quinta-feira, 3 de março de 2016

Hein?!

Fonte da imagem: www.gazetadopovo.com.br
(obra de Arcangelo Ianelli, exposta no Museu Oscar Niemeyer – MON, Curitiba, PR)

Oficial de altíssima patente recebeu nome e sobrenome pomposos. No entanto, por motivos de saúde, está recolhido, após comandar tropas aguerridas, de prontificar os meios bélicos mais distintos e de enfrentar terríveis inimigos, em várias frentes.

Por exigência profissional, residiu em várias localidades pelo país afora e, também, no exterior, sendo que esta situação lhe proporcionou enorme satisfação pelo reconhecimento da sua dedicação profissional irrestrita.

Estando reformado, após cumprir todas as etapas da carreira, relembrava saudosista o tempo da ativa. Eram muitos os casos. Abundavam as recordações das aventuras, dos antigos chefes, dos bons camaradas e dos fiéis subordinados. Dono de memória prodigiosa, principalmente, para velhas passagens, contava tudo sem negligenciar nenhum detalhe. Orgulhava-se dos quase cinquenta anos de serviço ativo.

Seus guardados ocupavam muitos volumes, constituindo-se em rico acervo. Relatava com emoção os acontecimentos relacionados às medalhas, aos diplomas e às referências elogiosas. Exibia cuidadosamente cada um dos “troféus” da coleção, sempre fazendo comentários ilustrativos. O interlocutor apreciava atento, prestigiando a exibição, afinal as histórias eram interessantes e reais.

Mas o velho soldado ficou impossibilitado de combater. O campo de batalha passou a ser outro. As manobras desenvolvem-se a pé, em espaço reduzido.

Em torno de uma década atrás, passou o nosso herói a levantar-se bem cedo, todos os dias, e a colocar a farda de maior gala. Ficava assim, engalanado, a balbuciar coisas desconexas, como que dando ordens, fazendo discursos, como saber?... Ao final daquele momento crítico, perguntava incisivo: - Hein?! O fecho tinha duplo sentido, pois era vigoroso e, também, inconclusivo, indagador.

Por toda a vida manteve-se um homem enérgico, exigente, de hábitos rígidos. Não se deixava tergiversar nem transgredir. Conduziu-se sempre em linha reta, sem atalhos. Trajava roupas austeras. Tudo sem brilho. De brilhante somente a carreira militar.

Ultimamente, por alguns dias, demonstrava excessiva euforia. Em outros, entristecia-se bastante. Seu apetite igualmente variava. Alternava fome desmedida com inapetência acentuada.

A família, embora não entendesse, estava ciente de que urgiam as providências. Em função de aconselhamento médico, foi decidida, para o bem de todos, inclusive o do paciente, a internação na Unidade de Saúde Mental da Corporação. O seu estado controverso poderia agravar-se, tornando a convivência domiciliar difícil e inadequada.

Apesar do uso de vários remédios e do apoio psicológico, persistia a necessidade de tratamento específico e diuturno, que se não permitisse a cura, ao menos que desse conforto ao enfermo.

Suas relíquias e fardas ficaram para trás. Houve desapego por parte dos parentes para doar essas recordações.  Não poderiam acompanhá-lo na nova e reclusa jornada.

Existem, com certeza, a partir de determinado período da existência, motivos para deixarmos no passado aquilo que nos é mais caro: as pessoas, a carreira, os pertences, porém, permanecendo indeléveis as lembranças. Estas vão tatuadas em nós para sempre, mesmo que a memória fraqueje, restarão resíduos de lucidez.  As razões são inúmeras, pois o mundo gira, e, no girar, as coisas precisam de ajustes. A questão é o peso que a separação, do que for, repassa para as nossas vidas.

Ele aceitou, até com facilidade, o tratamento. Bom começo para uma longa temporada, que iria se transformar em doída tentativa de resgatar o bravo combatente da doença.

No novo “lar”, sem muito contato com a realidade das pessoas comuns, construiu um mundo só seu...

Nos aposentos, através de uma pequena janela gradeada, observava, por muito tempo, a nesga de natureza que lhe era permitida. Mantinha-se sentado na cama, voltado para a janela, rodopiando com os seus pensamentos, e aparentemente calmo. Raramente, deitava-se para relaxar, ler um livro ou algo a mais. Sua postura representava estar quase que permanentemente em posição militar.

