sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Diário de um pai de pipocas

 

Quando eu morava sozinho e ia à praia, isso era o que eu fazia: calçava um tênis, numa bolsa de corrida colocava carteira e celular, corria 15 minutos. Pronto. Cavava um buraco na areia pra esconder minha bolsa, tirava a roupa, jogava ali mesmo em cima desse monte de areia e me jogava na água. Não tinha grandes preocupações. Aliás, nenhuma. Quem me conhece, sabe que o mar é meu santuário, lugar de me encontrar com Deus e ali me perder na imensidão da praia. Zero preocupações.

Quando se tem esposa, uma filha pipoca de 4 anos que não sabe ficar em um lugar parada e um bebê pipoco de 5 meses que está indo pela primeira vez à praia, é isso que se tem que fazer: numa das (infinitas) bolsas que se tem que levar, coloco brinquedos (muitos... tipo baldes, pás, bonecas, surpresas de Kinder Ovo, frasco vazio de M&M's, e diversos aparatos para se fazer castelos na areia). Outra bolsa térmica com comidas (papinhas, sopa, água pro bebê, além de biscoitos e chocolate pra garotinha viciada). Outra bolsa com roupas (precisa dizer que são muitas?!). Roupinhas diversas pro Bento, fraldas impermeáveis, fraldas não impermeáveis, pomadas, lenços umedecidos, roupas secas pra Marina, incluindo roupa íntima seca pra trocar depois da praia (porque areia da praia "pinica", de acordo com ela) e outras mais que não consigo nem lembrar agora. Não vale nem a pena descrever as outras bolsas, com cangas, outra com tapete pro Bento brincar, outra com protetor solar, óculos e produtos de beleza da Carol (ela insiste em ficar mais bonita... Já expliquei que não dá pra ficar mais linda do que já é, mas...). Contei que também que levamos um ofurô pro Bento tomar um banhozinho de água doce??

Bom, 2 horas e meia de preparação para sairmos, entramos no carro e partimos em direção à praia. Até que chegar foi fácil. Difícil foi achar vaga naquele dia de feriado. Mesmo tão cedo, não havia lugar pra deixar o carro. Achamos vaga 40 minutos depois de rodar duas praias diferentes. E bem longe da praia.

Após andar com todo aquele material e levando as crianças, achamos lugar perto de um chuveirão e com cadeiras de praia e guarda-sol pra alugar (eu não tinha mãos nem espaço pra carregar as que temos em casa). Tira-roupa, troca-roupa, arruma dali, arruma daqui e estávamos, enfim, prontos pra curtir a praia. Descobri, então, que começaria a pior das preocupações. Como a praia estava cheia, era muito fácil de alguém passar ali e pegar algo. Ou pior: pegar alguém... Impossível não ficar atento. Inclusive quando se tem uma filha que não consegue fazer seus castelos de areia perto de você e que quer construir em toda a orla da praia.

Entre tantas turbulências, eu vou me percebendo nos momentos com eles. Aos poucos, acho o equilíbrio entre a tensão e a paz. Afinal, eu também curto brincar de bonecas e de castelos de areia com Marina! Eu me deparo sendo o porto-seguro dela, quando, com medo das ondas, ela me abraça forte e se sente protegida. Eu me deparo com o choro do Bento querendo um carinho pra dormir, e ele acaba cochilando no meu colo salgado da praia. Eu me deparo admirando Carol, sentada na cadeira e apreciando o mar. Mal ela sabe que aquela paisagem que ela observava não se compara à beleza daquilo que eu observava... Tudo, então, fazia sentido pra mim.

Se eu vou fazer tudo de novo? Com certeza! E vou fazer, pra sempre!!!

Diego Lopes Duarte

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Presente de Grego


Ando ressabiado e sumido. Recolhido. Uma gripe durou quinze dias.

E sonhos, muitos loucos sonhos. De quase urinar na cama. No último, acordei suado e espantado. Não consegui, ainda, esquecer o danado do sonho.
Tentarei contá-lo, não sei se chegarei às minúcias.

