quarta-feira, 9 de maio de 2018

O nécessaire do garçom



É mais do que conhecida, e repetida, no âmbito da minha família, a história do “nécessaire do garçom”. Começou a partir dos anos 1980, e perpetua-se até hoje, com versões turbinadas e invencionices sem fim.

Turma numerosa e festeira inventava motivos para promover eventos. A “sede” da festança era a casa grande da avó Maria Rosa, com dois ambientes de sala, varanda fechada e outra aberta, vários banheiros e, principalmente, enorme cozinha, com todos os equipamentos que a tecnologia da época permitia. 

Utilizando a memória para passear pela casa, lembro-me das pesadas cortinas das salas, com suas borlas gigantes, com as quais, escondido, jogava bola usando a cabeça. Na época era garoto, mais ou menos com dez anos, e curtia uma bagunça. 

Em ambiente agradável, a anfitriã era disposta a bem receber, cuidando de todos os detalhes para proporcionar bons momentos. 

Um dos elementos importantes nos saraus era o garçom, sempre o mesmo, Seu Paiva. Impecavelmente trajado, era um velhinho baixinho, empertigado, rápido na locomoção, feito um azougue, e profissional esmerado, tendo gosto em servir. 

A cada festa, estava lá o Seu Paiva, que, com o passar do tempo, era quase da família. Sabia de cor as preferências dos convidados. Uísque cowboy para um, com muito gelo para outro, suco de laranja para uma, e assim agradava a todos. 

Prestativo e cônscio do seu metiê, ele portava nos bolsos, sem esquecimento, isqueiro e lenço. Na cozinha, mantinha, para as situações emergenciais, água quente com limão e pano. 

As comemorações foram ocorrendo, no ritmo em que a vida sorria por meio de acontecimentos felizes. 

Para não falarmos apenas das coisas lisas, sem imprevistos, vamos trazer algo diferente para a história das festas e do garçom. Após umas das reuniões, constatou-se que o garçom havia esquecido o seu nécessaire. Foi-se, altas horas, para casa, com pressa! 

A partir desse dia, a coisa desandou! Por obra do destino, por fatalidade ou sorte, o homenzinho sumiu! 

A avó telefonava para ele quase que diariamente. Queria combinar para que viesse buscar o nécessaire. A cada ligação correspondia uma desculpa. A entrega não se consumava. Foi oferecido um encontro com alguém da família, no Centro da cidade, para facilitar. De nada serviu! Até que a dificuldade fez com que os contatos escasseassem. Os intervalos foram aumentando. E os contatos pararam... 

Pararam mesmo, porque o telefone do garçom deixou de chamar. Batia ocupado, direto. 

Houve, por conseguinte, do nada, um ponto de inflexão. As festas, aquelas de arromba, foram também diminuindo e ficando menores. Não havia mais necessidade de alguém para servir. 

E o nécessaire? 

Foi restando. Ora aqui, ora ali. Virou estorvo. Não possuía lugar certo. Objeto pequeno, porém, com consequências gigantes, elemento estranho ao meio, em função de ser de outrem. Talvez, pura implicância.

Passamos a usá-lo como sinônimo de coisas incomodativas. Querendo dizer que alguma coisa estava atrapalhando, sem local definido, lembrávamo-nos do nécessaire do garçom:
- Isso parece o nécessaire do Seu Paiva. Não sabemos onde colocar. Coisa intrusa! 

Surgiu, depois de algum tempo, a indagação sobre o quê continha a bolsinha. Antes, não carecia de saber, não havia a curiosidade. Mas de repente, veio à tona! 

Todos queriam conhecer as entranhas. Motivada, então, a avó Maria Rosa rompeu o mistério e puxou o zíper. 

Nada mais simples existia na bolsinha cinza surrada: uma escova de dente e a respectiva pasta. 

Sem glamour ou impacto. Básico do mínimo. 

Inclusive, o achado inibiu a sensação de culpa, por não devolver. Vai saber se não foi o conteúdo óbvio e barato que desmotivou o próprio dono a vir buscar? 

As nossas coisas são “nossas” e marcamos bem a fronteira em relação às coisas dos outros. “Cada um no seu quadrado” – eta, que expressão pertinente! Essa fronteira é eivada de ciúme. Pode ser um automóvel ou um lápis. Ao esquecer o nécessaire, o Seu Paiva deixou parte sua para trás, que não pertencia a quem ficou. Se fosse algo usável por terceiros, poderia não incomodar tanto, tiraríamos até proveito. 

Atribuo à desnecessidade de servir ao pessoal da casa o principal motivo para a tal “implicância”, antes e depois do conhecimento do que havia no interior do nécessaire, que, aliás, continua na sua andança pela casa, ocupando praticamente todos os espaços vagos. 

Alfredo Domingos

sexta-feira, 27 de abril de 2018

A aflição que toma conta da gente



(este pequeno texto saiu do nada, de estalo)


A aflição acaba com a gente! Sacrifica! Mas com Deus no coração e nas intenções, tudo acontece! Tudo se transforma para melhor! 

Principalmente, Ele nos traz tranquilidade e fortaleza para enfrentar as amarguras. E aproveitar os bons momentos. 

Reze com fé, a toda hora: na rua, no templo, na casa; onde der. A reza nos leva a falar com Deus. Chore se for preciso, para o seu alívio. Depois, haverá calma e conforto. 

Peça, que Ele atenderá. Pode pedir! 

Se não for possível, Ele dará um sinal sobre o não atendimento. 

Você entenderá. Amém! 

Alfredo Domingos

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Tempos sombrios




Feito a formação sebácea da acne do seu, do meu, rosto. Estamos envoltos pela escória a putrificar lentamente nossas entranhas e nossos pensamentos. 

 Atenção a isso! 

Os tempos são de cuidado, porque estão sombrios. Há perigo na esquina, nos becos. 

Qualquer coisa não deve nos empolgar. É alarmante ter que viver com o pé atrás ou a orelha em pé. Prevenção à flor da pele. Em alerta total. Mas é assim, nos dias que correm. 

Os dias estão assim - árduos. Relaxar é coisa do passado. As cenas bucólicas, arborizadas, com as pessoas felizes, com cestas de piquenique, desestressadas - passaram. 

As brincadeiras infantis, de carniça, de esconde-esconde, de pique-bandeira, de lenço-atrás, foram à falência, afundaram no desuso. Perderam encanto e interesse. 

As dificuldades ocultam as gargalhadas frouxas. Sobraram a nós os risos curtos e apertados. Aquilo que falávamos às escâncaras, hoje, transita à sorrelfa, pelas quebradas. Os abraços apertados minguaram. No extremo, são dados os tapinhas enganosos às costas. 

Cruel sina que nos apanha desarmados, lerdos na percepção sobre o que ocorre! 

Estamos todos cretinos. 

Perdemos a vergonha. 

Tudo pode, desde que seja para nós. 

Na marra, acostumamos a acostumar; ardilosamente, explicamos o inexplicável; e, cordatamente, aceitamos o inaceitável. Tudo por conta de: sonolência gigante; cegueira de quem enxerga; projetos pessoais; combinações escusas; e outros tantos motivos pra lá de maléficos. 

Insensato momento, pelo qual passamos, a nos fazer sofrer e a nos nivelar por baixo. A condição rasteira assumiu cotação máxima, infelizmente, quando deveria ser o mínimo admitido ou até recusado. 

Nos dias de hoje, toma corpo uma corrente contrária ao que está consolidado, efetivado e valendo pela tradição e pela norma. 

Desconstruir cabe nos problemas psíquicos, salvo outro conceito. Nas questões públicas, todo cuidado é necessário. 

O legislador cumpriu etapas, colocou em avaliação, montou grupos de trabalho, usou de experiência, calçou-se contra os imprevistos e as más interpretações, além do indestrutível poder da Constituição Federal; então, não é para tudo se perder, de hora para outra, nem se acabar na quarta-feira. Não existe interesse menor que possa superar o status quo, o que entendido está e funcionando para todos. 

Outra medida, que, aí sim, procede é a mudança para melhor e para a totalidade dos indivíduos, com respaldo, e sob a aceitação geral, por meio dos caminhos legais. 

Passamos por um marasmo de entusiasmo, de ideias e de atitudes. Estamos propensos a deixar o outro realizar ou os governos e as instituições. Isto é mau! 

Em compensação, nos bares, aumenta a horda de fracassados. Olhares vagos. Garrafas vazias amontoam-se. A desilusão domina as pessoas, embriagam-nas, fazendo-as tombar sobre as mesas, com braços esticados e mentes curtas. 

Caras acinzentadas! Discursos velhos! Problemas repetidos e insolúveis! Passos para nenhum lugar. 

Reajam, homens! Vivam! 

Alfredo Domingos

quarta-feira, 11 de abril de 2018

A herança do vinho




Como herança do marido, mulher recebe vários bens. Entre eles, uma preciosa adega, detentora de rótulos, pela qualidade, capazes de disputar com aqueles cobiçados pelos alemães nazistas, na 2ª Guerra Mundial.

Tempos depois, a viúva, dando vez a um avassalador amor, com um jovem com menos idade do que a grande parte dos vinhos estocados, consumiu, uma a uma, as garrafas raras e premiadas, deixadas pelo marido, arranjando motivos para comemorar e beber. Em poucos meses, ficou clara a terra arrasada, ou melhor, ficaram arrasadas as prateleiras. 

Baco, deus do vinho, deve ter coçado o barrigão, de alegria. 

Qualquer coleção tem caráter frustrante. Ela existe para a contemplação e para a eternidade. Talvez o próprio formador do acervo não o aproveite. Não se consome de imediato, como bombom, sorvete ou queijo. 

Olha-se, admira-se, mostra-se aos amigos, e pronto. 

O caso do vinho é mais prático, pois, no futuro, se não estiver avinagrado, alguém o beberá, saudando o dono, que se foi. 

Mas quando se tratam de chaveiros, latas vazias de cerveja, cinzeiros, etc., os que ficarem darão cabo ou continuarão na procissão de apenas juntar e apreciar. 

Acho triste que não se dê continuidade a uma “obra” de ajuntamento, que num determinado período teve graça ou afeição de alguém. Mas o certo é que não dominamos as vontades alheias. 

Tive, na minha vida de sessentão, inúmeras coleções, de quase todas as bugigangas. 

No entanto, resolvi, num domingo apagado de inverno, desfazer-me de quase tudo. De uma única vez. O dia feio deve ter ajudado. Tomar medidas drásticas em dia de sol é mais difícil. Exceção foi feita para a ajuntada de fusquinhas. Eles são os meus xodós, depois da neta, a Laura! Dessa forma, não tive coragem de defenestrá-los. Cedi! 

Mantive-os, e acrescento outros, sempre que surgem oportunidades. Chego a ganhá-los de amigos e parentes viajantes. Possuo exemplares de várias partes do mundo. Loucura? Sim! Santa loucura, que não atrapalha, não dá mofo, nem perde a validade. Os carrinhos estão arrumados em formatura, nas prateleiras finamente elaboradas pelo Seu Pepe, velho marceneiro espanhol, que mais parecia um escultor, com as suas poucas, porém, milagrosas ferramentas. 

Os fuscas, em resumo, são intocáveis, para o depois, sei lá para quando ou até quando... 

Quanto aos livros, não os considero coleção. São “do uso”. Para o gasto diário. Leitura e releitura. Anotações, orelhas, marcações, etc. Num vai e vem constante, entre mim e a estante. Eles representam a vida. A janela aberta. O deslumbramento. 

Observo os livros como biscoitos, que saborearei daqui a pouco. Aqueles que têm sabor de segredos e de renovadas surpresas, a cada nova vista. 

Alguns defendem que as coleções sufocam, juntam poeira, ocupam espaço e atrasam a vida. Vão além, dizendo que temos de “desapegar” – verbo da moda. 

Alego, em contrapartida, que quando vem do gosto, seja o que for, gostado está. Dane-se o resto! 

Não se deve acumular mágoa, raiva e outros sentimentos ruins. Se a satisfação está presente, OK! Vá em frente! 

Ferreira Gullar, o poeta, sabiamente, comentou que os pertences mais íntimos contavam a sua história. Feliz, acrescentou que a esposa havia disponibilizado um canto na sala, somente para as suas coisas. Entre as peças, destacava-se um móbile, feito por ele mesmo, que dava charme ao tal canto. Cheguei a vê-lo em foto. Regozijei-me! 

Cabe, então, uma pergunta muito utilizada, sobre diversos objetos: 
- Para o quê serve isso, hein? 
Resposta tirada do coração: 
- Pra mim. Ora, bolas! 

Voltando ao vinho, ele envolve enorme prazer. Bebe-se gole a gole como se cada um fosse o último. No Brasil, aprendeu-se a beber vinho, embora, nos últimos anos, tenham sido consumidos, em média, 2,0 litros/ano, per capita. O consumo é pequeno, mas para um país com temperatura quente, predominância da cerveja e preço relativamente alto do produto, até que se justifica. Para termos noção, cada português bebe, em média, 54 litros, por ano. Quantidade extremamente superior a nossa. 

Os homens, ultimamente, foram para a cozinha, principalmente para o lazer, e levaram debaixo do braço a garrafa de vinho. Natural, dessa forma, o surgimento, mesmo que aos poucos, do hábito de consumir a bebida, entre nós. 

Tecnicamente, os vinhos devem ser envelhecidos, maturados, iguais às pessoas. O tempo, nesse caso, atua para melhorar o resultado, dar sabor e corpo, da mesma forma que se espera para os indivíduos. 

Alfredo Domingos

segunda-feira, 19 de março de 2018

Adeus ao tio Lucrécio



Fui levar o meu sentido adeus ao tio Lucrécio. Caía chuva fina, num dia cinzento, o que não atrapalhava nem glorificava o evento fúnebre. 

Diziam, no passado, sem fundamento, que velório com chuva era sinal de que o céu chorava pelo defunto – frase melancólica, associando a divindade à tristeza da situação. O céu nunca chora! Ao contrário, glorifica! 

Indo em frente, lembrei-me de um antigo chefe, que sempre alertava sobre a relevância que todas as ocasiões merecem, sejam elas de tristeza ou de alegria. Daí, valer a pena prestigiar e associar-se, também, à dor. Solidarizar-se. 

O tio teve a vida com a cara do seu dia final. Sem grandes altos. Sem grandes baixos. Ele era um homem sério, metódico, mas gentil. Era o que chamamos de reservado. Suas palavras eram apenas as necessárias. Seus gestos eram assim, também. Nada de exageros. 

Trabalhou na repartição pública, onde cumpriu rigorosamente as regras e os horários. Habitualmente, usava terno, acompanhado por discreta gravata, e sapatos de couro, impecavelmente engraxados. Como detalhe importante do traje, trazia uma reluzente pérola presa à gravata, dando o toque de distinção. 

Obviamente, a sua filha, com zelo, preparou o pai para a derradeira viagem dentro do figurino costumeiro. De terno, camisa branca, gravata e a pérola. Quanto a esta, apareceu quem fosse contra a sua inclusão, pois foi alegado desperdício pela perda de joia familiar. 

Incrivelmente, numa hora triste, há gente, que se agarra aos bens. Este, em especial, sendo avaliado por um setor de penhores, provavelmente, não daria para pagar uma pizza tamanho gigante. 

Não foram esquecidos dois instrumentos vitais na vida do tio. Os óculos de grau e o pentinho de osso. Ambos seguiram no bolso, fiéis até na eternidade. 

No vazio de ideias que a ocasião gerava, num canto, de mão no queixo, comecei a pensar como ele agiria. 

Imaginei a cena da véspera do seu último dia, onde tudo começaria, considerando ter sido o tio um homem prevenido. 

Organizadamente, ele estaria preparando-se para o evento que viria. Reunindo o necessário. Escolhendo um a um os elementos da sua composição: a identidade (é prudente estar documentado), para qualquer eventualidade, com a fisionomia antiga, de bigode fino, colarinho alto e laço estreito na gravata; o lenço, para momentos delicados, sabe-se lá; a caneta da marca Parker, para alguma rubrica de última hora e também para as palavras cruzadas; a caderneta das contas mensais, para controle das despesas; os óculos, claro, para ajudar a enxergar na escuridão; o pentinho, para manter o cabelo permanentemente alinhado; o cinto, porque calças frouxas não ficam bem; mas quanto aos sapatos, tive dúvida se os incluiria - de repente, trariam incômodo em local tão sem espaço, além de que não teriam utilidade. Achei prudente somente as meias, para agasalhar os pés. 

Depois desse primeiro devaneio, veio-me à mente a questão das carpideiras. O tio comentava, lembro-me, que velório sem o pessoal chorando não tem graça. Se deixar por conta dos parentes, não sairá boa obra. Começam com força total e vão, aos poucos, esmorecendo. Em consequência, a partir do esmorecimento, já não há alma piedosa para chorar. A saída, que dá resultado, é a contratação de senhoras. Pagando, a coisa funciona! Pelo jeito, esta providência falhou... 

Em seguida, observei que, na capela, uns poucos deixavam rolar lágrimas esparsas, insignificantes, sem glamour, e o resto conversava. O tio estaria uma “arara”, lamentando. Deveria estar percebendo, de alguma forma, a pouca importância. Em contrapartida, puxará o pé de cada um daqueles dali, durante a noite, fantasmagoricamente! 

Abandonei o fantasma vingativo, e continuei vadiando com o pensamento. 

Lembrei-me da música de Paulinho Moska, “O Último Dia”, que logo no início questiona: 
“Meu amor 
O que você faria se só te restasse um dia? 
Se o mundo fosse acabar 
Me diz, o que você faria? 

Ia manter sua agenda 
De almoço, hora, apatia?
Ou esperar os seus amigos 
Na sua sala vazia?” 

Associei a despedida de Lucrécio ao último dia de nossas vidas, se, por ventura, fosse anunciado. 

O tio estava hospitalizado, combatendo doença antiga, renitente, que provavelmente daria no que deu. 

Então, não era a sua situação. O aviso já vinha de longe, infelizmente, o que deve ter proporcionado a ele muitos planos criativos inicialmente, e, após, trazido desânimo, no correr do tempo. 

Porém, quanto a nós, ainda viventes, se recebêssemos, do nada, a notícia de que tudo acabaria amanhã, o quê faríamos? 

Moska indicou, na música, várias coisas: manutenção da agenda, espera dos amigos, ida para shopping ou academia, andança pelado pela chuva, e outras invencionices. 

Imaginei, sem gastar lucubração, partir para descansar. Relaxar numa espreguiçadeira. Bocejar. Respirar pausadamente. Talvez, deixar-me entrar em sono profundo, e pronto! (tentei incluir a leitura de um livro, porém, previ ansiedade, na tentativa de chegar ao seu final – desisti) 

Finalmente, recordei-me da pérola da gravata do tio. Concordei com aqueles que a queriam guardar. Seria desperdício, realmente, abandoná-la à sanha do alheio. Por exemplo, por que não poderia ficar comigo? 

Aí, juntei a ideia do meu último dia, na espreguiçadeira, com a pérola. Manteria a joia entre as mãos e a levaria comigo, para aonde o imprevisto “previsto” me conduzisse. 

Alfredo Domingos

terça-feira, 13 de março de 2018

Artimanhas de Dona Bárbara



- Como vai a Dona Bárbara? 

- Minha mãe vai bem – respondi ao meu amigo Raul, iniciando a relatar a novidade que ela, agora, “apronta” nas festas para as quais é convidada.

Lá pelas tantas das reuniões, aniversários e outras festividades, sem nenhuma ciência ou saber, mas com muita arte, resolve fazer leitura das mãos daqueles que ali estão. 

A sua sorte é que as pessoas encaram com humor a iniciativa, como uma diversão, além da curiosidade. Ocorre de receber convites motivados pela pretendida atuação de animadora, o que lhe traz satisfação e orgulho, veja só... Exemplificando o prestígio alcançado, sábado passado, à noite, estava à porta um transporte, especialmente, contratado para levá-la a um “party”. 

Seu aspecto físico é magrinho, de baixa estatura e cabelos longos. Não é ao acaso que não possuo mais de um metro e sessenta centímetros de altura. Tive a quem sair. 

Passa ela a encarnar o personagem, com maestria, sem antes se fazer de rogada, dizendo-se sem dotes para tal. Diante da insistência da “plateia”, finalmente, dá início à “performance”, que tem no vestuário um valioso coadjuvante, pois mistura ares de cigana e de cartomante, com direito à saia rodada, blusa bufante e brincos de argolas. 

O semblante é compenetrado, com a seriedade que o “ofício” impõe. Consegue criar suspense, prendendo a atenção dos ouvintes. Usa palavras difíceis e de duplo sentido, tornando a aventura interessante; e lança, para realce, o artifício de fechar, de vez em quando, um dos olhos. 

Pondo em prática a atividade, dirige-se a cada um que lhe dá a mão, em voz pausada, indicando os traços da personalidade e fazendo previsões de futuro. Para tal, é claro, e não podia ser diferente, baseia-se nos conhecimentos que detém das pessoas, suas conhecidas, ainda que escassos, e nas observações “in loco”. 

Solicita entre as “consultas”, para fazer um “clima”, algo para beber, criando intervalos calculados, longos, o que faz as pessoas ficarem ansiosas pelo recomeço. Quando lhe oferecem bebida alcoólica, não aceita, confessando-se abstêmia e contrária ao vício, seja ele qual for. 

Essa postura é um dos artifícios empregados para dar credibilidade, porque mantém, em casa, ao lado da cama, sem falha, um copo de vinho tinto. Quem lhe priva da intimidade sabe. 

Às vezes, porém, exagera na dose da falação e traz para si situações desagradáveis. 

Segundo me contou, ao ler a mão de um senhor, já com os seus setenta anos, sugeriu-lhe arranjar uma companhia para o final da vida, imaginando-o solitário e carente, pois não havia constatado no recinto uma acompanhante para o coitado. Aí, a situação complicou-se devido à reação da própria esposa, muito mais nova, que surgiu de um outro grupo, dizendo-se boa cuidadora do companheiro, em alto e bom tom, acrescentando que ele não era sozinho e nem estava para morrer tão cedo. Dona Bárbara, para desfazer a confusão, precisou de toda a sua lábia, alegando que a vista cansada pelos anos havia lhe traído na hora da leitura. 

Certo dia, aconselhou a uma moça, que estava de casamento marcado, que desfizesse o compromisso, uma vez que suspeitava ser o cidadão um vigarista mulherengo. Ela escapou de uma sova graças à intervenção da dona da casa, que intercedeu, “abafando o caso”, alertando que a mesa estava servida para o jantar. A fome do pessoal teve mais força. Quando a interpelei sobre a maçada, respondeu que vira o noivo, minutos atrás, na varanda, de paquera com uma jovem, todo derretido; e a intenção era prevenir. 

O outro tropeço revelado foi quando, após observar um rapaz tossindo junto à porta do banheiro, conseguiu dizer-lhe, com auxílio do “além”, que tratasse do pulmão. Um médico presente apontou a gravidade do conselho, pelas consequências desastrosas que poderia gerar. 

Fatores que lhe são favoráveis nas suas peripécias são a carência das pessoas e a curiosidade. A necessidade de boas novas e do conforto para as aflições, geralmente, torna a assistência receptiva e crédula. Daí surge o espaço para as atuações de Dona Bárbara. 

Sendo o assunto sobre comida, adverte que come feito um passarinho, de acordo com a pouca quantidade que ingere. 

Trata-se de outro disfarce! Na realidade, é uma “faminta”. Metida à polida, mas não rejeita prato algum! Ao sair das festas, apenas nesse momento, tentando disfarçar, prepara pequenos embrulhos com doces e salgados, para darem na bolsa, de modo a regalar-se em casa. O hábito foi notado. Porém, deu certo. Passou a ser contemplada com lembrancinhas e verdadeiros farnéis. Adorou a ideia! Aprova o agrado, discordando da conotação de pagamento pelos seus “serviços”, embora, no meu sentir, entendo ser uma vergonha! Fazer o quê? Ela é assim... 

São dadas sugestões para aprimorar seus “conhecimentos”, se os tivesse, e até são indicados cursos para realizar. Desculpa-se, apelando para o hipotético, qual seja o dom, que diz ter. Apega-se ao imponderável, invocando as qualidades de sensitiva, lembrando, espertamente, que essas virtudes não são aprendidas na escola. 

Enquanto a coisa estiver revestida de humor e for compreendida como sem efeitos nocivos, tudo bem! Cuidado, no entanto, deve ser dispensado ao empreendimento de Dona Bárbara, porque, dependendo das circunstâncias e dos exageros, podem advir situações constrangedoras, sendo difícil ou impossível revertê-las. Pode-se imaginar que suas histórias fiquem a tal ponto sem governo, tamanha a criatividade, que resultem em “cana dura” para a sua autora. Afinal, poderá haver a alegação de calúnia, difamação ou algo parecido. Será?! Não à toa, os sentimentos são os seus ingredientes. Que Deus proteja a criatura ou a faça desistir da façanha! 

 Alfredo Domingos

segunda-feira, 12 de março de 2018

Mais uma música



 - Mais uma música, Rodrigo (partner-dançarino-fixo de Ruth). 

- OK, vamos lá!

E saíram a evoluir pelo salão, com passos perfeitos, recheados de evoluções. Como fazem há muito tempo, às sextas-feiras, no grande salão azul do Grêmio Recreativo Boa Esperança

Ruth Siqueira Campos, como orgulhosamente proclama, citando militar participante do Tenentismo, político do Tocantins, nomes de Rua de Copacabana e de Município do Paraná, caminha bem pelos 71 anos, com boa saúde, apesar de alguns remédios próprios da idade. Pratica caminhada, pilates e dança de salão, privilegiando o corpo e a saúde mental, num interessante planejamento de vida. Baixinha, magrinha, cuida sozinha da casa, onde faz todas as tarefas. E, para cumprir essas atividades, é bastante disposta. Conclusão: "safa-se" a contento.

Aventurou-se em aula de artes plásticas, pinturas em tela, mas se entediou. Identificou-se como sem paciência para a atividade. Ficou por pouco tempo. Não era a sua "praia".

Viúva há mais de 10 anos, depois de um casamento harmônico, com um homem quase duas décadas mais velho. 

Há uma filha, porém, enfronhada no mundo, cumprindo destinos diversos, para cursos e passeios, cujos endereços são transferidos para o “WhatsApp”. 

Com uma aposentadoria confortável, além da pensão do marido, ao menos por enquanto, antes que o Governo atue com mãos pesadas, talvez justamente, na previdência, Ruth satisfaz as suas necessidades com tranquilidade, embora não caibam exageros. 

Dessa forma, ela rompe o que seria o “isolamento social do idoso”, um mal principalmente das grandes cidades, que cerceia o direito de as pessoas envelhecerem com amor e companhia. No Brasil, do total de idosos, atualmente, 35% vivem sozinhos em suas casas, tendo que resolver problemas que surgem e espantar a solidão. 

Vamos falar de Rodrigo. Contratado, com valor mensal estabelecido, é exímio dançarino. Formado profissionalmente nas academias de dança, aos 36 anos, possui habilidade, gentileza e sorriso escancarado, para dar e vender. 

No contrato consta, embora não por escrito: 

Da parte dela - o pró-labore, o transporte, a roupa do “professor”, os sapatos, estes de verniz, em duas cores, a cerveja, os tira-gostos, e o que mais aparecer por conta do “serviço” da dança.

