sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Como será o daqui a pouco?

O ELEVADOR PAROU. QUE COISA!

Estou sozinho aqui. Não sei se é bom ou ruim. Ao menos, não há gente chata para reclamar, aumentar a aflição. Mas quem sabe fosse bom ter alguém para melhorar o astral? Contar piada. Poderia ser.

Acionei o alarme e a emergência. Todos os botões disponíveis foram apertados. Nada. Esta praga não se move. Ainda bem que não colocaram espelho. Já pensou me ver assim assustado? Encarando-me de frente.
Tentei puxar a porta pantográfica. Nada. Está emperrada. Tudo age contra, nestas situações. Pode ser medida de segurança.

Fim de dia. Pessoas saindo do edifício, que é comercial. Salas e salas. Amontoado de gente indo para não sei aonde, ou ficando para o quê?

Inventei de voltar e apanhar esta pasta para, talvez, olhar o processo no fim de semana. Nem sei se dará tempo. Fazemos besteiras para resultado algum.

Pior, estava em plena rua, livre. E agora, por causa da pasta, estou preso aqui dentro. Deu no que deu. Que babaquice.

Maldita pasta.

No Exército, diziam que soldado no quartel, fora do expediente, quer faxina ou cadeia. Então, que faço aqui? Idiota.

Esmurrar a porta não está resolvendo. Vou desabar. Sentar no chão. Cansei.

Para piorar, a luz apagou.

Contar carneirinhos não é agradável. O sono não virá, de jeito maneira. Acalmará? Acho que não.

Cantar não emplaca. A voz não sai. Também, não sou bom de canto. Minha mãe adjetivava como péssimo.

Não consigo enxergar que horas são. O mostrador do relógio está no escuro. Um dia, haverá relógio com a hora informada diretamente, minuto a minuto, sem ponteiros, e poderá conter luminosidade. Será o máximo.

Faz uma hora ou mais que estou nesta furada.

Deus do céu.

Poderia escrever. Me amarro. Mas como? Cadê a luz? Caneta e papel até tenho.

O porteiro estava na entrada quando voltei. Não observou que não desci?

Não.

Chegou a dar um boa-noite com aquela voz rouca de sempre.

SOCORRO. SOCORRO.

Lembrei-me de gritar. Em vão.

Agora, calculo que tenha passado mais uma hora. O tempo é um mistério. Quando você não quer que passe, ele voa. Quando espera rapidez, ele se arrasta como o quê. Qual o tempo que o tempo tem?

Sei lá. É assunto cavernoso. Na garotice, gostava de estalar o dedo. Tick. Para tudo. Devia ser ansiedade. Falava: “Fulana, faça isso” - Tick. Marcava ritmo.

Estou impressionado de não receber sinal de vida. Uma alma boa para me socorrer.

SOCORRO. SOCORRO.

Maldita pasta.

Começo a pensar que ficarei o fim de semana inteiro aqui. Hoje é sexta. Loucura.

Vou acabar sujando as calças. Estou apertado. Trata-se do tipo 2.
Vou arrancar esta gravata. Não havia sacado que ainda estava de colarinho fechado e gravata. Nas situações de pânico, a gente fica apalermado ou excessivamente ativo, descontrolado. Se estivesse com algum incômodo no corpo, algo me espetando, não daria conta. O perigo maior centraliza a atenção.

O paletó, antes, tinha ido para o chão. Livrei-me logo do estorvo.

Maldita pasta.

Tenho vontade de abri-la e picar tudo do seu interior. De raiva. O que sobrar, lanço no lixo. Ela, inclusive. Com casca e tudo.

Malvina ficou de encontrar-me lá em casa. Bem que poderia dar falta cá do degas e vir me salvar. Não sei de qual jeito, mas poderia.

Mulher sabe criar na necessidade. E ela é danada para fazer isso. Costuma, à toa, tirar coelho da cartola. Solucionar. Gosto da conduta despachada.

Certamente, ao saber, dará uma daquelas suas broncas. Faz parte do cenário. Mãos nas cadeiras, nariz apontado para cima, cara vermelha e língua afiada. Adora mandar coisas do tipo: o quê você foi fazer lá, hein?

Ela anda estranha. Impaciente. Mais reclamona do que o normal. Só aparece nos fins de semana.

Será que estou com os dias contados? Acabará me detonando. Não saberei dizer o porquê. Espero que ela diga. Continuo o mesmo. Acho...

São cinco anos e tal de namoro. Cada um na sua casa. Ela mora com a irmã, uma chata de galocha. E eu tenho meu cachorro velho, Mr. Magoo. Cheio de manias. Igualzinho ao dono. Confesso.

Atualmente, tanta distância entre nós. Quer saber? A relação está cansada.

A Beth esteve me provocando. Fazendo-se de gostosa. Quase capitulei. Mas evitei confusão. Sou fiel. As duas se conhecem da academia. Tinha tudo para dar zebra. Cortei.

Eu preciso, ainda hoje, passar na casa da minha mãe. Estava me esquecendo. Dependendo da hora de este aborrecimento terminar, irei. Sem deixar de, primeiro, apanhar a “Vina”. Se eu bobear, ela estará desmaiada na cama, dormindo. Não vou dar bola. Farei com que levante para me acompanhar. Afinal, é sexta-feira. Dia de arejar.

Meu Deus. Continuo aqui.

SOCORRO. SOCORRO.

Vi que não adianta gritar. O prédio tem mais dois elevadores. Não estão sentindo a falta deste. Incrível.

No meu escritório, não deve ter ficado um puto. Quando voltei, somente o Barbosão estava.

Burro. Mil vezes burro, o que sou.

Lamentar não resolve. A encrenca está consumada. Daqui para frente, somente aceitarei trabalhar no térreo. Gato escaldado... Vou me virar para conseguir novo endereço.

Continuo na maldição. Calor. Breu. Prisão. Até que estou suportando.
No futuro, inventarão um telefone portátil. Sem ligação fixa. Para usar em qualquer lugar. Servirá para estas situações. Ou para as boas novas. Proibirão papo demorado – fofoca longa. Não será essa a finalidade.

Êpa. Êpa. Nossa.

Nossa.
.
.
.
.
.

Uma parte despencou.

Agarro-me numa lateral de madeira.  Feito gato.

Não acredito. A cabine está pendurada por um lado, apenas. Começo a pressentir o fim. Triste fim. Ao menos, virarei manchete, amanhã. O “Diário de Notícias” estampará na página de rosto:

“ADVOGADO MORRE PRESO NO ELEVADOR”

DELEGADO DO CASO ADMITE CRIME. HÁ TESTEMUNHAS DE QUE O ACUSADO DE ROUBO NO BANCO DO BRASIL, AGÊNCIA COPACABANA, HÁ OITO MESES, TERIA JURADO VINGANÇA PELA CONDENAÇÃO.


SOCORRO. SOCORRO.

Maldita pasta.

SOCORRO. SOCORRO.

Vou morrer agarrado nela – bem feito. O feitiço pegou o feiticeiro.

Hê-hê. Se soltou. Meu Deus. Está caindo.

Gente, estou livre.

Livre pra Morrer.

Faíscas. Barulho.

Enquanto tiver consciência,

acompanharei a minha morte.

Será que apagarei antes do choque final?

Dizem que o coração pifa nestas horas,

não suportando a iminência da tragédia.

Cadê a pasta?

Não sinto.

Não ouço.

Não vejo.

Cadê eu?

?

.

Alfredo Domingos
(obs.: o texto não pede exclamações de alegria, na pontuação)

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Nosso grupo

As pessoas formam grupos dos mais variados temas: vinho, azeite, costura, baralho, música, leitura e outros.

O nosso é grupo de pilates. Isso! Conjunto de exercícios criado por Joseph Pilates, alemão, depois radicado nos EUA, que resumidamente trabalha a flexibilidade do corpo, o seu condicionamento, em sincronismo com técnicas respiratórias.

Muito bem! Os grupos da academia cumprem horários e o mínimo de regras. O nosso, em particular, frequenta às terças e quintas-feiras, no horário noturno.

As aulas ou sessões correm em estúdio apropriado, sob a condução da professora “Lidia”.

A grande virtude é que além da atividade física, o entrosamento dos participantes, no relacionamento, é total. Praticamente, realizamos terapia para salvar as nossas atribulações e dúvidas, ademais para serenar o espírito. O corre-corre da vida, ali naquele espaço, dá vaga à harmonia. Cede vez às boas conversas e às gostosas gargalhadas.

Os desavisados podem pensar:
- Gente, qual a loucura desse pessoal, que vai cuidar do físico e acaba entrando em estado de descontração, fazendo higiene mental, delirando nos papos de todo gênero, formando um verdadeiro grupo, além do “WhatsApp”?
E criam mais caraminholas, ao perguntarem:
- A professora não controla a situação?
A resposta às perguntas é simples, e pode ser única:
- O quê? Ela diverte-se mais dos que os alunos, e dá força ao bom convívio - risos!

Na essência, Lidia sabe que o rendimento dos exercícios fica facilitado, não havendo perda de produtividade nem de foco. A alegria aproxima as pessoas, forma ambiente saudável.

No quesito comilança, em algumas ocasiões especiais, suculento cachorro-quente é servido, contendo molho pra lá de especial, segredo de família de uma das colegas. Contudo, ultimamente, houve um incremento nas atividades extracurriculares. Estão sendo servidos lanches, de iniciativa dos alunos, no início das aulas. Se me faço entender, o que deveria ser “fitness” está virando gordice!

Mas todo mundo está curtindo a nova versão da comida! Virou, inclusive, oportunidade para testar receitas. Alguns defendem, marotamente, que é incentivo para maior esforço na prática dos exercícios. Será?!

Está na hora de dar uma palinha, amostra, sobre os “loucos” dos alunos (a professora foi poupada, primeiro pela hierarquia de chefiar a tropa, e, segundo, em função de estar infinitamente à espera do conde italiano, para marido, que, até agora, não apareceu...). Sim, por que não escapa ninguém das situações pitorescas, ao menos, no nosso horário de aula.

Sem nomear as “feras”, vamos relatando algumas passagens engraçadas ou inusitadas, para exemplificar:
Uma companheira caiu do cavalo, ao subir num equipamento, que mais parece um touro mecânico, de nome “barril”. Após ter acessado por meio de um banquinho, não o alcançou e foi ao chão, de bumbum. Sem que pudesse ser feito algo antecipadamente para evitar. Foi aquela dor!

A outra ri de tudo, acha uma graça... Gargalha tanto, que fica vermelha, sente falta de ar e acaba com dor na barriga, mas mesmo com os acessos de riso é solidária, fazendo várias gentilezas. A gente acha graça da risada dela.

Há um cara, nos seus sessenta anos, meio estabanado, que se torna engraçado ao contar histórias, dando apelidos e zoando os outros alunos. Atua em parceria com a professora, sem prévia combinação, criando momentos alegres, motivando a aula.

Integra, igualmente, o grupo a mulher que de tudo quer saber: - por que assim ou assado? Mas como isto? Para o quê? Cadê o fulano, que está sumido? E vai desse jeito à exaustão, indagando sem parar. É a própria mulher-dúvida – risos!

Faz parte da turma, também, aquela que muda o “layout” da aparência com frequência, ficando quase identificável, ensejando surpresa a cada chegada na aula. As alterações variam na cor e no corte de cabelo. Mas cá pra nós, ela consegue acertar no quesito juventude. Muda para melhor.

Por último, lembramos da amiga que, mesmo fora do seu dia de aula, cumpre rotina de comparecer à academia para realizar “nobre missão”: surge, indefectivelmente, no salão dos exercícios, de passinho curto e fisionomia de traquinas, trazendo nas mãos estendidas um pratinho, cuidadosamente coberto, como se algo precioso estivesse ali. O “presente” é bem-vindo, mas a balança acaba acusando aumento de peso, se cair dentro. Houve vez, de ela alegar que trouxe alimento “light”, para a professora. Tratava-se de sopa de legumes. Até aí, ia bem! Porém, com entusiasmo e bem-querença, complementou que o alimento estava ótimo, “levinho”, sem mal a causar, uma vez que fora preparado no caldo da rabada, que fizera, preocupando-se em dar toda a sustância. Meu Deus! A gordura tomou conta!

Mas nem tudo é satisfação! Vamos parar para reconhecer.

Dois desastres aconteceram que deixaram marcas de horror nos participantes.

Por partes, é a melhor forma de relatar.

O primeiro trouxe tremendo pânico, digo, até, que espalhou terror.

Em plena aula, que fluía num ritmo de concentração e de bom desempenho, mais que de repente, uma tremenda barata atravessou a sala do pilates. Cascuda. Grande. Nojenta. Com se estivesse passeando pelo calçadão de Copacabana. Não andava. Desfilava. Irque!!!

Daí, houve gritaria geral. A luz até piscou. Teve gente parando de correr somente na calçada. Fora aqueles que subiram nos equipamentos, em desespero.

O segundo desastre, felizmente, não atingiu com lesões a praticante algum. Poderia ter sido muito pior!

Numa sexta-feira. Fim de atividade. Última turma do dia. Poucos elementos. Estando o pessoal cansado pela dura semana. Acredite se quiser, o que era um pequeno estalo virou uma barulhada. Não houve quem entendesse de pronto. Surpresa.

Grande parte do teto de gesso da sala desabou, do nada. Restou sorte a quem ali estava, pois como eram poucos, o uso compreendia área restrita da sala, durante um exercício de solo.

Contadas algumas peripécias, vale ressaltar que em qualquer grupo o que deve prevalecer é a união. Quando destaco a união, sintetizando, refiro-me ao respeito, à amizade e ao entendimento. Esta é a base de qualquer atividade, ainda mais quando se mexe com o corpo, já combalido pelo lufa-lufa do dia inteiro, trazendo no seu interior problemas, desilusões, cansaço, trânsito ruim, etc.

Mas fica o recado, apesar das dificuldades, mexa-se!

À professora tudo! Então, como é que é?... Lidia, receba de todos nós a gratidão. Continue cuidando dessa gente. Louca gente!

Alfredo Domingos

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Perdida, até certo ponto

Coisas que eu sei. Luisinha é doida. Só pode ser. Valha-me Deus!

Vivo atrás dela, pagando o maior mico. Já me declarei. Abri o coração. Pintei o sete. Não entendo o jeito dela. Não consigo conquistá-la de vez. Pra ficar direto e direito. Ter uma continuidade no relacionamento, com pé e cabeça nos lugares.

Às vezes, escreve quinze minutos ou mais de mensagem no WhatsApp. Desmanchando-se de bem-querer. Então, eu me animo, e digo:
- Vou aí, correndo.
Em resposta:
- Não, agora, não. Tenho um mundão de coisas a fazer.
Pronto, esfria tudo!
Passam-se os dias, ela retorna:
- Querido, você está podendo?
Pelo “zap”, também, respondo:
- Sim, amorzinho.
Veio a contrapartida:
- Foi somente para saber...
Desabafei comigo:
- Maluca! Pô!

Outra vez, depois de um tempão sumida, deixou recado:
- Desculpe-me pela ausência. Os dias são tão corridos (pensei que fosse escrever “os dias eram assim” – deixa pra lá!).
- Não tenho tempo de nada!
Em seguida, relacionou todas as tarefas, até quando escovou os dentes.
Parei. Pensei. E meti esta:
- Criatura, você não visita o vaso sanitário? Caso sim, leve o celular para o banheiro e escreva, ao menos, “oi!” – acho que dá tempo, enquanto se alivia. Ora, bolas!

Lucubro, seriamente, que a prioridade dela em relação a mim está baixa, muito baixa. Minha posição é a última da fila, com certeza! Intuo que ela anda perdida, até certo ponto.

Depois, arrumou a seguinte história:

- Ultimamente, um sedan vermelho ronda a minha casa. Estranho e engraçado, ao mesmo tempo, pois parece com o seu carro.

- Luisinha, “meu bem”, sou eu mesmo! Se você notou, por que não me perguntou sobre a estranheza nem foi atrás, acenando, pulando, sei mais o quê?

Claro, diante da dificuldade de aproximação, decidi mostrar presença! Na volta do trabalho, passava pela porta dela. Tentava despertar mais interesse. Buscar um encontro extra, uma surpresa, uma dúvida, motivos para incrementar o que está fraco. Chamei a atenção, sim, mas ficou nisso, sem reação.

Mas há esperança, penso. Avalio que deve haver, no mínimo, um “sabor” na nossa relação. Relação esta distante. Não posso afirmar que existe AMOR – seria forte. “Quem ama cuida”, diz a música, o que não ocorre, e me deixa triste, confesso.

Esta “largueza”, que nos acompanha, e não o “grude”, instiga-me a continuar batalhando pelo nosso pseudorrelacionamento, querendo estreitar a distância, inventando-me a cada momento. Imagino ser salutar, não? Ou é sofrido?
Deixo no ar, para pensarmos.

Porém, para complementar as ideias, surge o momento de revelar um drama que deve contribuir para este “vai não vai” de Luisinha. O passo à frente e o imediato recuo que frequentemente ela cumpre.

Há alguns anos, quando não a conhecia, ela estava pronta para casar. Refiro-me ao próprio dia do casório.

Foi ao salão preparar-se para a cerimônia. Durante os preparativos, caiu “aquela” chuva na cidade, de inundar tudo. Quando foi pegar o carro para voltar, a rua estava cheia, intransitável. Mas impulsiva como é, mandou o motorista avançar. Mais adiante, o carro enguiçou por causa da água. De repente, ela viu-se em pé na rua alagada, na lamentável situação: maquiada, penteada e de véu. Ah, e sem os sapatos! Em segundos, ficou toda molhada, com tudo aquilo que levou horas para ser feito desmanchando-se, escorrendo pelo rosto, e o véu, embora curto, murcho, despencado.

Conseguiu, no entanto, chegar a casa. Destroçada, mas firme.

Apressadamente, reverteu a coisa. Arrumou-se com o vestido que não esteve na chuva, desprezou o véu arrasado, recuperou, ela mesma, a maquiagem e o cabelo, e largou-se a enfrentar novamente a água. Havia de triunfar, depois de tanta determinação diante da amolação.

Conseguiu, finalmente, chegar salva à igreja.

Mas faltava o noivo.

Resultado: ele não chegou. Não apareceu o tal de Fernando. No seu carro, a caminho do casamento, também na enchente, não pôde evitar cair no rio Jaguarão, dentro do veículo. Acharam-no, rio abaixo, ainda com o cravo branco na lapela do paletó de noivo.

Que má sorte dos dois (mais a dele, aliás!). Chuva assassina!

Provavelmente, Luisinha carrega o peso da tragédia, como um freio, travando a sua decisão de envolver-se definitivamente com alguém. Está de permanente quarentena, ressabiada. Passa essa impressão!

E eu sinto as consequências.

Aqui comigo, crio a esperança de que as coisas têm um tempo e o tempo, do mundo, resolve, obviamente com a nossa intermediação. Precisamos ajudar o acaso ou as circunstâncias. Mas vamos e venhamos, dois anos é um tempo excessivo para indecisões. Urge que o pacote seja fechado. Com solução favorável ou não.

Sonhar não custa nada, mas esperar sem limite custa, e como! O coração baqueia.

Passei a entender que cabe a mim forçar o desfecho da dúvida. Dar rumo. Para um lado ou outro. Necessito desadaptar-me do vazio, da pasmaceira. Desagonizar!

Alfredo Domingos

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Cinderela urbana

Fonte da imagem: foto do autor (17/5/2017)

Desci do vagão do metrô, afobado, andando acelerado, na direção da rua. Estação Uruguaiana, no Centro do Rio. Manhã sob nuvens e vento frio circulando.

O trabalho aguardava-me com um repertório extenso de tarefas. 

No início da escada rolante, constatei que ela estava parada. Não sabia do que se tratava. Um transtorno a mais, apenas. Pus-me a subir os incontáveis degraus. De certa forma despreocupado, considerando que fora obra do acaso.

No topo da escada, no entanto, fiquei surpreso ao verificar o exato motivo da paralisação do meio de acesso.

Como a imagem acima expõe, o “pomo da discórdia” era um sapato de salto, de elegante confecção, que, por descuido ou outro motivo mais grave, ficou preso na plataforma superior da escada rolante.
 
A dona do objeto, a protagonista da cena, que roubava esta posição do sapato, era moça de trinta e poucos anos, de cabelos longos e alourados. Trajava conjunto de saia e blazer, ambos em cor pastel, blusa branca discreta, meias finas compridas, um lenço de tom róseo, de seda, envolvendo o pescoço, e, completando, a bela figura, diga-se de passagem, trazia uma pasta preta, que induzia a pensarmos que havia um laptop no seu interior, o que é equipamento que oferece “status”, mesmo nos dias atuais, nos quais as redes comerciais oferecem o material a preços acessíveis, em parcelas generosas e a longo prazo. A descrição fundamenta a condição observada por mim de que se tratava de gente de bem, que certamente se tornou vítima de um infortúnio profundamente desagradável, cujas consequências jamais foram pensadas. 

Anote-se que a fila dos passantes, com aqueles que não conseguiram galgar a escadaria, era enorme, já fazendo burburinho em sinal de reclamação pela espera.  

A descrição, falemos de novo, ganha consistência, quando revelo que ao redor da moça havia volumoso grupo de homens, todos gentis ao extremo, na tentativa de livrar o sapato. Ops!... Retifico - na tentativa de livrar a criatura, isto sim, do aperto pelo qual passava. Heróis em potencial, para tentar aproximação - eu imagino. 

Cinderela da cidade, na brincadeira de Saci Pererê, num pé só, fazendo o possível para manter-se em posição ereta. Beleza reluzente, mesmo no aperto.

O que acabou ficando engraçado, confesso, foi a minha atitude repentina de atravessar a massa do entorno, abaixado, afastando um a um, para chegar até a moça. Ufa! Ponha luta nisso, viu! Com o celular na mão, meio sem graça, cheguei a ela. Quando me dirigi:

- Incomoda-se que eu tire uma foto do sapato preso? Achei a situação inusitada. Como sou cronista, penso ter conseguido uma boa matéria. Risos! Não incluirei você, em respeito a este momento constrangedor. 

Recebi de volta a aceitação, sem problema.

Retirei-me do local com sorrisos. Refleti que as situações ridículas ocorrem e que estamos sujeitos a elas (a restrição é que a pessoa não deve se machucar, obviamente). Ter espírito desarmado ajuda bastante. Os aborrecimentos estão por aí a nos rondar, então para quê o estresse, se o seu sapato ficar preso, se suas chaves caírem no bueiro ou, ainda, se houver um escorregão na rua?

Libere-se, viver requer “savoir-faire”!

Alfredo Domingos

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Para não chegar (pressa, incertezas e afins)

Estamos envoltos no “indo” (gerúndio) e no “será (futuro). Coitado do presente, abandonado. Geralmente, residimos na transição – “a empresa está revendo as suas estratégicas”; “os empregados estão sendo capacitados”; a lei passa por mudanças; para citar algumas das falas e procedimentos. Ou, então, tudo se resolverá para frente – “a empresa entrará em novo ciclo de prosperidade; “o governo tomará todas as providências”; “novos servidores serão admitidos, proximamente”; e, assim, transpomos o presente na busca do que ainda virá, e que sempre será algo novo e maravilhoso... pena que, somente na imaginação e nos planos “furados”! 

Pergunta: quando o presente acontece, afinal? (para não dizer “quando o presente estará presente?”) 

Tudo fica para depois. Tudo precisa ser refeito. Tudo está inacabado, em pleno 2017. 

Outra pergunta: quando virão a “prontificação”; o “resolvido”; o “estamos já na nova fase”; e o “planejamento encerrado e colocado em prática”? 

Precisamos penetrar e fincar o pé nas vozes ativa e passiva dos verbos, para que expressemos que as questões estão efetivamente resolvidas. Dessa forma, é que as coisas são encerradas. 

Duas moças pedalavam as suas bicicletas reluzentes, na Orla Conde, no Centro do Rio, semana passada, trocando ideias sobre alguma corporação que tem a sigla “KST” (não sei do que se trata). O que consegui ouvir da conversa, num curto tempo, foi: “A KST está repensando as suas políticas. Em breve ocorrerão mudanças”. 

Desculpem-me as moças, mas disseram o nada! Claro, que não acompanhei o contexto. Foram duas frases soltas para os meus ouvidos, porém, é necessário possuir muito contexto para que esse trecho tenha alguma relevância. 

Praticamente, todos nós estamos nessa vibe de mexer, alterar, revitalizar, reformar, etc., pretendendo chegar, sem alcançar resultados concretos. É um querer sem fim, brilho nos olhos para conquistar. Ansiedade. Alegria extrema. Mas ficando pelo caminho, infelizmente. 

O procedimento antigo do fazer devagar, com cautela, estudando prós e contras, para obter solidez, está em desuso. No embalo do face e do zapzap, com dedos nervosos, vamos antecipando, pulando etapas, terminando de qualquer jeito. Ampliando águas, que não deságuam em oceano algum. A pressa está dominando as ações. Corre-se para o quê? Chegamos sempre atrasados! Não é verdade? 

Aliás, a pressa merece reflexão. Estamos todos afobados. Espavoridos e esbaforidos! 

Reparo que rapidez e proatividade são diferentes da pressa louca. Realizar uma tarefa com pressa, às vezes, é melhor não fazê-la. Há confusão nesse quesito. 

A pressa desponta quando algo saiu do seu curso normal, geralmente motivado por falha no planejamento. O apressamento contamina as outras pessoas. Daqui a pouco, já estamos todos correndo com os nossos afazeres.

Surgem casos de a pressa virar rotina, o que estressa e faz com que o produto final das várias tarefas fique prejudicado. Aí, voltamos ao gerúndio e ao futuro. No meio da correria, começam os comentários: “Fulano está fazendo tal coisa para me entregar. Só depois, farei isto”; “estou aguardando pelo relatório “x”, para realizar a minha parte”; e “somente amanhã, conseguirei terminar este trabalho”. 

A qualidade cansou-se. Esvaiu-se. Para recuperá-la, precisaremos de tempo e de trabalho. Entendo que o pouquíssimo está muito, nas contrapartidas das exigências. É um vazio de solução que está por aí. 

E o detalhamento? Sofrido. Relegado. Não temos paciência nem atenção para aparar arestas, contornar situações, aplicar berloques, longas explicações e usar a correta Língua Portuguesa. Tristeza! 

Há, porém, a certeza de que um dia, mesmo demorando, teremos que chegar... e alcançar os objetivos. Não podemos procrastinar por toda a vida. Atitude, irmão! 

Alfredo Domingos

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Deixe o carnaval nos levar!

Um amigo escreveu-me dura mensagem, tratando do carnaval. Revestido de pessimismo, alegou que “não entende o povo brasileiro, esbaldando-se nos blocos e nas festas de carnaval”. Continuou ele indignado com a efêmera alegria “de quem é tão sofrido, maltratado, mal-assistido e sem condições mínimas de trabalho, como exemplos”. 

Resolvi responder, em defesa do folião! Lancei mão de um papelzinho para entregar, como quem não quer nada. Para deixar debaixo do pires da xícara de café, em um dos nossos encontros matinais. Entendo que matéria escrita, com a nossa letra, causa mais impacto. 

Preparei o pequeno texto, transcrito abaixo. 

Carnaval de fato é passageiro, porém, é um momento de liberdade, sem chefe, sem contas a pagar, sem ponto para bater, hoje eletronicamente, sem paletó, sem macacão e equipamentos de segurança e sem os demais elementos incômodos e sérios. 

O sujeito canta, pula, grita, mexe-se, coloca os braços pra cima, bebe; tudo isso se sentindo livre, às vezes no descer e subir das ladeiras das cidades, escoando-se como o próprio chope derramado, pelas ruas, meio sem rumo, mas dentro da festa. 

Desafinado, repete as letras das velhas músicas, que geralmente trazem conselhos de amor, de encontros, de satisfação, de divertimento, como na famosa “Máscara Negra”, de Zé Keti e Pereira Matos, onde encontramos versos deste jeito: “Quanto riso, oh, quanta alegria! Foi bom te ver outra vez! Eu sou aquele pierrô que te abraçou e te beijou, meu amor! Eu quero matar a saudade! Vou beijar-te agora! Não me leve a mal! Hoje é carnaval!”. Música e letra levantam o astral de qualquer um! 

Fantasiado. Oculto de si mesmo e dos outros. Encarnando personagens inimagináveis, até ridículos, contudo, sem pensar em atribulação. 

Sai dali esgotado, bebum e pronto para mergulhar, em busca do sono profundo, na primeira cama que pintar. Terapia “de grátis” e divertida. 

Ao acordar, ainda sonolento, é que, aos poucos, retorna à realidade. 

Assim, tendo tido lampejos de diversão, no turbilhão da luta diária, conseguiu um oásis de felicidade, de descontração. Isso não é bom? Sim, claro! O resto corre sozinho. Inevitavelmente. 

Alfredo Domingos

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Sonhar não custa nada e faz bem

Lufa-lufa, corre-corre, confusão, atropelo e mais outros tantos substantivos podem indicar a complexidade do nosso dia e a agitação do nosso cérebro, embora, na maioria do tempo, seja o verbo que nos inferniza, designando tarefas.

Vivemos num encadeamento de obrigações, incluindo a rotina de trabalho e, até, a diversão. Ademais, há a íntima relação com as redes de comunicação, que absorvem a maior parte das atenções.

Nos raros instantes de não se fazer coisa alguma, é permitido, e também salutar, sonhar. Um bom instante para isso é o curto lapso de tempo, antes de pegar no sono. A imaginação voa e o torpor da sonolência vem nos abraçar.

É imensamente prazeroso levantar voo, permanecendo no mesmo lugar, com os pés no chão, pensando em passagens agradáveis, chamando para nós aquilo que oferece prazer. Estudos de neurocientistas apontam que sonhar acordado é benéfico. O sonho aceita tudo, ainda mais se engendrado pela nossa engenhosa cabeça. Igual a texto no papel. Nem precisa ser verossímil, sensato e embasado. Ocupa a seara do poético. Não necessita de início, meio e fim. Flui ao gosto do sonhador. Adapta-se conforme a sua vontade. E o melhor é que sendo do agrado atrai o bem-estar, quando estamos em sintonia. Dá a ideia de superpoder, com o qual podemos comandar o presente e o futuro.

Quando algo me aborrece, além de apurar a respiração, peço socorro às ideias, deixando-as soltas, para que a paz retorne. Invento. Crio histórias do meu jeito, normalmente maravilhosas e bem-sucedidas, evidentemente. Acabo dando risada e experimentando prazer. Será uma forma de terapia? No meu sentimento, sim. Escolho apropriar-me de “leveza” e de “o menos é mais”, no cumprimento de conselhos tão atuais, visando estabelecer um “clima” favorável aos devaneios. Devanear faz bem.

Busco personagens simples, que julgo serem interessantes. Boas pessoas para que eu fique bem cercado. Não imagino maldades, traições ou mortes. Os personagens, apenas, somem, não mais sendo lembrados, a partir de saírem do contexto. Desvanecem-se. Quando estão na roda-viva dos acontecimentos, são atuantes, criativos e bons. Procuro atrair a bondade, trago-a para mim, para me acompanhar.

De repente numa história, sem fim por enquanto, pois o roteirista sou eu e estou vivinho da silva, destaquei um personagem do restante dos participantes – Alice. Companheira-namorada. De nome doce ao pronunciar e de imaginar, ligado à nobreza, segundo os estudiosos de onomástica, e ao mundo lúdico de Lewis Carroll. Faço conexão direta entre a Alice criada por mim e a do País das Maravilhas, de Carroll, embora as idades e as épocas sejam completamente diferentes. O coadjuvante número um sou eu, que transito no entorno de Alice, a protagonista. Preferi assim.

À volta de Alice, resolvi inserir pessoas diversas daquelas das minhas amizades reais. Vou ao encontro de outras cabeças. Penetro no novo, uma vez que o sonho abriga qualquer conceito de comportamento, ou até nenhum conceito. Gente que seja de seara alheia à minha, ligada, habitualmente, às artes, às atividades esportivas, à gastronomia e ao lúdico. Busco trajetórias do gênero blasé cujos assuntos me atraiam e gerem conteúdo com característica de sonho mesmo. Penso nos urbanautas (insistentes pessoas andarilhas das cidades, caminhantes sem freio); nos cozinheiros das horas vagas, mestres-cucas amadores; nos violonistas ou pianistas solitários, que dão audições fechadas, pra pouca gente, nos sábados à noite, tendo como ouvinte atenta a chuva na vidraça; e assim vou arrebanhando pessoas de vários gostos e origens, para somarem com os seus comportamentos.

Ah! Na invenção, Alice possui uma filha, de outro homem. Moça casada, que mora fora da nossa cidade. Com a vida resolvida, não nos trazendo incômodos.

Programo, às vezes, uma viagem até a cidade da “enteada”. Passagem rápida, com algumas atividades como caminhada, escalada, etc. Faz parte do lazer pra relaxar. Sair da rotina.

Conhecemo-nos da maneira mais trivial possível. Esbarrão na saída do mercado. Desculpas dos dois, e convite a ela se queria companhia até a casa. Aceitou, desde que a deixasse na calçada, em frente ao edifício, evitando invasão. Concordei. Troca dos números dos celulares. E, dias depois, marcado o primeiro encontro. A partir daí, somente alegrias!

Alice é campeã! Gente fina. Cordata. Paciente. Fala mansa. Disposta para as aventuras. Elegante no vestir, sem exageros, e, principalmente, de gestos gentis. Eu precisava dourar a pílula da personagem! Sem o quê não haveria graça.

Ela nunca teve um parceiro fixo, como se diz. O que pensou que daria em amor definitivo durou o suficiente para ganhar a bebê. Depois, findou num estalo. Não sendo necessário tecer detalhes.

Os meandros do sonho louco permitem comparação com a feitura de refeição de fim de semana, onde os panelões e as grandes quantidades têm espaço. Colocamos ali um pedaço substancial disso; quilos de material com sustância; colheres daquilo; pitadas daquilo outro; bastante coisinha boba e inofensiva, que não matará os comensais; raspas de coisa consistente; algo que irá dar cor; folhinhas verdes para proporcionar frescor e agradar aos olhos; e, se houver fôlego, conseguimos uma travessa refratária para gratinar o que for sem graça.

A escrita, ainda que mental, pode ter a concepção inventada acima. Sem problema. Cabe tudo no panelão da cabeça, assim como na gororoba que o fogão produz.

No seio disso tudo, lanço mão de uma mochila. Carrego-a nas costas, e me utilizo das “facilidades” que ela guarda. Seu papel é especial. Dali, tal e qual os recadinhos do realejo, retiro intervenções para enriquecer o sonho. Coisas dos tipos: cada um morando na sua casa; dirigindo o seu carro; fazendo suas compras; e administrando seu dinheiro. Somos praticamente da mesma idade, para não haver lacunas nos interesses. Ela professora universitária, de História, e quanto a mim deixo em branco. Sou o que sou, quase um anônimo para o “roteirista”. Risos!

As facilidades evitam conflitos. Sabemos como eles atrapalham. Dessa forma, não abro mão da mochila para a felicidade geral do hipotético casal.
Há dois professores, uma professora – os três da mesma universidade da protagonista - e a prima, que fazem parte do grupo mais íntimo. Alice tem irmã, mas não participa muito do convívio. Por motivos particulares, mantém-se um pouco afastada.

Os dois professores trazem a nós boas diversões, de tipos diferentes.

Um dos professores é pianista, fora da sala de aula, praticamente profissional, tão dedicado que colocou um piano de cauda, daqueles famosos, na pequena sala de casa. Brinda-nos em dois fins de semana, pelo menos, no mês, com saraus caprichados. Alguns tira-gostos, taças de vinho, cervejas, e faz a festa! Sujeito simpático, divertido, com vários casamentos nas costas ou nas lembranças. Esforça-se em ser bom anfitrião, uma vez que vive sozinho. Faz pequenos intervalos entre as músicas, para contar histórias, narrando conquistas, algumas bem-sucedidas, outras nem tanto, e também casos hilários. Ri de si mesmo. Há suspeita de que boa parte das conversas é inventada. Porém, isso não nos incomoda.

O outro amigo é sociólogo, professor de ideias progressistas, porém, é com a culinária que faz a sua praia. Possuidor dos mais diversos utensílios, que busca temperos, bons ingredientes e receitas refinadas. Frequentador de feiras e de mercados alternativos. Brinda-nos com belos pratos, na sua área, no apartamento térreo, ou deixando-os na portaria de Alice, de surpresa. Entusiasta de passeios por matas e por cantos escondidos, recolhe frutinhas e folhas comestíveis, fotografando curiosidades da natureza. Calado, desconfiado, mas com boas sacadas e de uma prestimosidade acima do normal. Sem casos amorosos para contar ou parcerias para revelar, reserva-se na sua intimidade.

A professora, com nome marcante, Joana D’Arc, traz, ao lado do marido, a face glamourosa da vida. A participação derrama o luxo no meu sonho, por meio dos grandiosos salões da residência, em Copacabana, endereço de frente para o mar, onde boa parte dos movimentos da cidade ocorre. Das passeatas à festa de final de ano, somos convidados para assistir, literalmente de camarote, aos grandes eventos do Rio. Janelões, praticamente, jogam-nos na areia da praia. Comparecemos todos. Geralmente, brindamos o momento com especial espumante e iguarias servidos por impecáveis garçons. Para completar, no campo das maravilhas, o casal coloca à disposição bela casa na Costa Verde do Rio de Janeiro, dotada de lancha, piscina e a indefectível churrasqueira, além de acomodações confortabilíssimas. Querer mais? Por quê?

O tom cômico, hilário, precisava fazer-se presente. Pronto! Aí entra a prima. Figura sem lenço nem documento, excessivamente espirituosa, tendo a comicidade como modo de vida. Viu-se sem o  companheiro, sem entender bulhufas. O camarada avisou que iria à esquina comprar cigarros. Para brincar ela rememora que era de uma marca antiga – Hollywood – de tradicional embalagem vermelha. Afirma que tem ódio deste nome, pois traz à memória o perrengue que ela passou, pois o homem, malandro, nunca mais voltou. Procurou-o em todos os cantos, inclusive hospitais e Instituto Médico Legal, sem sucesso, no entanto. Desistiu. Não encontrou apetite para fazer outra união.

A vida seguiu e se manteve dona do nariz, “sem estorvo”, como gosta de dizer. Assim, teve aulas de circo, de sommelier, de barista, história da arte e assim vai sem brecar a curiosidade e o arrojo. Parece-me que as invenções são propositais para passar alegria e distração às pessoas. Ah, ia esquecendo-me: ultimamente, faz curso de montanhismo. A idade, contudo, apenas para nos situar, passou dos cinquenta há tempos. Integrante de todas as ocasiões seja para casamento seja para enterro. Aparece sem avisar. Chega chegando. Convoca o pessoal da casa basicamente para três coisas: jogo de cartas, preparo de comidas e muito papo, sendo que este rola recheado de pitorescas situações, para não dizer doces mentiras. Outro dia, adentrou o apartamento de Alice com um polvo pelos dedos, mais vivo do que morto. Lançou-o sobre a pia da cozinha e falou:

- Mais tarde, trataremos deste aqui, enfiando o dedo indicador na carne do molusco. Fazê-lo é minha especialidade!

Bem, outros personagens caberiam na história, assim como poderia tecer tramas paralelas envolvendo as pessoas já citadas, mas pecaria pelo cansaço em pontuar ações e reações do dia a dia. Penso que dei a amostra do tema que queria abordar. Está resolvida a questão!

Gente, tudo isto é sonho. Doideira. Mas faz um bem danado! Dessa forma, uso de escapismo, em alguns momentos do meu dia atribulado, para ser gentil comigo mesmo, na tentativa sadia de misturar a dureza da realidade com o bem-bom do sonho. Trata-se do pilates dos pensamentos, a reviravolta do perfeitamente real em prol da fantasia. Para nos ajudar, Fernando Pessoa deu o recado: “O homem é do tamanho do seu sonho”. Claro, que ele comparava o sonho, naquela sua época, com o que se quer conquistar. Mas mesmo assim, vale o conselho do poeta, aqui na nossa conversa.

Agora, deixo a minha dica: sonhe. Bastante! Tudo é possível na imaginação. Não se avexe, não. Tudo se passará com você mesmo, com os seus botões, no fundo da alma.

Alfredo Domingos
(consulta ao texto "As vantagens de sonhar acordado", de Claudia Hammond, da BBC Future)