Nas manhãs, havia um período programado para o passeio pelo bosque da Unidade de Saúde. Aos internos ficava liberado o contato com o jardim, incluindo sadia caminhada. O local contém muitas árvores, o que permite gostosa sombra e lazer.

Seu ritmo de caminhar era vigoroso, com passadas largas, e trazia os braços cruzados nas costas, entrelaçando as mãos. De cabeça erguida, ia solene em direção ao nada. De quando em vez, voltava a cabeça para trás, por cima de um dos ombros, e dava enérgicas vozes de comando aos subordinados, considerando as árvores os seus soldados. Ali estava a sua tropa. Completava as ordens com o indefectível “hein?!”

Até que cansado, retornava ao quarto, dessa vez de cabeça baixa, dando ares de constrangimento.

A instituição militar a qual pertencia descobriu e tratou de corrigir grave erro.

Uma condecoração importante, merecida por direito, deixou de lhe ser dada enquanto na ativa.

Então, era momento de desfazer o equívoco, fazer-se justiça. Em decorrência, foi marcada a cerimônia militar para oficializar o preenchimento da lacuna. Foram convidados familiares e autoridades da área, além dos companheiros de farda, dos velhos tempos.

O pessoal de saúde mais próximo ao doente explicou o motivo do evento, antecipando, paulatinamente, o que seria realizado, para que houvesse compreensão do conjunto da cerimônia, ressaltando a importância, para justificar a necessidade do seu comparecimento.

Realizada a parte inicial, as derradeiras providências foram postas em prática, dentro da cortesia e das tradições que norteiam a conduta militar. Inclusive, não faltariam a formatura em pátio descoberto e a banda. Para complementar, foi programado um coquetel no salão nobre, sem bebida alcoólica, para fechar em grande estilo a solenidade.

O momento efetivo da cerimônia foi tenso! O homenageado atrasou-se. Mas após várias chamadas e conversas, ele compareceu. Trajando pijama e sandálias. Fazer o quê? Era o seu uniforme. Aliás, um pijama branco imaculado, impecável.

Postou-se no local marcado, colocando-se em sentido por toda a cerimônia. Ocorreram os discursos de praxe, mas ele declinou de falar, fazendo o sinal de mão característico de que seguissem à diante (o tradicional “segue o barco”). Preferiu calar-se. Na verdade, nem ficou definido se compreendeu na íntegra o que se passava. Devia estar confuso, apesar da “tradução” simultânea de uma das filhas.

Claro, que o momento mais emocionante foi a aposição da medalha no peito, pela autoridade de maior patente presente, tendo ao lado um subalterno conduzindo uma almofada, onde a caixa de veludo sobressaía!

Silêncio total! Apenas a batida compassada de um tambor. E talvez, somente, o coração do velho soldado estivesse fora do compasso, acelerado de emoção. Mas era difícil avaliar. Suas emoções rareavam no aspecto lógico ou de orientação.

Terminada a cerimônia, os presentes foram convidados para a confraternização no salão nobre, onde o agraciado seria cumprimentado. E, em seguida, deu-se o deslocamento para o local.

Aconteceu, inusitadamente, que o principal elemento da cerimônia “não se tocou”! Apesar dos insistentes chamamentos, ele não atendeu. Ao contrário, arrematou explicando-se:
- Não irei. Vamos agendar o próximo evento para outra data; agora preciso descansar.
E completou balbuciando:
- Se querem que eu vá, falem primeiro com o meu assistente-secretário. Depois verei o que fazer.
Perplexidade geral!

Da posição impassível, fez meia-volta, marcialmente, e se dirigiu ao repouso. Quebraram o silêncio o tilintar da medalha, agitada pelo caminhar em passo marcado, e o proferir de uns tantos “hein?!”, antes de entrar no corredor de acesso ao quarto.

Alfredo Domingos

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Pergunta capciosa

 
Sofrônico é um cara conservador. Seus hábitos são previsíveis e regrados. Não se afasta da rotina por nada. Desde que acorda até o sono da noite, cumpre um roteiro absolutamente programado.