“Toque da campainha do apartamento. Fui atender. Na soleira, dois policiais à minha procura.
 Queriam fazer entrega de algo que diziam me pertencer. Mal deixaram a coisa comigo, sumiram.
 Num estalo.
 Sabe de que se tratava? Fico apavorado quando me lembro! 
Era uma cabeça humana com o respectivo pescoço. Cabeça de homem, ornamentada com barbicha e costeletas. Os cabelos eram ralos, ruivos. Os olhos? Não sei. Nunca os vi.
 A figura era desconhecida. Fiquei com o troféu, louco para me ver livre. Que terror!
 Estive em todos os cemitérios da cidade. Não fiz escolha de religião. Quis, inclusive, cremar.
As respostas foram iguais e negativas. “Não enterramos cabeça sem corpo, além do mais, sem documentos.”
 Imaginei, pela cabeleira ruiva, ser alguém do norte da Europa. Pirei na batatinha! Estive em várias embaixadas. Sem sucesso.
Isso foi feito por dias. Extenuado e desiludido, voltei para casa.
Enquanto não surgia outra solução, veio-me o insight de guardar na geladeira.
Aliás, preciso dizer que recebi o material congelado, depois, com o rolar do tempo, estava esquentando, quase ficando vivo! (por sorte, como revelei, os olhos estavam fechados – pense se estivessem abertos, à espreita. Cruz-credo! Arre!)
Nesse ínterim, tive a impressão de que a barba do “de cujus” crescia. Esquisito isso. Talvez fosse o efeito do meu transtorno emocional.
Percebi, assustado, que a boca relaxou e alguns dentes ficaram à mostra. Situação macabra, de um quase sorriso.
Nos intervalos das tentativas de resolver o impasse, buscava ferozmente descobrir quem era o dono daquele pedaço de gente. Cadê que reconhecia?! Que presentão de grego!
Voltando à geladeira, desalojei parte do que havia no interior e soquei o “troço” para dentro, como pude. Fechei a porta com pressa, ofegante. Fiquei uma eternidade agarrado, de costas, à geladeira, braços firmes para trás, querendo deixar o segredo inviolável.
Aí, lembrei-me de meu pai. Morávamos juntos. Em nome da verdade, eu é que me aboletei na casa dele, de intruso.
Se ele visse, de certo, não aprovaria guardarmos ali o estrupício, ao lado de carne, queijo, frutas e tudo o mais que comeríamos. Como?! Elementos vivos ao lado de coisa morta? Indesejável. Nojento.
Continuei agarrado.”

Acordei!
Alívio do pesadelo ou início do pavor?
A prudência indicou nem chegar perto da geladeira. Vai que...
Sentado na cama, refleti: se verificar, não foi tão ruim assim. O sonho pode ter representado, afinal, um prêmio. É, sim, fui premiado por ter recebido o cérebro de alguém, porção pensante do corpo! Ganhei a inteligência, o talento, o pensamento. Para o restante, não vale cogitar profundamente.
Em resumo, sobrou para mim aquilo que é a essência do existir, apesar de ser um retalho de morto. Estar sem vida pode ser desconsiderado. Preferi encarar dessa forma.
Pior seria se o recebido tivesse sido um joelho arrebentado ou um pé cascudo. Não haveria explicação para explicar. Desanimador.
Sabe que me conformei com o sonho e com o presente decorrente? O sonho, pensando bem, sonhara, foi-se.

Alfredo Domingos

(por questão de justiça, revelo que Allam (escreve-se assim mesmo), meu primo, deu-me o motivo deste pequeno conto. O tema, verdadeiramente sonhado, veio dele)

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Picadeiro do circo e das letras

A escrita para mim é um picadeiro, no cenário do circo.
Faço malabarismos,
Pulo,
Balanço,
Arrisco,
Vou às alturas,
Desço ao chão,
Mas não há rede,
É sem proteção.
São os sonhos que dão o ritmo,
Regidos pela inspiração.
Aí, vamos!
A vertigem desequilibra,
As luzes passam brilhantes,
No girar incessante,
O foco oscila.
Anestesia para corpo e alma.
O chão se envolve com o teto,
Num vaivém.
O tombo, às vezes, significa voltar,
Para refletir e recomeçar.
Refazer e corrigir o texto dói, porém, constrói.
Você escreve numa ladeira:
Ora sobe, ora desce,
Frases brilhantes, parágrafos medíocres.
O trapézio vai e volta,
Sobe e desce.
A vida no picadeiro tira o fôlego,
A vida nas palavras atua igual.
Cometemos excessos do mesmo jeito.
Há sustos aterrorizadores!
Incríveis são as descobertas!
Urge a cabeça erguida para a nova subida,
É necessário melhor elaborar as sentenças.
Colocar o ponto final é pousar,
Aterrissar em terra firme.
Mas também penso se existe essa terra.