 Da parte dele – a bela figura negra apenas deve ser parceiro, para irem, às sextas-feiras (às 18h), e voltarem (até as 23h), e exclusivo dela, para a dança. Ficou estabelecido que, no compromisso semanal, devem ser cumpridos dois períodos de hora e meia para dançar e meia hora de descanso. 

Podemos estranhar o rigor da combinação, e até mesmo o porquê dos honorários pagos a Rodrigo. Afinal, é uma diversão. 

 Ruth imagina que, feliz ou infelizmente, quando se paga, existe seriedade, além de considerar que somente desse jeito conseguiria a certeza de ter o acompanhante, inclusive bem trajado. No contrato verbal, bem especificou: 
- Pagarei o valor pedido, mas não perdoarei atrasos nem faltas, em relação ao acordo feito, exceto em situações extremas, que deverão ser comunicadas com antecedência sensata ao horário previsto para a saída. 

No decorrer do trato, de quando em vez, fica furiosa diante de atrasos e faltas. No entanto, é condescendente.

Rodrigo, regularmente, cumpre o acordado. Ocorrem, porém, deslizes no tempo do descanso. Ele aproveita para dançar com outras pessoas mais jovens, por vontade própria, o que é válido, descaracterizando uma escorregadela. 

 Nesse desenrolar, Ruth leva a vida agradavelmente, em condições gerais compatíveis com a sua idade e com o seu poder aquisitivo, e sempre aguardando, ansiosa, as terças, quintas e sextas-feiras para o exercício do pilates e da dança, respectivamente. 

A propósito, estudos apontam que a solidão ataca a saúde física e mental das pessoas, mas nas idades avançadas isto é mais intenso. Estudiosos da Universidade de Chicago, nos EUA, descobriram que o isolamento aumenta o risco de morte em 14%, entre os que têm 60 ou mais anos. Espantosamente, a Universidade de Brigham Young, também nos Estados Unidos, comparou estatísticas de mortalidade e concluiu que a solidão é tão prejudicial à saúde quanto fumar 15 cigarros por dia ou ser alcoólatra. Para completar, há ainda a revisão de 23 artigos científicos feita por pesquisadores da Universidade de York, no Canadá, indicando a triste realidade de que estar isolado aumenta em 29% o risco de doenças coronarianas e em 32% o de acidentes vasculares. 

Por sua vez, a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulga, em seu Relatório Mundial sobre Envelhecimento e Saúde, que o envelhecimento saudável ultrapassa o limite da ausência de doença. É preciso que o idoso tenha habilidade funcional, inserção social e sistemas de saúde diferentes dos modelos curativos. 

No Brasil, abandonar idoso (incapaz) é crime, com pena de multa e detenção de seis meses a três anos, de acordo com o artigo 133 do Código Penal. Há, em acréscimo, os artigos 97, 98 e 99 da Lei do Idoso, de nº 10.741, de 2003. 

Existem 3 tipos de abandono de incapaz: o intelectual, usado para o menor, se os pais privarem o filho de frequentar a escola; o moral, quando for ignorada a existência da pessoa, principalmente no segmento afetivo; e o material, na situação de o idoso não ter condições materiais de subsistência. 

No caso de Ruth, entendemos que as coisas caminham adequadamente, em decorrência da existência de recursos e, notadamente, em função da sua sabedoria, resolvendo-se de várias maneiras, criando boas oportunidades para si. 

Para terminar, ressaltamos que o título deste texto tem a ver inicialmente com a dança, mas indo em frente para as surpresas e as brechas, que surgem ao longo das nossas vidas. No abrir de janelas, portas, quaisquer chances, sempre teremos "mais uma música". Resta-nos sair dançando, no ritmo que couber para nós.

 Alfredo Domingos 

Fontes de pesquisa: 1) O Globo, 4/3/2018, matéria de Clarissa Pains – Órfãos na velhice: isolamento social aumenta em 14% risco de morte. 2) Jornal do Brasil, 4/3/2018, matéria de Celina Côrtes – O filão da Terceira Idade. 3) IBDFAM/TJMT, 22/3/2016, matéria de Mariana Vianna – Abandono de incapaz é crime.