuação)