sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Sonhar não custa nada e faz bem

Lufa-lufa, corre-corre, confusão, atropelo e mais outros tantos substantivos podem indicar a complexidade do nosso dia e a agitação do nosso cérebro, embora, na maioria do tempo, seja o verbo que nos inferniza, designando tarefas.

Vivemos num encadeamento de obrigações, incluindo a rotina de trabalho e, até, a diversão. Ademais, há a íntima relação com as redes de comunicação, que absorvem a maior parte das atenções.

Nos raros instantes de não se fazer coisa alguma, é permitido, e também salutar, sonhar. Um bom instante para isso é o curto lapso de tempo, antes de pegar no sono. A imaginação voa e o torpor da sonolência vem nos abraçar.

É imensamente prazeroso levantar voo, permanecendo no mesmo lugar, com os pés no chão, pensando em passagens agradáveis, chamando para nós aquilo que oferece prazer. Estudos de neurocientistas apontam que sonhar acordado é benéfico. O sonho aceita tudo, ainda mais se engendrado pela nossa engenhosa cabeça. Igual a texto no papel. Nem precisa ser verossímil, sensato e embasado. Ocupa a seara do poético. Não necessita de início, meio e fim. Flui ao gosto do sonhador. Adapta-se conforme a sua vontade. E o melhor é que sendo do agrado atrai o bem-estar, quando estamos em sintonia. Dá a ideia de superpoder, com o qual podemos comandar o presente e o futuro.

Quando algo me aborrece, além de apurar a respiração, peço socorro às ideias, deixando-as soltas, para que a paz retorne. Invento. Crio histórias do meu jeito, normalmente maravilhosas e bem-sucedidas, evidentemente. Acabo dando risada e experimentando prazer. Será uma forma de terapia? No meu sentimento, sim. Escolho apropriar-me de “leveza” e de “o menos é mais”, no cumprimento de conselhos tão atuais, visando estabelecer um “clima” favorável aos devaneios. Devanear faz bem.

Busco personagens simples, que julgo serem interessantes. Boas pessoas para que eu fique bem cercado. Não imagino maldades, traições ou mortes. Os personagens, apenas, somem, não mais sendo lembrados, a partir de saírem do contexto. Desvanecem-se. Quando estão na roda-viva dos acontecimentos, são atuantes, criativos e bons. Procuro atrair a bondade, trago-a para mim, para me acompanhar.

De repente numa história, sem fim por enquanto, pois o roteirista sou eu e estou vivinho da silva, destaquei um personagem do restante dos participantes – Alice. Companheira-namorada. De nome doce ao pronunciar e de imaginar, ligado à nobreza, segundo os estudiosos de onomástica, e ao mundo lúdico de Lewis Carroll. Faço conexão direta entre a Alice criada por mim e a do País das Maravilhas, de Carroll, embora as idades e as épocas sejam completamente diferentes. O coadjuvante número um sou eu, que transito no entorno de Alice, a protagonista. Preferi assim.

À volta de Alice, resolvi inserir pessoas diversas daquelas das minhas amizades reais. Vou ao encontro de outras cabeças. Penetro no novo, uma vez que o sonho abriga qualquer conceito de comportamento, ou até nenhum conceito. Gente que seja de seara alheia à minha, ligada, habitualmente, às artes, às atividades esportivas, à gastronomia e ao lúdico. Busco trajetórias do gênero blasé cujos assuntos me atraiam e gerem conteúdo com característica de sonho mesmo. Penso nos urbanautas (insistentes pessoas andarilhas das cidades, caminhantes sem freio); nos cozinheiros das horas vagas, mestres-cucas amadores; nos violonistas ou pianistas solitários, que dão audições fechadas, pra pouca gente, nos sábados à noite, tendo como ouvinte atenta a chuva na vidraça; e assim vou arrebanhando pessoas de vários gostos e origens, para somarem com os seus comportamentos.

Ah! Na invenção, Alice possui uma filha, de outro homem. Moça casada, que mora fora da nossa cidade. Com a vida resolvida, não nos trazendo incômodos.

Programo, às vezes, uma viagem até a cidade da “enteada”. Passagem rápida, com algumas atividades como caminhada, escalada, etc. Faz parte do lazer pra relaxar. Sair da rotina.

Conhecemo-nos da maneira mais trivial possível. Esbarrão na saída do mercado. Desculpas dos dois, e convite a ela se queria companhia até a casa. Aceitou, desde que a deixasse na calçada, em frente ao edifício, evitando invasão. Concordei. Troca dos números dos celulares. E, dias depois, marcado o primeiro encontro. A partir daí, somente alegrias!

Alice é campeã! Gente fina. Cordata. Paciente. Fala mansa. Disposta para as aventuras. Elegante no vestir, sem exageros, e, principalmente, de gestos gentis. Eu precisava dourar a pílula da personagem! Sem o quê não haveria graça.

Ela nunca teve um parceiro fixo, como se diz. O que pensou que daria em amor definitivo durou o suficiente para ganhar a bebê. Depois, findou num estalo. Não sendo necessário tecer detalhes.

Os meandros do sonho louco permitem comparação com a feitura de refeição de fim de semana, onde os panelões e as grandes quantidades têm espaço. Colocamos ali um pedaço substancial disso; quilos de material com sustância; colheres daquilo; pitadas daquilo outro; bastante coisinha boba e inofensiva, que não matará os comensais; raspas de coisa consistente; algo que irá dar cor; folhinhas verdes para proporcionar frescor e agradar aos olhos; e, se houver fôlego, conseguimos uma travessa refratária para gratinar o que for sem graça.

A escrita, ainda que mental, pode ter a concepção inventada acima. Sem problema. Cabe tudo no panelão da cabeça, assim como na gororoba que o fogão produz.

No seio disso tudo, lanço mão de uma mochila. Carrego-a nas costas, e me utilizo das “facilidades” que ela guarda. Seu papel é especial. Dali, tal e qual os recadinhos do realejo, retiro intervenções para enriquecer o sonho. Coisas dos tipos: cada um morando na sua casa; dirigindo o seu carro; fazendo suas compras; e administrando seu dinheiro. Somos praticamente da mesma idade, para não haver lacunas nos interesses. Ela professora universitária, de História, e quanto a mim deixo em branco. Sou o que sou, quase um anônimo para o “roteirista”. Risos!

As facilidades evitam conflitos. Sabemos como eles atrapalham. Dessa forma, não abro mão da mochila para a felicidade geral do hipotético casal.
Há dois professores, uma professora – os três da mesma universidade da protagonista - e a prima, que fazem parte do grupo mais íntimo. Alice tem irmã, mas não participa muito do convívio. Por motivos particulares, mantém-se um pouco afastada.

Os dois professores trazem a nós boas diversões, de tipos diferentes.

Um dos professores é pianista, fora da sala de aula, praticamente profissional, tão dedicado que colocou um piano de cauda, daqueles famosos, na pequena sala de casa. Brinda-nos em dois fins de semana, pelo menos, no mês, com saraus caprichados. Alguns tira-gostos, taças de vinho, cervejas, e faz a festa! Sujeito simpático, divertido, com vários casamentos nas costas ou nas lembranças. Esforça-se em ser bom anfitrião, uma vez que vive sozinho. Faz pequenos intervalos entre as músicas, para contar histórias, narrando conquistas, algumas bem-sucedidas, outras nem tanto, e também casos hilários. Ri de si mesmo. Há suspeita de que boa parte das conversas é inventada. Porém, isso não nos incomoda.

O outro amigo é sociólogo, professor de ideias progressistas, porém, é com a culinária que faz a sua praia. Possuidor dos mais diversos utensílios, que busca temperos, bons ingredientes e receitas refinadas. Frequentador de feiras e de mercados alternativos. Brinda-nos com belos pratos, na sua área, no apartamento térreo, ou deixando-os na portaria de Alice, de surpresa. Entusiasta de passeios por matas e por cantos escondidos, recolhe frutinhas e folhas comestíveis, fotografando curiosidades da natureza. Calado, desconfiado, mas com boas sacadas e de uma prestimosidade acima do normal. Sem casos amorosos para contar ou parcerias para revelar, reserva-se na sua intimidade.