Alfredo Domingos

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Romaria


É de sonho e de pó                                                  
O destino de um só
Feito eu perdido em pensamentos
Sobre o meu cavalo
É de laço e de nó
De gibeira ou jiló                                                
Dessa vida cumprida a sol

Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
E funda o trem da minha vida
Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
E funda o trem da minha vida *1

O meu pai foi peão
Minha mãe, solidão
Meus irmãos perderam-se na vida
A custa de aventuras
Descasei, joguei
Investi, desisti
Se há sorte eu não sei, nunca vi *2

Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
E funda o trem da minha vida
Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
E funda o trem da minha vida *3

Me disseram, porém,
Que eu viesse aqui
Pra pedir de romaria e prece
Paz nos desaventos *4
Como eu não sei rezar
Só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar *5

Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
E funda o trem da minha vida
Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
E funda o trem da minha vida

Compositor: RENATO TEIXEIRA DE OLIVEIRA (primeira gravação em 1977, por Elis Regina)

O Programa Globo Rural (8 de outubro de 2017) e a Revista Globo Rural, de outubro de 2017, considerando os festejos de 300 anos (12 de outubro) do encontro, no Rio Paraíba, da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Padroeira do Brasil, trouxeram uma homenagem à canção “Romaria”.

Alegrou-me a homenagem! Resolvi partir para a escrita, a reboque da inspiração deixada pelos veículos de comunicação.

A letra, de Renato Teixeira, que também fez a música, foi colocada acima, para deleite de todos nós. Aproveitemos, então.

Claro, que é música conhecida sobremaneira, ainda mais na voz marcante de Elis Regina, cuja mensagem de fé se tornou muito forte. Ao ser executada, comove e faz refletir, seja nas romarias a pé, nas igrejas ou nas apresentações da TV.

A melodia traz a sensação de estarmos numa procissão, em plena sessão litúrgica, pela carga religiosa e pelo ritmo. Olhar para si é mandatório. A contrição faz-se necessária. O momento assume atmosfera diferente e sagrada. Maria, a Mãe de todos, ressurge em cada rito onde a música permeia. Gente, a emoção está presente ao som de Romaria!

Esmiuçando a letra, encontramos curiosidades e licenças poéticas. Tudo a que o poeta tem direito. Vamos percorrê-la. 

Até *1 (vejam na letra), o autor se identifica como cavaleiro, caipira, indicando o trem como representante da sua vida passante, e nos apresenta Nossa Senhora de Aparecida, pedindo luz. Curiosa é a inserção do “jiló”, carregando o seu amargo para indicar o difícil da vida, complementada por “vida cumprida a sol”, colocando a aridez inerente ao sertanejo. 

Até *2, o autor trata da família. O pai na lida, correndo mundo, a mãe solitária nos trabalhos domésticos. Os irmãos nas traquinagens. Ele no dia a dia comum, sem, porém, encontrar a sorte, que costuma aparecer simbolicamente, assim mesmo quando se faz algo extraordinário, não sendo, na verdade, a tal sorte caída do céu, do nada, mas fruto de esforço, de labuta. 

Até *3, sequência repetida, sem novidade. É interessante assinalar que o autor, ao ser perguntado sobre como interpretar “ilumina a mina”, simplesmente, respondeu: - gosto do som que ficou em “...mina” a “mina”. Criação de artista a gente aplaude, não é?

Até *4, trecho pequeno mas recheado de fé. São abrangidas a “romaria” e a “prece”. A primeira no ir ao encontro do momento de agradecer e de pedir, e a segunda exprime a devoção, a súplica. Ainda, consta do pedaço “Paz nos desaventos”, que segundo Renato Teixeira, “desaventos” poderia significar aquilo que está desarrumado, precisando de paz, como ventania inconveniente. Contudo, Renato usa de sinceridade ao confessar que não sabia da inexistência da palavra nos dicionários. Se foi inventada, não importa, coube bem no conteúdo proposto. Valeu!

Até *5, trata-se de espécie de desabafo. O olhar enternecido e, também, esperançoso de tempos melhores substitui a reza que lhe falta. Dessa forma, nem tudo está perdido. Renato, com sua voz mansa, deixou escapar que não sabia como terminar a estrofe. Depois de matutar, obteve fácil solução: repetir “meu olhar”. Talvez não tenha imaginado que a repetição ratificou a crença e deu continuidade ao olhar devoto. Aqui a melodia entra num remanso, dá uma travada, que combina com esse olhar em oração e em espera.

