segunda-feira, 19 de março de 2018

Adeus ao tio Lucrécio



Fui levar o meu sentido adeus ao tio Lucrécio. Caía chuva fina, num dia cinzento, o que não atrapalhava nem glorificava o evento fúnebre. 

Diziam, no passado, sem fundamento, que velório com chuva era sinal de que o céu chorava pelo defunto – frase melancólica, associando a divindade à tristeza da situação. O céu nunca chora! Ao contrário, glorifica! 

Indo em frente, lembrei-me de um antigo chefe, que sempre alertava sobre a relevância que todas as ocasiões merecem, sejam elas de tristeza ou de alegria. Daí, valer a pena prestigiar e associar-se, também, à dor. Solidarizar-se. 

O tio teve a vida com a cara do seu dia final. Sem grandes altos. Sem grandes baixos. Ele era um homem sério, metódico, mas gentil. Era o que chamamos de reservado. Suas palavras eram apenas as necessárias. Seus gestos eram assim, também. Nada de exageros. 

Trabalhou na repartição pública, onde cumpriu rigorosamente as regras e os horários. Habitualmente, usava terno, acompanhado por discreta gravata, e sapatos de couro, impecavelmente engraxados. Como detalhe importante do traje, trazia uma reluzente pérola presa à gravata, dando o toque de distinção. 

Obviamente, a sua filha, com zelo, preparou o pai para a derradeira viagem dentro do figurino costumeiro. De terno, camisa branca, gravata e a pérola. Quanto a esta, apareceu quem fosse contra a sua inclusão, pois foi alegado desperdício pela perda de joia familiar. 

Incrivelmente, numa hora triste, há gente, que se agarra aos bens. Este, em especial, sendo avaliado por um setor de penhores, provavelmente, não daria para pagar uma pizza tamanho gigante. 

Não foram esquecidos dois instrumentos vitais na vida do tio. Os óculos de grau e o pentinho de osso. Ambos seguiram no bolso, fiéis até na eternidade. 

No vazio de ideias que a ocasião gerava, num canto, de mão no queixo, comecei a pensar como ele agiria. 

Imaginei a cena da véspera do seu último dia, onde tudo começaria, considerando ter sido o tio um homem prevenido. 

Organizadamente, ele estaria preparando-se para o evento que viria. Reunindo o necessário. Escolhendo um a um os elementos da sua composição: a identidade (é prudente estar documentado), para qualquer eventualidade, com a fisionomia antiga, de bigode fino, colarinho alto e laço estreito na gravata; o lenço, para momentos delicados, sabe-se lá; a caneta da marca Parker, para alguma rubrica de última hora e também para as palavras cruzadas; a caderneta das contas mensais, para controle das despesas; os óculos, claro, para ajudar a enxergar na escuridão; o pentinho, para manter o cabelo permanentemente alinhado; o cinto, porque calças frouxas não ficam bem; mas quanto aos sapatos, tive dúvida se os incluiria - de repente, trariam incômodo em local tão sem espaço, além de que não teriam utilidade. Achei prudente somente as meias, para agasalhar os pés. 

Depois desse primeiro devaneio, veio-me à mente a questão das carpideiras. O tio comentava, lembro-me, que velório sem o pessoal chorando não tem graça. Se deixar por conta dos parentes, não sairá boa obra. Começam com força total e vão, aos poucos, esmorecendo. Em consequência, a partir do esmorecimento, já não há alma piedosa para chorar. A saída, que dá resultado, é a contratação de senhoras. Pagando, a coisa funciona! Pelo jeito, esta providência falhou... 

Em seguida, observei que, na capela, uns poucos deixavam rolar lágrimas esparsas, insignificantes, sem glamour, e o resto conversava. O tio estaria uma “arara”, lamentando. Deveria estar percebendo, de alguma forma, a pouca importância. Em contrapartida, puxará o pé de cada um daqueles dali, durante a noite, fantasmagoricamente! 

Abandonei o fantasma vingativo, e continuei vadiando com o pensamento. 

Lembrei-me da música de Paulinho Moska, “O Último Dia”, que logo no início questiona: 
“Meu amor 
O que você faria se só te restasse um dia? 
Se o mundo fosse acabar 
Me diz, o que você faria? 

Ia manter sua agenda 
De almoço, hora, apatia?
Ou esperar os seus amigos 
Na sua sala vazia?” 

Associei a despedida de Lucrécio ao último dia de nossas vidas, se, por ventura, fosse anunciado. 

O tio estava hospitalizado, combatendo doença antiga, renitente, que provavelmente daria no que deu. 

Então, não era a sua situação. O aviso já vinha de longe, infelizmente, o que deve ter proporcionado a ele muitos planos criativos inicialmente, e, após, trazido desânimo, no correr do tempo. 

Porém, quanto a nós, ainda viventes, se recebêssemos, do nada, a notícia de que tudo acabaria amanhã, o quê faríamos? 

Moska indicou, na música, várias coisas: manutenção da agenda, espera dos amigos, ida para shopping ou academia, andança pelado pela chuva, e outras invencionices. 

Imaginei, sem gastar lucubração, partir para descansar. Relaxar numa espreguiçadeira. Bocejar. Respirar pausadamente. Talvez, deixar-me entrar em sono profundo, e pronto! (tentei incluir a leitura de um livro, porém, previ ansiedade, na tentativa de chegar ao seu final – desisti) 

Finalmente, recordei-me da pérola da gravata do tio. Concordei com aqueles que a queriam guardar. Seria desperdício, realmente, abandoná-la à sanha do alheio. Por exemplo, por que não poderia ficar comigo? 

Aí, juntei a ideia do meu último dia, na espreguiçadeira, com a pérola. Manteria a joia entre as mãos e a levaria comigo, para aonde o imprevisto “previsto” me conduzisse. 

Alfredo Domingos

terça-feira, 13 de março de 2018

Artimanhas de Dona Bárbara



- Como vai a Dona Bárbara? 

- Minha mãe vai bem – respondi ao meu amigo Raul, iniciando a relatar a novidade que ela, agora, “apronta” nas festas para as quais é convidada.

Lá pelas tantas das reuniões, aniversários e outras festividades, sem nenhuma ciência ou saber, mas com muita arte, resolve fazer leitura das mãos daqueles que ali estão. 

A sua sorte é que as pessoas encaram com humor a iniciativa, como uma diversão, além da curiosidade. Ocorre de receber convites motivados pela pretendida atuação de animadora, o que lhe traz satisfação e orgulho, veja só... Exemplificando o prestígio alcançado, sábado passado, à noite, estava à porta um transporte, especialmente, contratado para levá-la a um “party”. 

Seu aspecto físico é magrinho, de baixa estatura e cabelos longos. Não é ao acaso que não possuo mais de um metro e sessenta centímetros de altura. Tive a quem sair. 

Passa ela a encarnar o personagem, com maestria, sem antes se fazer de rogada, dizendo-se sem dotes para tal. Diante da insistência da “plateia”, finalmente, dá início à “performance”, que tem no vestuário um valioso coadjuvante, pois mistura ares de cigana e de cartomante, com direito à saia rodada, blusa bufante e brincos de argolas. 

O semblante é compenetrado, com a seriedade que o “ofício” impõe. Consegue criar suspense, prendendo a atenção dos ouvintes. Usa palavras difíceis e de duplo sentido, tornando a aventura interessante; e lança, para realce, o artifício de fechar, de vez em quando, um dos olhos. 

Pondo em prática a atividade, dirige-se a cada um que lhe dá a mão, em voz pausada, indicando os traços da personalidade e fazendo previsões de futuro. Para tal, é claro, e não podia ser diferente, baseia-se nos conhecimentos que detém das pessoas, suas conhecidas, ainda que escassos, e nas observações “in loco”. 

Solicita entre as “consultas”, para fazer um “clima”, algo para beber, criando intervalos calculados, longos, o que faz as pessoas ficarem ansiosas pelo recomeço. Quando lhe oferecem bebida alcoólica, não aceita, confessando-se abstêmia e contrária ao vício, seja ele qual for. 

Essa postura é um dos artifícios empregados para dar credibilidade, porque mantém, em casa, ao lado da cama, sem falha, um copo de vinho tinto. Quem lhe priva da intimidade sabe. 

Às vezes, porém, exagera na dose da falação e traz para si situações desagradáveis. 

Segundo me contou, ao ler a mão de um senhor, já com os seus setenta anos, sugeriu-lhe arranjar uma companhia para o final da vida, imaginando-o solitário e carente, pois não havia constatado no recinto uma acompanhante para o coitado. Aí, a situação complicou-se devido à reação da própria esposa, muito mais nova, que surgiu de um outro grupo, dizendo-se boa cuidadora do companheiro, em alto e bom tom, acrescentando que ele não era sozinho e nem estava para morrer tão cedo. Dona Bárbara, para desfazer a confusão, precisou de toda a sua lábia, alegando que a vista cansada pelos anos havia lhe traído na hora da leitura. 

Certo dia, aconselhou a uma moça, que estava de casamento marcado, que desfizesse o compromisso, uma vez que suspeitava ser o cidadão um vigarista mulherengo. Ela escapou de uma sova graças à intervenção da dona da casa, que intercedeu, “abafando o caso”, alertando que a mesa estava servida para o jantar. A fome do pessoal teve mais força. Quando a interpelei sobre a maçada, respondeu que vira o noivo, minutos atrás, na varanda, de paquera com uma jovem, todo derretido; e a intenção era prevenir. 

O outro tropeço revelado foi quando, após observar um rapaz tossindo junto à porta do banheiro, conseguiu dizer-lhe, com auxílio do “além”, que tratasse do pulmão. Um médico presente apontou a gravidade do conselho, pelas consequências desastrosas que poderia gerar. 

Fatores que lhe são favoráveis nas suas peripécias são a carência das pessoas e a curiosidade. A necessidade de boas novas e do conforto para as aflições, geralmente, torna a assistência receptiva e crédula. Daí surge o espaço para as atuações de Dona Bárbara. 

Sendo o assunto sobre comida, adverte que come feito um passarinho, de acordo com a pouca quantidade que ingere. 

Trata-se de outro disfarce! Na realidade, é uma “faminta”. Metida à polida, mas não rejeita prato algum! Ao sair das festas, apenas nesse momento, tentando disfarçar, prepara pequenos embrulhos com doces e salgados, para darem na bolsa, de modo a regalar-se em casa. O hábito foi notado. Porém, deu certo. Passou a ser contemplada com lembrancinhas e verdadeiros farnéis. Adorou a ideia! Aprova o agrado, discordando da conotação de pagamento pelos seus “serviços”, embora, no meu sentir, entendo ser uma vergonha! Fazer o quê? Ela é assim... 

São dadas sugestões para aprimorar seus “conhecimentos”, se os tivesse, e até são indicados cursos para realizar. Desculpa-se, apelando para o hipotético, qual seja o dom, que diz ter. Apega-se ao imponderável, invocando as qualidades de sensitiva, lembrando, espertamente, que essas virtudes não são aprendidas na escola. 

Enquanto a coisa estiver revestida de humor e for compreendida como sem efeitos nocivos, tudo bem! Cuidado, no entanto, deve ser dispensado ao empreendimento de Dona Bárbara, porque, dependendo das circunstâncias e dos exageros, podem advir situações constrangedoras, sendo difícil ou impossível revertê-las. Pode-se imaginar que suas histórias fiquem a tal ponto sem governo, tamanha a criatividade, que resultem em “cana dura” para a sua autora. Afinal, poderá haver a alegação de calúnia, difamação ou algo parecido. Será?! Não à toa, os sentimentos são os seus ingredientes. Que Deus proteja a criatura ou a faça desistir da façanha! 

 Alfredo Domingos

segunda-feira, 12 de março de 2018

Mais uma música



 - Mais uma música, Rodrigo (partner-dançarino-fixo de Ruth). 

- OK, vamos lá!

E saíram a evoluir pelo salão, com passos perfeitos, recheados de evoluções. Como fazem há muito tempo, às sextas-feiras, no grande salão azul do Grêmio Recreativo Boa Esperança

Ruth Siqueira Campos, como orgulhosamente proclama, citando militar participante do Tenentismo, político do Tocantins, nomes de Rua de Copacabana e de Município do Paraná, caminha bem pelos 71 anos, com boa saúde, apesar de alguns remédios próprios da idade. Pratica caminhada, pilates e dança de salão, privilegiando o corpo e a saúde mental, num interessante planejamento de vida. Baixinha, magrinha, cuida sozinha da casa, onde faz todas as tarefas. E, para cumprir essas atividades, é bastante disposta. Conclusão: "safa-se" a contento.

Aventurou-se em aula de artes plásticas, pinturas em tela, mas se entediou. Identificou-se como sem paciência para a atividade. Ficou por pouco tempo. Não era a sua "praia".

Viúva há mais de 10 anos, depois de um casamento harmônico, com um homem quase duas décadas mais velho. 

Há uma filha, porém, enfronhada no mundo, cumprindo destinos diversos, para cursos e passeios, cujos endereços são transferidos para o “WhatsApp”. 

Com uma aposentadoria confortável, além da pensão do marido, ao menos por enquanto, antes que o Governo atue com mãos pesadas, talvez justamente, na previdência, Ruth satisfaz as suas necessidades com tranquilidade, embora não caibam exageros. 

Dessa forma, ela rompe o que seria o “isolamento social do idoso”, um mal principalmente das grandes cidades, que cerceia o direito de as pessoas envelhecerem com amor e companhia. No Brasil, do total de idosos, atualmente, 35% vivem sozinhos em suas casas, tendo que resolver problemas que surgem e espantar a solidão. 

Vamos falar de Rodrigo. Contratado, com valor mensal estabelecido, é exímio dançarino. Formado profissionalmente nas academias de dança, aos 36 anos, possui habilidade, gentileza e sorriso escancarado, para dar e vender. 

No contrato consta, embora não por escrito: 

Da parte dela - o pró-labore, o transporte, a roupa do “professor”, os sapatos, estes de verniz, em duas cores, a cerveja, os tira-gostos, e o que mais aparecer por conta do “serviço” da dança.

 Da parte dele – a bela figura negra apenas deve ser parceiro, para irem, às sextas-feiras (às 18h), e voltarem (até as 23h), e exclusivo dela, para a dança. Ficou estabelecido que, no compromisso semanal, devem ser cumpridos dois períodos de hora e meia para dançar e meia hora de descanso. 

Podemos estranhar o rigor da combinação, e até mesmo o porquê dos honorários pagos a Rodrigo. Afinal, é uma diversão. 

 Ruth imagina que, feliz ou infelizmente, quando se paga, existe seriedade, além de considerar que somente desse jeito conseguiria a certeza de ter o acompanhante, inclusive bem trajado. No contrato verbal, bem especificou: 
- Pagarei o valor pedido, mas não perdoarei atrasos nem faltas, em relação ao acordo feito, exceto em situações extremas, que deverão ser comunicadas com antecedência sensata ao horário previsto para a saída. 

No decorrer do trato, de quando em vez, fica furiosa diante de atrasos e faltas. No entanto, é condescendente.

Rodrigo, regularmente, cumpre o acordado. Ocorrem, porém, deslizes no tempo do descanso. Ele aproveita para dançar com outras pessoas mais jovens, por vontade própria, o que é válido, descaracterizando uma escorregadela. 

 Nesse desenrolar, Ruth leva a vida agradavelmente, em condições gerais compatíveis com a sua idade e com o seu poder aquisitivo, e sempre aguardando, ansiosa, as terças, quintas e sextas-feiras para o exercício do pilates e da dança, respectivamente. 

A propósito, estudos apontam que a solidão ataca a saúde física e mental das pessoas, mas nas idades avançadas isto é mais intenso. Estudiosos da Universidade de Chicago, nos EUA, descobriram que o isolamento aumenta o risco de morte em 14%, entre os que têm 60 ou mais anos. Espantosamente, a Universidade de Brigham Young, também nos Estados Unidos, comparou estatísticas de mortalidade e concluiu que a solidão é tão prejudicial à saúde quanto fumar 15 cigarros por dia ou ser alcoólatra. Para completar, há ainda a revisão de 23 artigos científicos feita por pesquisadores da Universidade de York, no Canadá, indicando a triste realidade de que estar isolado aumenta em 29% o risco de doenças coronarianas e em 32% o de acidentes vasculares. 

Por sua vez, a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulga, em seu Relatório Mundial sobre Envelhecimento e Saúde, que o envelhecimento saudável ultrapassa o limite da ausência de doença. É preciso que o idoso tenha habilidade funcional, inserção social e sistemas de saúde diferentes dos modelos curativos. 