A professora, com nome marcante, Joana D’Arc, traz, ao lado do marido, a face glamourosa da vida. A participação derrama o luxo no meu sonho, por meio dos grandiosos salões da residência, em Copacabana, endereço de frente para o mar, onde boa parte dos movimentos da cidade ocorre. Das passeatas à festa de final de ano, somos convidados para assistir, literalmente de camarote, aos grandes eventos do Rio. Janelões, praticamente, jogam-nos na areia da praia. Comparecemos todos. Geralmente, brindamos o momento com especial espumante e iguarias servidos por impecáveis garçons. Para completar, no campo das maravilhas, o casal coloca à disposição bela casa na Costa Verde do Rio de Janeiro, dotada de lancha, piscina e a indefectível churrasqueira, além de acomodações confortabilíssimas. Querer mais? Por quê?

O tom cômico, hilário, precisava fazer-se presente. Pronto! Aí entra a prima. Figura sem lenço nem documento, excessivamente espirituosa, tendo a comicidade como modo de vida. Viu-se sem o  companheiro, sem entender bulhufas. O camarada avisou que iria à esquina comprar cigarros. Para brincar ela rememora que era de uma marca antiga – Hollywood – de tradicional embalagem vermelha. Afirma que tem ódio deste nome, pois traz à memória o perrengue que ela passou, pois o homem, malandro, nunca mais voltou. Procurou-o em todos os cantos, inclusive hospitais e Instituto Médico Legal, sem sucesso, no entanto. Desistiu. Não encontrou apetite para fazer outra união.

A vida seguiu e se manteve dona do nariz, “sem estorvo”, como gosta de dizer. Assim, teve aulas de circo, de sommelier, de barista, história da arte e assim vai sem brecar a curiosidade e o arrojo. Parece-me que as invenções são propositais para passar alegria e distração às pessoas. Ah, ia esquecendo-me: ultimamente, faz curso de montanhismo. A idade, contudo, apenas para nos situar, passou dos cinquenta há tempos. Integrante de todas as ocasiões seja para casamento seja para enterro. Aparece sem avisar. Chega chegando. Convoca o pessoal da casa basicamente para três coisas: jogo de cartas, preparo de comidas e muito papo, sendo que este rola recheado de pitorescas situações, para não dizer doces mentiras. Outro dia, adentrou o apartamento de Alice com um polvo pelos dedos, mais vivo do que morto. Lançou-o sobre a pia da cozinha e falou:

- Mais tarde, trataremos deste aqui, enfiando o dedo indicador na carne do molusco. Fazê-lo é minha especialidade!

Bem, outros personagens caberiam na história, assim como poderia tecer tramas paralelas envolvendo as pessoas já citadas, mas pecaria pelo cansaço em pontuar ações e reações do dia a dia. Penso que dei a amostra do tema que queria abordar. Está resolvida a questão!

Gente, tudo isto é sonho. Doideira. Mas faz um bem danado! Dessa forma, uso de escapismo, em alguns momentos do meu dia atribulado, para ser gentil comigo mesmo, na tentativa sadia de misturar a dureza da realidade com o bem-bom do sonho. Trata-se do pilates dos pensamentos, a reviravolta do perfeitamente real em prol da fantasia. Para nos ajudar, Fernando Pessoa deu o recado: “O homem é do tamanho do seu sonho”. Claro, que ele comparava o sonho, naquela sua época, com o que se quer conquistar. Mas mesmo assim, vale o conselho do poeta, aqui na nossa conversa.

Agora, deixo a minha dica: sonhe. Bastante! Tudo é possível na imaginação. Não se avexe, não. Tudo se passará com você mesmo, com os seus botões, no fundo da alma.

Alfredo Domingos
(consulta ao texto "As vantagens de sonhar acordado", de Claudia Hammond, da BBC Future)

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Passeio por Minas e pela arte


Na andança por cidades interioranas de Minas Gerais, após breve passagem por Belo Horizonte, fui bater com os costados em Tiradentes. A cidade é encantadora! Cheira a história, a boa conspiração, a liberdade e a terra. O ar é ferrífero! Trata-se de um permanente entorpecer por parte da natureza. Ela não nos dá sossego. Que bom!

Um aspecto de destaque é a arte. Há ambiente e inspiração para qualquer coisa e mais um pouco. Foquemos, porém, nas artes plásticas. Dessa maneira, no ir e vir e no sobe e desce das ruas, cheguei ao atelier do artista e arquiteto brasileiro Sérgio Ramos, na Rua da Câmara, 83, fácil de encontrar, em pleno centro histórico de Tiradentes.

O local é aconchegante, a começar pela excelente hospitalidade, em uma agradabilíssima casa antiga, mas não velha.

Resumindo a arte de Sérgio Ramos, ele introduz em suas obras inúmeros elementos, sem dó nem piedade, como verificamos no quadro acima, A CRAVIOLA, de 2012. Encontramos, evidentemente, em destaque, uma vistosa craviola, rodeada por peixes, casas, pássaros, galhos de planta, escada, bandeirinhas e um possante gramofone, este dos tempos da vovó.

A multiplicidade de cores é espantosa e, ao mesmo tempo, perfeitamente harmônica, sem choque na estética.

Por outro lado, as formas dão show de bola! Curvas e retas brincam, num ótimo entrosamento, desafiando a boa percepção, porém, oferecendo chance ao entendimento.    Imaginemos a música invadindo o resto das coisas, por meio deste instrumento de cordas projetado pelo compositor brasileiro Paulinho Nogueira. Mas ao final da observação, o espírito fica sossegado e maravilhado. Não é que a composição plástica deu certo!

A obra em pauta, vamos e venhamos, inibe qualquer ambiente. Domina o cenário, justificando a crença popular de que beleza põe mesa e parede, sim, senhor!

Finalmente, é para registrar que Sérgio Ramos abriga no currículo mais de cinquenta exposições, com vinte e cinco anos de atividade artística, tendo como mote a sua seguinte expressão: “Gosto do desenho, de contar uma história, de criar algo positivo por meio da pintura”.

Alfredo Domingos

Ficha Técnica:
Dimensões da tela: 120x80 cm
Técnica: tinta acrílica sobre tela
Fontes da pesquisa e da imagem: http://pt.wikipedia.org/wiki/Craviola e material promocional do artista
Observação: a craviola é construída pela fábrica Giannini. Possui o formato parecido com o do violão, e sua sonoridade recebe influência do instrumento cravo misturada com a viola, característica que deu origem ao nome.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Em minhas mãos

Na loja de soutien, durante a espera, veio à cabeça de imediato ter os seus seios em minhas mãos.

Descarto a peça para ficar com a alma, com o desejo da alma.

Livre para ter você, minha querida. Sair do sério. Gritar de alegria. Abrir a janela para a vida. Tomar o vento das boas novas, que só o bem-querer proporciona.

Rir, melhor ainda, gargalhar! Até a cabeça virar para trás. Ficar bobão.

Agarrar vc pelos braços, firme. Sentir o tremer. Encarar. Testa com testa. Provar as lágrimas dos dois. Quentura. Rodopiar de amor.

Beijos. Abraços apertados. Derrubar na cama. Acarinhar. Correr o dedo. Alisar o cabelo.

Corpos grudados. Falar baixinho, tão baixo quanto gemer. Todas as coisas. Da saudade. Da distância inclemente. Da vontade.

Morder a ponta da orelha. Os lábios. Beijos.

Acariciar o rosto molhado. Enxergar pelos seus olhos azuis, quase um oceano. Mergulhar neles. Lembrar-me de que vinham aos meus sonhos, insistentemente. Porém, tão distantes. Angústia.

Então, de repente, ali, proximamente. Meu Deus, que maravilha!

Suas pernas maravilhosas, pra enroscar. Pé com pé, vc comigo. Respiração descontrolada. Barrigas dando entre si. Seios em mim. Resistir para o quê?

Aproveitar. Fazer. Tratar. Dar. Receber!

Alfredo Domingos

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O Velho Marinheiro

Persiste a antiga amizade entre mim e Zoroastro, um velho marinheiro, de extensa sabedoria. Pernambucano, que com dezessete anos fugiu de casa para “servir” à Marinha, é dono de incontáveis histórias. Umas reais outras inventadas, mas todas interessantes.

Primeiro, é salutar atentar para o termo “servir”, pronunciado constantemente pelo marujo, que infelizmente está em desuso, démodé.

As pessoas atualmente “usam” os outros ou as instituições, porém, raramente servem a alguém, com desprendimento. As amizades, via de regra, são baseadas em produzir ganhos, de toda ordem.

Zoroastro veio do Nordeste, com poucos recursos, munido do intento de pertencer à Marinha de Guerra. Conseguiu. De aprendiz, oriundo da Escola de Santa Catarina, após ir parar no Sul, deslocando-se do calor para o frio, chegou a suboficial, cumprindo bela carreira, tendo passado por vários navios e organizações de terra.

Acaboclado, forte de corpo, fumante de indefectível cachimbo, como verdadeiro “lobo do mar”, faz fisionomia de pensador e profere acertadas impressões, advindas da longa experiência, curtindo a condição de encontrar-se na reserva da Força. Afinal, com três casamentos nas costas e quatros filhos, além da vida marinheira agitada, possui conteúdo para dar e vender.

Nos encontros no bar do “Bigode”, na esquina lá da rua, muita coisa é posta na mesa, junto com a cerveja e a batatinha calabresa, especialidade da casa.

No ir e vir do papo, num fim de semana morno, “Zorô” quebrou a monotonia com um pensamento arrasador. Disse-me assim:
- Camarada, que você me perdoe, mas estive pensando, cá com os meus botões, e cheguei a uma conclusão.

Nisso, fez pausa, deu uma golada na cerveja, deixando o copo pela metade.

Pigarreou e continuou:
- Vou logo ao assunto. A vida da gente transcorre igualzinha a de um navio.
- Explico:
- Quando se morre, fica tudo pra trás. Acabou-se! Aquilo que pensávamos ser nosso, no que tínhamos amor, já era! Foi! As mulheres. Os filhos. As dívidas. As tranqueiras com que entulhávamos os armários. Os livros estimados. As cachaças que bebemos. Até as minhas medalhas. Acabaram-se!
- Com o navio é o mesmo. No momento da partida, de suspender de um porto para outro, quando as espias (os cabos que prendem o barco) são retiradas do cais, o cordão umbilical atado à vida comum é cortado. Passamos a viver o mundo somente de bordo. Com os chefes e companheiros. Está me entendendo? Não há imbróglio que siga mar adentro, como a sogra pra aturar, os filhos pra educar, as contas pra pagar, o proprietário do apê pra aporrinhar, etc. e tal. Sem falar nas madames, que por um tempo descansam de nós, e o mesmo ocorre conosco, em relação a elas.
- Faço a comparação das duas situações, nem sei se cabe, mas sinto assim. As duas coisas produzem um corte violento. Uma acaba com qualquer projeção e a outra liquida as pendências de terra, ao menos temporariamente. Ficamos aliviados por um período. 

De novo, uma golada de cerveja. Copo vazio.

- A única compensação é que no navio estamos vivos e ao voltar a casa é uma festa só! E prosseguimos, inclusive com os aborrecimentos! Porém, amigo, temos uma certeza: estamos aqui, firmes, de marré deci. Graças ao Divino!
- “Bigode”, mais uma “cerva”. Esta já deu!
- Ah, entendi! – complementei.

Alfredo Domingos

Mulher-interjeição



Aprendi, lá atrás, sobre a interjeição. A gramática diz que se trata de expressão apresentadora do nosso estado emotivo. Reação pura, sem rascunho. Não está inserida nas classificações clássicas das palavras. É um vocábulo-frase. Seja ela de admiração, dor, impaciência, espanto, dúvida, alívio ou outra reação qualquer. Pode ser representada por um tico de palavra ou por duas ou mais palavras.

O maneiro é que a interjeição exprime muito com pouco recheio. Por si é uma verdadeira oração. Vai direto ao tema sem delonga. O interlocutor ou leitor capta de imediato a mensagem, mesmo que o motivo tenha sido extenso e complicado.

A nossa secretária na cozinha da fazenda usava “Opa!” pra tudo. Era assim:
- A comida está pronta, Arminda? Aí vinha a resposta: - Opa!
- Que calor está fazendo, hein, Arminda? De novo: - Opa!
- Vou ao comércio, precisa de alguma coisa, Arminda? Nesse caso a contrapartida era diferente: - Opa! Tenho de ver.

Bom, já deu para acreditar que a reação era da mesma maneira, todo o tempo.

Mas, na realidade, esta história da interjeição tem outra motivação. Quero conduzir o barco a outro porto.

Viro e mexo, acabo reportando-me a Violeta Bacamarte, reconheço. Nesse contexto, lembro-me dela de cabeça baixa na máquina de costura ou conduzindo a agulha, sentada no sofá, ao largo da passagem do furacão, que é uma casa, à noite, com cinco pessoas que têm interesses e personalidades diversas.

A criatura é ensimesmada ao extremo. Calada, até quando não deveria. Afirma que consegue sucesso dizendo nada. Melhor do que meter o bedelho.

É daquele tipo que dá uma boiada para não se intrometer em confusão. Relega, positivamente, a entrada em qualquer querela.

Não se trata de ser desprovida de opinião, não. A preferência é pela posição de ouvir muito mais do que falar. Costurar com as palavras não é do seu figurino, muito menos tecer colchas de “disse me disse”. Isso ela deixa para o companheiro, Túlio Bacamarte, que este, sim, é palavrista de primeira hora, nosso escrevinhador, que trazemos no bolso para deleite em vã ocasião; apaixonado contumaz por um pedacinho de papel, de modo a versejar, ou por uma conversa sem pressa para terminar.

Voltando à interjeição, pois chega de tergiversar, Violeta é chamada pelo marido de “mulher-interjeição”. O enredo toma corpo a partir da troça do parceiro.

Chega o poeta em casa, ansioso para deitar falação, encontrar eco, obter parceria, contar sua façanha diária, e encontra, invariavelmente, a mulher debruçada sobre a costura, concentrada, produzindo maravilhas.

Ele agarra a palavra e não solta. Desfiando, com detalhes, a meada em que esteve enrolado ao longo do dia.

De quando em vez, pergunta: - Está entendendo? – O que você acha? – Fiz bem?
A resposta não sai do padrão, mudando apenas a forma de expressá-la.

Ora Violeta responde com suspeita “hum!”, ora alivia-se deixando escapar um “eh!”, mais adiante traduz admiração usando um “ah!”, também se socorre do “tomara!”, para indicar um desejo, e, já no final do diálogo, que foi praticamente inexistente, arremata com uma locução interjetiva, ao defender-se da acusação de que não está participando “ai de mim!”. Mas cá pra nós, na maioria das vezes, emite um conciso “hum!”, que resume tudo e não compromete.

Túlio não se emenda! Sempre reclama de Violeta, mesmo sabendo ser a companheira de poucas palavras. Até porque, ela argumenta que, falando, reduz a possibilidade de errar ou de ser mal interpretada. O jeito particular não significa desprezo. Na verdade, o bom andamento da costura depende de atenção redobrada, para que não haja erro no traçado da linha e na construção da arte, além de ser o SEU MOMENTO, restritíssimo.

Cada um com o seu modo de proceder. Por exemplo, Túlio faz o seu vaivém noturno, em casa, agarrado no radinho, para saber das últimas que estão no ar, principalmente no campo do esporte. Talvez o som incomode. “Psiu!” Não espalhe, OK?

Alfredo Domingos
(o autor apresenta as interjeições, destacadas pelas aspas, valendo-se de um texto)

Admirável São Francisco Nosso!

 
Fonte da imagem: www.franciscanos.org.br
Obra de Nelson Porto, pintor brasileiro (1950-1989).

As cores principais são telúricas, exceto a maçã vermelha, que representa o pecado, a perdição, fazendo o contraste.

Árvores e flores reduzidas no tamanho para apenas adornarem, sem marcar o conjunto.

Montanhas. Talvez de Minas. Talvez significando as dificuldades da vida. Os altos e baixos.

Casinhas modestas, como o nosso povo. Posicionadas ao fundo, distantes no acesso e no sonho de termos um teto.

São Francisco! Simples. Pés ao chão. Batina também da cor da terra. Alto. Figura quase centralizada, marcante. Um divisor da natureza, tendo as casas e as terras sob si.

Um elemento em destaque: a sua cabeça. Em forma de coração! Amor para todos! Cabelo e barba fazendo o contorno.

A pomba gigante. Linda! A paz está com ela e por meio dela para aproveitarmos. Belo simbolismo! Parece ser tocada pelo Santo, levemente.

E a visão através da janela, indicada pelo arco desenhado acima. A poesia a distância. Observada. 

Oração do Santo para ajudar a pensar. Fazer sentido, nem que seja com alguns trechos:
- as trevas virarem luz;
- a ofensa virar perdão;
- o ódio tornar-se amor;
- amar para ser amado;
- dar para receber; e
- buscar a vida eterna, mesmo sendo após a morte.

A concepção da arte não encerra o sonho do pintor-poeta. A janela está aberta para a reflexão sobre dois sentimentos básicos: o perdão e o amor (ambos constantes da Oração).

A PAZ encimando tudo, imensa na caracterização, usando o símbolo bíblico que é a POMBA, num único rasgo de cor branca dentro de um marrom praticamente total, sombrio.

Pensemos, então, na força da irmandade pregada por São Francisco. E mais que pensar, pratiquemo-la.

Alfredo Domingos

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Momento de reflexão



(o pingar constante de uma torneira dilacera os nervos)
(atua aos poucos e repetidamente)

“No Brasil, o que nos assola não é o grande mal. O perigo aqui é o pequeno mal. O mal está no mínimo.”

Este texto fez parte do excelente artigo de Arnaldo Jabor, no O Globo, Segundo Caderno, de seis de setembro de 2016.

Impressionei-me pela boa concepção do texto, porém, principalmente, pela escolha oportuna do momento para tratar do assunto. O cerne da escrita ocorre em tempos turbulentos, mesmo depois da solução da questão do impeachment da ex-presidente Dilma. Tempos esses esperados para voltarmos à calmaria política, o que nos levaria a certa paz para a economia entrar nos eixos e para resolver problemas emergenciais.

Mas, o tema de Jabor faz um alerta. Sinaliza para problema nas entranhas, que corrói o íntimo da sociedade, em todos os seus empreendimentos, de forma quase despercebida, embora feroz.

Estamos no reinado da picuinha, da implicância intermitente, da desilusão a cada esquina, da euforia superficial, de hora pra outra, do questionamento sem resposta, do encurralamento, do é assim e pronto!
Perguntamos inocentes, desavisados: - Cadê a lei? Qual o decreto? Onde está o respaldo?

Não há nada sobre isso. As tratativas são nas sombras, como é moda dizer. Entre uma caçada e outra ao Pokémon. Às escondidas! Mesmo que se trate de assunto votado no Congresso, a sua deliberação baseia-se num estalar de dedos, no que é chamado de fura-pauta.

O rumor é ferramenta dos bobos. O ladino esgueira-se. Consegue sucesso dos intentos sem alarido. O incompetente e inocente grita, esbraveja, arma barraco, uso o destempero. O sabido é polido. Lança mão de artimanhas. Fala ao pé do ouvido. Tapa a boca para que as palavras não sejam percebidas pela leitura labial.

Daí, todos ficam sabendo somente quando a bomba estoura. Porque a ideia matreira saiu da bolação de poucos. Então, funciona assim: o que prejudica ou favorece a maioria é decidido pela minoria? Respondo: - Exatamente!

O bullying bem representa essa ação sub-reptícia, pelos escaninhos, ressaltando a audácia de zombar em equipe, com o amparo de muitos, e notadamente usando da insistência, num processo desenvolvido rotineiramente, e em todos os momentos.

Não aparece na execução do bullying um único articulador, que assuma sozinho a autoria. Há sempre um bando, para que a responsabilidade seja diluída e a graça surja, provocando o divertimento geral; excetuando-se o atingido, claro!

A malvadeza está em esgotar o ofendido, aos poucos, persistentemente. Por isso, às vezes, vemos tragédias decorrentes, envolvendo abandono de colégio, sumiço de casa e outras coisas até mais violentas.
Voltando ao Jabor, entendo que as grandes desventuras são raras. O mal terrível surge de vez em quando, e vem arrasador. O mínimo, como ele diz, é que come como traça, infiltra-se, abre fendas, e nos desespera ao final do percurso, constantemente.

A loucura está no pequeno, que se torna gigante pela insistência e pela assiduidade. Não se acaba com um tabefe, um peteleco. Isso não basta! É necessário usar os mesmos métodos. Com esperteza. No silêncio. Sorrindo, se puder. Cerque, encurrale, fatie e extermine!

Alfredo Domingos