Até o final, houve outra volta ao que se pode chamar de “refrão”, com ênfase para: “Sou caipira, Pirapora nossa”. Este “nossa” afastado de Senhora de Aparecida, que desponta na linha abaixo. Não sei, não, mas está com pinta de ter sido imaginado com duas funções. Apadrinhar a cidade de Pirapora do Bom Jesus, chamando-a de “nossa”, amavelmente, e deixar “Senhora de Aparecida” triunfar sozinha, dando luz à mina. Vai saber...

Vamos curtir, daqui para frente, um pouco mais “Romaria”! Transformá-la em música de fundo de nossas vidas, sofridas ou não. Tê-la nas aflições, para redobrar forças, porém, não desprezá-la nos momentos prazerosos, em demonstração de sabedoria.

Alfredo Domingos

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Sirigaita Escalafobética


– Que “sirigaita escalafobética”, esta Juju!

A frase motivou risada da turma, na esquina das ruas Bartolomeu de Gusmão e Indaiá. Juju é conhecida no pedaço. Inclusive, já namorou alguns dos integrantes da roda de conversa. Ela mora no nº 38 da Bartolomeu. Seu caminho, então, é por ali, indo de ceca em meca.

Sem dúvida, é espevitada, sempre tramando espertezas. Fica à frente das novas ideias. Lidera as iniciativas. Promoveu comemorações durante os jogos da Copa do Mundo de Futebol; agitou festas juninas e julinas, também; arrecadou fundos para vizinho que perdeu tudo em incêndio na residência; e daí em diante. Para completar, não leva desaforo para casa. Responde na lata, tudo, em cima da bucha. É um tanto extravagante, estrambótica! A excentricidade inicia pelo cabelo vermelho, curto, e pelos piercings espalhados pelo corpo e termina na extensa tatuagem, nas costas, sobre a pele alva. De pernas longas e finas, vai de passo largo, traçando rumo, embora sem régua e compasso. Mas segue firme, não há o que lhe trave.

Pronto! Nos parágrafos acima, foi explicada, bem no feitio do “Aurélio” e na linguagem da moçada, a expressão “sirigaita escalafobética”. Legal, eu mesmo gostei! Fiquem à vontade para criar coisas do gênero, recomendo.

Alfredo Domingos

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Viajar é colocar reticências...

“Viajar é colocar reticências naquele momento de vida”. Penso assim e explicarei mais adiante.

Mas a escritora Martha Medeiros concebe diferente, uma vez que em nove de julho, escreveu na Revista Ela, de O Globo, que “viajar é abrir parêntese na vida”.

O tema, já deve ter sido percebido, aborda alguns dos sinais de pontuação, usados na Língua Portuguesa, inseridos completamente em todas as nossas atividades, na escrita e no falar, nem que seja na entonação.

Martha incluiu no texto certa aflição no antes do embarque e inquietação durante a viagem. Ela tratou do deslocamento aéreo, e o nosso foco será nele, também, para analisar da mesma forma.

Mas complementou, alegando que, ao chegar ao destino, livra-se de todo o peso e parte para aproveitar.
 
Bom, agora estou pronto para colocar o meu ponto de vista.

Primeiro dou o entendimento da gramática sobre reticências: indicam interrupção/fatos em curto espaço de tempo/supressão de um trecho.

Pois bem, aproveitemos o conhecer do professor Evanildo Bechara para fazer analogia com a temática da viagem: “interromper” pode está atrelado a deixar a sua rotina e resolver parar, ainda que temporariamente, para viajar. “Fatos em curto espaço de tempo” remetem ao próprio período do passeio, que geralmente é limitado, repleto de emoções, tendo a ver, obviamente, com viagem. “Supressão de um trecho” sugere deixar de fazer o de sempre, retirada de um pedaço com o qual você estava acostumado, o que perfeitamente se encaixa na continuidade da vida, que de repente perde o seu fluxo normal, em função da viagem.

Posso dizer que a gramática nos ajuda a sustentar a validade da ideia das reticências?

Digamos, todos, um grandíssimo “SIM”, pelos argumentos por mim apresentados acima.

Exponho agora a conotação de reticências, moradora no meu imaginário: adoto que as reticências são meninas recatadas, pra lá de educadas. Dão o recado nas entrelinhas, não escancaram objetivos, nem pressão; fazem suspense. Deixam a avaliação para o leitor. Interpretação livre. Carregam alegria ou tristeza. Oferecem liberdade, são democráticas. E andam em grupo, na formação de trio.