Outro dia, Sofrônico resolveu ousar. Ao ter que pagar uma conta de energia elétrica, fugiu do tradicional, da caixa bancária. Entrou numa Casa Lotérica, no Centro do Rio de Janeiro, e procurou o guichê. Usando de polidez, para se certificar de que daria certo, perguntou:

- Senhorita, por obséquio, é possível pagar esta conta em “espécie”?

A resposta foi totalmente inesperada:

- Senhor, poder pagar, sim, mas eu não sei o que é “espécie”.

- Entendo, senhorita, mas com dinheiro posso pagar?

- Claro, fique à vontade – a moça encerrou o assunto, dando continuidade ao serviço.

Alfredo Domingos

Limpeza na casa e na vida


Passei os últimos dias fazendo limpeza. Nos armários e gavetas. As tarefas foram eliminar coisas inúteis ou sem uso e reduzir a bagunça. Revirei tudo na casa, no finalzinho das férias.

Utilizei como inspiração a lição deixada por Lena Gino: “Casa arrumada é assim: um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz...”.

A propósito, consultei um livro que trata deste assunto de endireitar, seja a casa ou a vida, “A Mágica da Arrumação”, de Marie Kondo, editora Sextante, e dali retirei boas dicas, sendo duas em destaque: “ficará surpreso com o número de pertences que perderam a sua função” e “mantenha exclusivamente as coisas que são valiosas para você”.

Não tinha a menor ideia do tanto que encontraria. Desconhecia a minha capacidade de armazenar papéis, fotos, objetos e roupas. Em decorrência, constatei que era muito apegado. A hora era de mudança. Abrir caminhos para os bons fluidos circularem. Deixar a casa mais leve e clean, como se diz modernamente. 

Imprimi rotina de combate. Considerei caso de calamidade própria. 

Acordava cedo, colocava bermudas, camiseta e sandálias de dedo. Era o uniforme de batalha.

Comecei por repintar os interiores, eu mesmo, usando estritamente cores claras. Repeti, em vários ambientes, a cor “açúcar cristal”, que trouxe a sensação de cômodos maiores, limpos e descomplicados, recomendada por alguém entendido em Feng Shui. Para citar uma alteração significativa, atrás da cabeceira da cama havia uma parede na cor bordô, pavorosa, que não sei como não mudei antes. Esquentava o visual do quarto e não trazia a sensualidade que um sozinho imagina obter.

Até a parte da cozinha foi “inspecionada”.  Em função disso, por exemplo, verifiquei surpreso o número enorme de canecas. Não estimava o tamanho da coleção. Para o quê?!... Sem contar a infinidade de panelões, panelas e panelinhas. Acho que fui dono de restaurante sem saber!

Em complemento, o fogão permaneceu fechado e a geladeira quase vazia, apenas com material para sanduíches. Havia necessidade de ser prático!

Deparei-me com boas e más recordações. Invariavelmente, a cada revirar de caixa ou de gaveta brotavam lembranças que me deixavam estarrecido. As expressões que mais usei foram: - Como? Não acredito!

Para apresentar uma situação inusitada, vale revelar que achei numa gaveta, entre as camisas de pouco uso, um vestido rosa, decotado, presente dado por mim a “ex”, Carol, pela qual, ainda, tenho grande saudade, depois de oito meses. Estremeci na base, quase uma vertigem. O vestido, quando no corpo, permitia mostrar com elegância parte dos seus lindos seios. Era uma mulher alta, de corpo magro, morena, cabelos compridos, que permanecia descalça, enquanto em casa, conduzindo uma presença incrível, marcante. Sobrava-lhe força interior, demonstrada por determinação de mouro, embora com extrema doçura.

Tamanho era o seu arrojo, que numa manhã cinza, não poderia ter cor diferente, à mesa, pegou carinhosamente a minha mão e bem baixinho disse:
- Estou incomodada, vou abrir a janela para outras paisagens, respirar ares renovados. Então, após esta xícara de café, irei embora. Entenda, por favor.   
Se eu tivesse de pé, teria desabado no chão!

Voltando ao achado, o quarto ficou tomado pelo perfume de Carol, parecia obra dos céus, e, atordoado, tive que fazer pausa na arrumação. Recuperar-me da emoção!

Não discerni se foi esquecimento, à toa, ou se foi proposital o abandono da peça, para que a chaga do amor ficasse sempre aberta. Contudo, seria improvável “esquecer” no meio das minhas roupas. A hipótese da intenção até que me animou. Lancei a pergunta a mim mesmo: - Será que resta chance de volta?...

Nota relevante: não tive coragem de me desfazer do vestido, tornei a guardá-lo; e fiz mais. Caprichei num embrulho com papel de seda, para tentar perpetuar uma das marcas da relação. Homem é bicho bobo!

Como sou ligado no ofício de escrever, verifiquei que possuía pastas e pastas de escritos. Há nove anos, no mínimo, junto textos terminados, faltando digitar, e outros por terminar, devendo empreender o derradeiro empurrão. Acontece de a história brotar e depois ficar faltando oportunidade para revê-la e considerar encerrada. Aliás, essa dificuldade é grave, pois uma ideia empacada impede que as emoções, as mensagens, etc., sigam os seus caminhos e atinjam a quem as merece. Ficamos com algo refreado dentro de nós, o que não é bom! Gastei dois dias selecionando, mas consegui reduzir a apenas uma pasta. Foi duro abrir mão de textos os quais considerava, antes, obras-primas, verdadeiras preciosidades. Que nada! Avaliei alguns como bem fraquinhos.

O capítulo das cartas é incrivelmente bizarro! Encontrei uma carta amarelada, esmaecida, com o parágrafo final rasgado pela metade, onde identifiquei, com muito esforço, no que sobrou, a despedida recheada da palavra “beijos”, até o rodapé, tendo desenhos de coração por todos os lados, de várias cores. Que enxurrada de bregueci! Eu e ela devíamos gostar da relação, devido ao conteúdo da carta, que descrevia com detalhes situações íntimas que tivemos. O problema é que deu branco na memória e não me lembrava da moça, e justamente o seu nome fez parte do corte do parágrafo, deixando como pista o início do nome – “Lu”. Pensei em inúmeros nomes sem associar à pessoa alguma: Luciana, Ludmila, Luana, Lucinda e tantos outros. Pesquisa em vão! Nenhum sentido. Imaginei que poderia ser um apelido, o que também não me levou à solução. Listei mentalmente as namoradas e, pelo incrível que pareça, conclui que não me relacionei com alguém que tivesse nome começando com “Lu”. A maioria, só de curiosidade, foi “Maria”. Várias Marias: Fernanda, Auxiliadora, Augusta, Cristina, do Carmo, Teresa, do Amparo, inclusive uma Umbelina, de longínqua lembrança e estranheza.

Ainda sobre cartas, deleitei-me com as juras de amor da adolescência. Tão intensas e ocas, ao mesmo tempo, que tangenciavam o ridículo! Em uma delas, aproveitava para sanar as minhas dúvidas de matemática. Quase não havia espaço para comentar sobre nós. Não pretendia uma namorada, pelo jeito. Esforçava-me em aproveitar a professora.

Nas viagens a serviço, correspondia-me com a minha mãe. Na releitura, agora, depois que ela faleceu, emocionei-me e revi ensinamentos e conselhos, pois ela era perfeita em relatar os assuntos familiares e tirar as suas conclusões, que fazem sentido até hoje. Notei quanta sabedoria havia embutida. Daí, a conclusão de consenso de que papo de mãe é inigualável!

Com respeito às cartas, aos documentos e a qualquer tipo de papel, insisti na precaução de não acumular, porque seria propiciar o mofo, a poeira acumulada e as outras consequências nocivas.

Bem, as cartas rarearam muito com a movimentação de e-mails e o uso de whatsApp e face, vindo a perderem valor, exceto aquelas especiais, que nos marcaram. Assim, de duas caixas atopetadas de cartas, mantive o irrisório número de sete, que também é cabalístico, o que faz sentido.

Há, porém, a parte poética relativa à carta, que ficou no passado, basicamente em dois aspectos: o contato com o carteiro (em algum momento, o carteiro mesmo anunciava quem era o remetente, pela repetição do envio) e a expectativa de receber a carta (importante acontecimento, já que as grandes confidências e revelações não eram passadas pelo rápido contato telefônico, mereciam detalhamento). Além disso, fazer carta era prazeroso e romântico.

No entanto, a etapa mais árdua foi organizar e peneirar os livros. O lado sentimental pesou muito, em função do apego gigantesco que pude constatar. Precisei interromper, de vez em quando, na busca de fôlego para me desfazer de uns poucos exemplares.

Tudo era julgado importante e assim a pilha da permanência somente aumentava. Dizia: - Este fica! Este também! Deste não devo abrir mão! Este é para guardar! Este preciso reler! E ia arrumando motivo para manter. No desenrolar, encontrei alguns não lidos e outros dos quais não me lembrava. Houve trabalho, meu amigo!

Livros são como filhos, dão um orgulho danado! Devo informar que pouco consegui neste quesito. Mantive quase todos os livros, muito devido a ter o hábito de fazer anotações nas páginas. Tento enriquecer o livro, para o meu uso e para o das pessoas que virão, com as minhas inquietações e opiniões, inserindo também comentários de críticos e pensamento de autores, no que cabe atrelar. Desta forma, cada livro passa a ser personalizado, adquirindo novas características.

A ação nas roupas e sapatos foi mais fácil. Ufa!

De cara, retirei do armário e das gavetas o total das roupas e sapatos, para depois resolver sobre o que não queria. Fiz a “montanha” para selecionar. Assim, não permiti que escapasse alguma coisa da triagem. Esta foi mais uma dica do livro de Marie Kondo.

Diversos motivos serviram para eu fazer o descarte. Camisas grandes ou apertadas. Camisas ditas sociais esquisitas, de colarinhos bicudos ou de mangas muito compridas. Calças fora da moda, algumas largas, que davam dois de mim dentro. Casacos inúteis em relação ao nosso clima. E paletós de lapelas e ombreiras imensas, parecendo os típicos dos mafiosos.

No ramo dos calçados, havia sapatos embolorados, tênis cambetas, um até sem cadarço, porém, soube aproveitar a maioria, que dava condição de eu sair por aí. Refletindo, conclui que usei nos últimos tempos um pequeno número de calçados e que nem precisava possuir os demais. Comprovei a máxima de que usamos o que gostamos ou aqueles que são confortáveis.

Enfim, percebi que possuía um guarda-roupa praticamente obsoleto, precisando ser renovado. Triste, mas boa conclusão para promover novos tempos!

A menção acima de partir para novos tempos tem a sua propriedade! Não apenas no vestuário, mas em tudo. O passado deve ficar para trás, o que é óbvio, mas, infelizmente, lembrado raramente. Por que não aproveitar a ocasião para dar reviravolta geral e reformular conceitos, rotinas, modo de encarar a mim e as outras pessoas, sair do meu quadrado e penetrar em quadrados desconhecidos, para ver no que dará?

Terminada a limpeza, fiquei com a noção de que a consequência principal das coisas terem diminuído foi o meu crescimento como pessoa. Evolui junto com o espaço que obtive. A casa passou a ser mais minha, pois alcancei largueza, trânsito com fluidez e o resgate das coisas com facilidade. Inclusive, ganhei liberdade para as ideias. Incrível, mas está ocorrendo!

Recomendo que experimentem a transformação que empreendi, porém, do jeito de vocês. Saiam da acomodação e deixem a roda girar na direção do novo. Tentar não custa. E se não der certo, pior não ficará. Haverá algo positivo, na certa!

Alfredo Domingos

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Assim são as coisas


Aquele colar de pérolas da vovó, caro à beça, guardado há anos. Desfez-se somente em ser pego, do nada!

Saco de batatas fritas. Ah! Valha-me Deus, que dificuldade para romper! Puft, batatas ao chão! Em relação a isto, o meu pai dizia: - O mau, até “aquilo” atrapalha. Não é não, mas quase.

Amendoim torradinho, salgado. Serviço de bordo da companhia aérea. Poft, bolinhas para todos os lados! Coalhou o avião.

Paliteiro emborcou. Cabeça furada. Já viu, né? Em consequência, pega-varetas armado no tapete.

Saleiro de tampa mal rosqueada, cambeta. Virou, caiu porção exagerada de sal. O bife foi para a cucuia.

Papel higiênico bem enrolado, hermeticamente fechado. Ponta da unha na tentativa de abri-lo. Fenda no rolo. Pronto, folha rasgada!

Clipes multicoloridos. Saquinho de celofane. Enquanto no bolsinho, OK! Buliu para abrir, resultado: fez montinho, feito palha de aço colorida.

Papel-toalha disponível no restaurante. Mão molhada enfraqueceu. Picote fraco. Puxou, partiu!

Brinco de bolinha. Pinçou com os dedos. Procurou buraco na orelha. Dormiu de touca, não achou, peça caiu no vácuo. Claro, que a bolinha abusada foi parar debaixo do armário!

Água gasosa na garrafa plástica. Copo descartável. Colocou o líquido, copo bambeou. Mesa molhada, calça idem!

Batom na cor vermelha. Procurou o beijo. Metrô sacolejou. Pintou a boca tal qual a de palhaço.

Corrida na orla. Vento. Coqueiro balançou. Boné desleixado no cocuruto. Num piscar de olhos, chapéu ao mar.

Brinde com taças de espumante. Emoção. Batida forte. Plaft, cacos em profusão! Tudo respingado.

Navio apitou para partir. Cais cheio. Despedida com lencinho. Mão fraquejou, lencinho boiou.

Bicicleta em disparada, ladeira abaixo. Trombada no poste. Galo na testa.

Cola Super “Qualquer Coisa”. Pingou errado. Borrou e colou; tudo muito. Desgrudar as pontas dos dedos? Quase impossível!

Torneira vazou. Foi dar jeitinho. Borboleta ficou na mão. Jato na cara. Parede e peito encharcados.

Aviãozinho pro bebê comer tudo. Colher cheia de feijão. Filhinho, birrento, mexeu a cabeça. Borrada na boca e no babador. “Shit”!

Sapato novo. Amigo efusivo aproximou-se. Abraço caloroso. Pisada no pé. Camurça prejudicada.

Bisnaga de remédio cuidadosamente acondicionada na caixa. Retirou a primeira vez. Não há um cristão que consiga guardar novamente o remédio sem que a bula fique toda amassada!

Mestre-sala da Escola de Samba evoluindo na avenida. Salto do sapato quebrou. O homem mancou. Prejuízo no julgamento da Escola.

São muitos os atropelos e as mancadas do dia a dia. Inclusive, a falta de sorte. Daí, surge o inesperado. Ocorrem os escorregões. As quedas. As batidas. E outras coisas do gênero.

Constatamos também como o simples abrir de pacotes e embrulhos torna-se tão difícil. Até parece que estes são feitos para não ser abertos. Inesperadamente, os produtos embalados são lançados ao chão, na ânsia exagerada do freguês por consumi-los. Será que as fábricas não concebem maneira que facilite a abertura?

Tia Violante, filósofa da família, sempre vaticinou: quem está na chuva é pra se molhar; ajoelhou, tem que rezar; nem tudo é só vitória; e blá, blá, blá!

O que ela quer dizer é que “assim são as coisas”, com os mais e os menos. Negá-las como são é fugir da realidade. E, concluindo: quem vive está sujeito às decepções e aos êxitos. Paciência e oportunidade, envoltas em um pouco de arte, são necessárias!

Alfredo Domingos

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Grafite da Natureza

Origem da imagem: foto do autor (OUT2015)

É surpreendente estar caminhando na calçada e deparar com esta obra, repleta de criatividade, e totalmente diferente, que possibilita ilimitada curiosidade sobre a sua concepção. Sem dúvida, ela coloca uma pulga atrás das nossas orelhas!

Os artistas da “Produtora Cultural Cazota”, entre eles Fernando Cazé e Nhobi Cerqueira, escolheram como tela um prédio de dois andares (observar a janela no canto esquerdo da construção), na esquina da Rua Conde de Bonfim com a Avenida Gabriela Prado Maia Ribeiro, na Tijuca, bairro do Rio, preenchendo uma boa parte da parede com inusitada arte.

Aliás, não podemos deixar de mencionar a origem do nome da Avenida. Gabriela era estudante, de 14 anos, que foi morta por tiroteio de bandidos, na escada do metrô São Francisco Xavier, também na Tijuca, em março de 2003, o que infelizmente gerou a homenagem. Na ocasião, o caso proporcionou enorme comoção, pela violência envolvida e pela perda de uma jovem.

A arte é espantosa! Dá margem a várias interpretações. Tracei comigo uma das possíveis ideias. Vesti, então, a camisa da minha imaginação.

Vemos o burocrata, tudo indica, de terno e gravata, ao telefone, provavelmente resolvendo assunto urgente, urgentíssimo, na mesa de trabalho, rodeado de papéis, no fundo azulado. Pois bem, isto é apenas um resumo. Precisamos esmiuçar a ideia.

Tenho para mim que a natureza percebeu, graças a Deus, o estado lastimável do cidadão, que dava sinais de tédio, cansaço e estresse, quase jogando, no ringue da vida, a toalha branca da rendição, provavelmente em função da desgastante rotina profissional.

Dessa forma, talvez os deuses tenham engendrado um plano de persuasão do amigo, para que saísse da consumição. Mas a natureza atua com força, invade, no bom sentido, aquilo que deseja tomar para si, realizando um resgate contundente.

A obra exprime perfeitamente a fúria empreendida e a consequente mutação do oprimido.

Há um elemento importante no arranjo, que é o duende, vamos chamá-lo assim, posicionado à direita, com cara de sacana, que folgadamente usa uma das pernas para tomar posse e indicar autoridade. A figura, um tanto hilária, parece divertir-se na missão de tecer a “ressurreição”, determinada pelos céus, para a criatura.

A vida renasce a cada dia. E cada um de nós é o responsável por escrever essa página diária. Acontece que no meio da rotina não sobram cabeça e tempo para pensar em mudar a própria rotina. Aí, o sujeito sucumbe pelo trabalho, não consegue enxergar saídas e acaba rendendo-se, ficando ao sabor da situação incômoda, às vezes para sempre.

Mas na lúdica visão deste grafite, há solução.

O artista idealizou a passagem do sofrimento para o bem-estar, por meio da mudança física, que engloba a alteração psíquica e a de hábitos.

Surge a transição da escrivaninha para o campo, para a mata, sei lá para aonde mais!...

A pessoa amofinada ressurgirá em outro cenário, incorporando-se a ele para alcançar a felicidade.

Não podemos esquecer que estamos em época pré-carnavalesca e a nossa história tem tudo a ver com um samba-enredo de Escola de Samba, que ousa quando abandona a dura realidade para entrar na mágica fantasia, onde tudo é possível.

De volta ao personagem, identificamos o domínio da natureza sobre o corpo, principalmente na cabeça, que foi alterada completamente. O que era normal deu a vez ao revolucionário. Verduras, folhagem, pepino ou abobrinha verde e antúrios entraram em cena, jogando o encurralado cidadão na realidade dos produtos da natureza, aquilo que vem da terra, em que o homem pouco interfere.

Só sei que ficou bonito pra chuchu! Ops! Chuchu sai da terra, também!

Fica evidente o destempero da vegetação, projetando-se pelo pescoço e braços, como numa avalanche, sem freio, sem domínio!

A liberdade abriu as asas e está pronta para decolar. Parabéns aos artistas!

Alfredo Domingos

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Paixão de Carnaval


Soninha, mais do que passista da Escola de Samba, é bailarina nata. Cheia de dengos, com divinas formas corporais. Frequentadora assídua das quadras de samba.
Ele, aquele verdadeiro “nerd”, por conta dos aprofundados estudos.
Pintou o amor. O lúdico se aliou ao sério.
A época era de quase carnaval. Faltava pouco tempo para a grande festa da Sapucaí.
Os ensaios da Escola foram intensificados. Motivação a mil. Os dois inseparáveis.
Finalmente, chegou a hora do desfile!
Ela surgiu linda, dentro de um biquíni de pedras coloridas, que davam luminosidade à menina-deusa. Como madrinha da ala poderia bailar aonde quisesse, mostrar o samba no pé com desenvoltura, ser uma estrela.
Ele não tinha como desfilar. Não pertencia àquele mundo. O seu universo era outro. Mas havia a vontade de acompanhar a amada.
Como último recurso para resolver a situação, foi feito o pedido à diretoria para que desse um jeito. A solução veio.
Aos poucos, o desfile foi acontecendo, ocupando espaços com o deslocamento dos componentes.
A passarela do samba encheu-se de música, brilho e cor. Tudo era mágico!
Ele desfilou. Sim, senhor!
Foi “no chão”, empurrando o principal carro alegórico. Igual aos outros rapazes da comunidade.
Inicialmente, constrangido, até envergonhado. Depois, solto, leve, arriscando uns passinhos. Terminou jogando beijo para a plateia. Alcançou a liberdade que a felicidade permite!
O que parece incompatível pode resultar em boa liga. Bastam compreensão e espírito desarmado.

Alfredo Domingos

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Mentira boa é tolerável?

Há por aí uma onda de “mentira branca”, tendo no seu bojo a possibilidade de dizer tudo ou de mentir, desde que seja com boas intenções, com o carimbo da bondade. Quem pratica chega a confessar, ao ser descoberto:

- Veja, isto é uma mentirinha branca, não se zangue, não!

O que é condenável, por convenção, é o sentimento da maldade e o objetivo da enganação e do encaminhamento do outro para o mau resultado.

Mas é tarefa dura diferenciar uma coisa da outra. Porque pode haver a saída de afirmar que o intuito foi o de alertar ou o de brincar. A justificativa é mais ou menos assim:

- Fui sincera, quis, de maneira gentil, avisar! Amiga é para essas coisas.

Para exemplificar, foram colecionadas algumas situações com as quais topamos a cada momento. Dá até para imaginar que sempre há armação por trás, dissimulação. Vamos recordar:

Prazer em rever você!
A buchada de bode está uma delícia, levinha!
Meu bem, pode ir ao futebol, não me incomodarei!
Bebi pouco, amor!
Querido, é tão bom quando a sua mãe nos visita!
A sua “ex” é simpática, não?!
Como você adivinhou? Adoro salada só de rabanetes!
Não tenho certeza, não posso jurar, perdoe-me, mas acho que vi o seu marido entrando no motel, com uma loura! Ih, falei, pronto!
Preocupe-se, não, mas parece que o chefe está preparando uma baita demissão. Vazaram uns nomes aí! Isola, evidente que você não está na relação!
Não há necessidade de cortar o cabelo. Ele está quase na cintura, porém, está fazendo um gênero! Hoje, está na moda!
Seu carro, vééélho? Que nada! Conservado!
Acabei de lembrar-me de você! Circunstância boa. Não morre tão cedo!

Bem, muitos outros exemplos poderiam constar. No dia a dia, não faltam desassossegos ou confidências a revelar. Existe uma atração pela conduta escusa, paralela à natural, que possui meandros, às vezes, sensíveis ou irreveláveis. Contudo, as pessoas são tentadas a permear esse terreno perigoso. Sentem-se em destaque por divulgar algum assunto atrevido.

Em tempos de desapego total, e, no mesmo caminho, andamos presos por demais aos outros, por vários canais, a relação das pessoas está esquisita. Busca-se a intimidade, mas com a máscara da cerimônia! A delicadeza pediu para descansar, está recolhida, dando espaço à invasão, travestida de sinceridade, de amizade e de outros falsos predicados.

Assim como, evocar a “inveja branca” assume semelhante tom desagradável. Pior! Declarar-se com inveja é extremamente inconveniente, seja qualquer a cor do sentimento, na tentativa de suavizar a ideia indiscreta.

A inveja branca, por si só, apenas faz mal a quem a possui. Corrói por dentro o invejoso. E o agravante vem a reboque. É a revelação com ar de inocência, como se a intenção fosse nobre.

Em resumo, a mentira ou a inveja é uma navalha afiada para cortar! Elimina o básico das relações, que é a confiança. Então, vamos combinar que a tolerância deve tender a zero, para que haja o mínimo de respeito. É imprópria a tal frase que circula livremente no trato interpessoal: “Atualmente, vale tudo, ninguém se incomoda!”.

Alfredo Domingos