Viajar com base nas reticências aponta a dúvida sobre o que será encontrado, retrata a ansiedade e a expectativa por novidades. Por mais roteiro que haja, o inesperado assume grande impacto.

Já na ida para o aeroporto começam as traquinagens da empreitada. O transporte acontecerá dentro do combinado? Sem atraso? O “check-in” na companhia aérea não trará surpresas? As malas chegarão ao destino, sem mexidas do alheio, perdas, etc.? A passagem pela alfândega será normal? O passaporte passará incólume pelos controles virtuais, agora implantados? E, assim, as dúvidas vão se sucedendo...

Na decolagem do avião, você decide se entrega a Deus e relaxa ou morre logo de medo!

Uma vez nos céus, com a aeronave nivelada, surge um “certo” alívio, se os ventos e as turbinas estiverem favoráveis.

Boa sugestão ao viajante é que ele se entregue a Morfeu, Deus grego dos sonhos. Durma tranquilamente, ainda que de cabeça torta e pernas encolhidas.

Voltando à escrita da Martha, peço licença para discordar, quando ela afirma que, no destino, fica em estado de calmaria, descontraída. Não é bem assim...

Em terra, novas apreensões assolam, se conseguirmos chegar ao hotel sãos e salvos.

Abrimos mala, fechamos mala. Verificamos mais de duzentas vezes se ela está efetivamente trancada. Cá pra nós, em função da apreensão, esquecemos o segredo do cadeado ou não nos lembramos de onde deixamos a chave.

Não achamos aquela camisa preta, bem na hora de sair. Aí, optamos pelo ridículo, ficar descasados nas cores e nas indumentárias. Porém, não perdemos a pose, alegando:

- Turista é assim mesmo, de qualquer maneira. Não há quem ligue.

Compramos água na esquina pra economizar dinheiro do frigobar, mas não nos importamos em gastar pernas e paciência, na peregrinação, atrás de pequena economia. O que vale é pagar menos, em qualquer circunstância, embora desconsideremos a despesa de maior monta, já realizada, com passagem, hotel, etc.

A permanência no destino da viagem não é coisa de se tirar de letra. É tensa! Mil atividades, que mesmo que neguem, geram ansiedade e desconforto. Costumo brincar, relembrando os anúncios de turismo, em que alguns deles repassam viagens mirabolantes, do tipo: “realize o seu sonho, viaje conosco numa programação de dez países em nove dias”. Aí, vira correria infindável, sem proveito em parte alguma, entrando e saindo de hotel, além do rígido horário, de colégio interno, até para ir ao banheiro.

Para complicar o que é complicado, por si só, há outros inconvenientes: grupo grande deslocando-se, sempre com algum dissabor, longa espera até que todos estejam prontos ou que cheguem aos pontos de encontro, imprevistos de saúde, de dinheiro, de lidar com a língua estrangeira, e por aí vai... Sem nem tocar na tal doença do viajante, que faz com que o banheiro seja o recinto mais visitado. Que Louvre, que nada!

Essas aventuras sugam o ânimo do viajor. A diversão fica prejudicada pelas circunstâncias, a não ser que a pessoa releve tudo, passando por cima dos contratempos.

E vamos combinar que surgem, pelos caminhos, contratempos de “derrubar”, mesmo quando os envolvidos formam um animado time de turistas. Que tal topar com o furacão “Irma”, enlouquecido, desembestado por mares e terras?

Haja reticências para representar as surpresas, os sustos, mas, também, as alegrias de uma viagem!

Além de tudo comentado, existe, no meio do turbilhão de aventuras, a compra voraz de coisas que nunca serão usadas, não cabem no indivíduo presenteado ou não agradam. Surge, então, a clássica pergunta ao retornar: - Por que comprei isto, meu Deus?

Alfredo Domingos.

A idade é o de menos

Inferno... de garoto! Vive atrás de Julinha. Arruma mil motivos para estar ao lado dela.

Sempre dizendo:

- Ju, espere por mim.
- Ju, ajude na minha agenda.
- Ju, vamos estudar juntos.

Enfim, é assim! Numa pequena amostra.

Ela é quieta por natureza. Não diz taxativamente “sim” nem “não”. Simplesmente, faz companhia, vai no embalo.

A idade é o de menos. Estão no início da adolescência. A pureza mora ali. Mas o coração está disparando por tudo e por nada. Mais por tudo!

Não sabemos se é AMOR. Talvez... Porém, afirmamos que é um grude só. Nossa Senhora!

Ela muito delicada. Baixinha. Branquinha. Magra. Cabelos bem pretos.

Olhos vivos são a sua especialidade. Curiosos, em busca de coisas ao redor.

Usa em excesso o “por quê?”. Quer saber muito sobre os momentos e as circunstâncias que os preenchem.

Ele faz um tipo semelhante, mas com diferenças capitais, que veremos adiante. Ajeitado. Branquinho. Óculos. Cabelos alinhados, no estilo. Carregando a Infalível mochila, com o escudo do clube de futebol.

A dupla caminha pra lá e pra cá, dando risada. Andando para não chegar. Jovens olhares iluminam o caminho. O riso é misto de alegria e de nervoso.

Estão na fase lúdica de esconder material escolar, jogar bilhetinho na mesa do outro, fazer caretas e trazer o lanche de um para o outro.

Depois do primeiro semestre de aulas, após as férias, foram correndo para a porta da escola, ofegantes, ansiosos. Encontraram-se num profundo abraço, de perder o fôlego e de dar dor na boca do estômago.

Ela tem mãozinhas de dedos finos, com unhas rentes, cortadas até o sabugo, reminiscência do colégio interno.

Atende ao tilintar do WhatsApp no mesmo instante que ele a chama. Cumpre horários, chegando sempre adiantada, pronta para o que der e vier. Obediente às regras e responsável.

Ele é mais apressadinho, fere um pouco as horas marcadas, atrapalhado, e recorre a ela frequentemente. Mas há uma qualidade a destacar: usa de bom humor, sendo engraçado, espirituoso, quase irônico.

Suas notas nas matérias são menores do que as de Julinha. Isso importa? Não sabemos responder. As virtudes são múltiplas. Num casal, os complementos são essenciais. Não devemos dar peso às faltas e aos excessos. Estes estão presentes, certamente.

Fazem um par semelhante ao cantado pela banda “Legião Urbana”, em “Eduardo e Mônica”. O poeta expõe os contrastes. No nosso caso, pode igualmente ser que a “liga” da parceria esteja nas diferenças. Quer saber? Acaba dando certo!

Sexta-feira passada, na volta para a casa, os dois iam, como de hábito, com a conversa agitada, quando Marcelinho parou e pegou Julinha por um dos braços, mudando de assunto e atacando, direto e reto:

- Ju, vou perguntar: qual será o momento de darmos um beijo de verdade?
- Há quanto tempo estamos juntos (o termo “juntos” foi forte, mas...) sem que coisa alguma tenha rolado? Nem um beijo decente, “daqueles”.

Julinha permaneceu muda.

- Poxa, o que está faltando, caramba? (perguntou com ênfase)
- Nós damos beijos, sim, você esqueceu? - Ela respondeu tímida, falando baixinho.
- Sim, mas são beijos sem graça, no rosto. Parecemos, até, parentes ou amigos.
- Diga, quero lhe ouvir.
- Marcelinho, calma. Primeiro, faltou que você tivesse um pouco de “técnica”. Beijo não é para se anunciar ou perguntar a respeito. A vontade nasce. Evolui conforme a ocasião. E pronto, acontece! Ocorre que preciso me expressar sobre o quê sinto: ainda não estou à vontade para isso. Tenho, por enquanto, uma sensação esquisita. Entendeu?
- Bem, então precisamos meditar, “profundamente”, sobre o motivo de um beijo na boca ser esquisito. Podemos dar um tempo. Sei lá... durante essa reflexão toda. Só reconheço uma situação real: somos os verdadeiros “BV” (Boca Virgem).
- A nossa próxima atitude, sem dúvida, é sairmos daqui. Estamos no meio da calçada, com todos passando à volta, seu Marcelo Alcântara.
- Não se preocupe, resolverei a questão. A solução está nascendo. Vou dizer como:
- Escute, esse beijo virá, com certeza. Não fique assustada se surgir de repente. Cá pra nós, será muito bom. Afinal, representa o desejo de nós dois, não tenho dúvida. Deixe que viajemos na maionese, pois a dupla estará feliz. Risada!
- Venha, precisamos mesmo desocupar a calçada, Júlia Matos.

Alfredo Domingos