No Brasil, abandonar idoso (incapaz) é crime, com pena de multa e detenção de seis meses a três anos, de acordo com o artigo 133 do Código Penal. Há, em acréscimo, os artigos 97, 98 e 99 da Lei do Idoso, de nº 10.741, de 2003. 

Existem 3 tipos de abandono de incapaz: o intelectual, usado para o menor, se os pais privarem o filho de frequentar a escola; o moral, quando for ignorada a existência da pessoa, principalmente no segmento afetivo; e o material, na situação de o idoso não ter condições materiais de subsistência. 

No caso de Ruth, entendemos que as coisas caminham adequadamente, em decorrência da existência de recursos e, notadamente, em função da sua sabedoria, resolvendo-se de várias maneiras, criando boas oportunidades para si. 

Para terminar, ressaltamos que o título deste texto tem a ver inicialmente com a dança, mas indo em frente para as surpresas e as brechas, que surgem ao longo das nossas vidas. No abrir de janelas, portas, quaisquer chances, sempre teremos "mais uma música". Resta-nos sair dançando, no ritmo que couber para nós.

 Alfredo Domingos 

Fontes de pesquisa: 1) O Globo, 4/3/2018, matéria de Clarissa Pains – Órfãos na velhice: isolamento social aumenta em 14% risco de morte. 2) Jornal do Brasil, 4/3/2018, matéria de Celina Côrtes – O filão da Terceira Idade. 3) IBDFAM/TJMT, 22/3/2016, matéria de Mariana Vianna – Abandono de incapaz é crime.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Sinuosidade de nós

Fonte da imagem: fotografia do autor

Quando criança, eu era magrinho, franzino.
E gaguinho. Depois, como adolescente, fiz concurso para colégio público e não passei. Devido ao peso. Quer dizer, pela falta dele.
Deram-me tempo, fiz regime de engorda, ganhei o que estava faltando, e fui aprovado. A balança nunca mais me incomodou. Nem para um lado, nem para o outro.
A gagueira, sim, acompanhou-me, trazendo dificuldades e constrangimentos.
Em muitas oportunidades, ressenti-me da “liberdade de expressão”, literalmente.
As ideias brotavam, porém, a comunicação escorregava.
Havia trava. A chance de as coisas acontecerem, então, escapava.
Repetia um de tal de “é”, várias vezes, para dar a partida. Pegava no tranco.
É! É! É!... Isto aqui, aquilo outro.
E ao falar, fazia de pressa, atropelando, para não perder o embalo.
O interlocutor devia entediar-se. Fazer pouco caso do que eu tinha a dizer.
Confesso que, em algumas ocasiões, eu percebia a impaciência das pessoas.
Não pensem que não procurei caminhos para mitigar ou eliminar o problema.
Socorri-me das fonoaudiólogas.
Pelejei, e muito!
Adulto, dei uma encorpada fisicamente, mas permaneci sofrendo na conversação.
Das matérias escolares, sempre tive predileção pela Língua Portuguesa. Comento este particular porque daqui a pouco irei fazer uso. Aliás, naquela época, chamavam-na apenas de Português.
O tropeço no expressar, no entanto, conduziu-me em uma direção impensada, e boa.
Se falar era dificultoso, escrever era mais fácil.
Agarrei-me à alternativa. Para tudo usava um bilhete. Um recado.
Levava no bolso não uma joaninha, na caixa de fósforos, como no grupo escolar, mas papelucho e cotoco de lápis. Falava por meio deles. Minhas armas de comunicação.
E a Língua Portuguesa, comentada antes?
Ocorreu o ponto de inflexão.
Em 2005, danei a escrever. Contos, crônicas, poemas, e tudo o mais.
Na mesma época, fiz terapia, acupuntura, RPG e pilates.
Passei a comunicar-me mais e melhor.
Rompi as barreiras.
Ganhei confiança.
Mudei de jeito de ser.
Em 2013, lancei o livro “Existe Vida nas Palavras”.
E a gagueira?
 .
.
.
.
Foi-se!
Abri a tampa.
Destravei-me.
Hoje, falo pelos cotovelos!
Tenho que policiar-me para não ser inconveniente. Interromper os outros, indevidamente.
Agreguei pessoas. Ganhei parceiros de vários tipos.
Escrevo textos, sobre qualquer assunto.
Consulto as gramáticas. Coleciono dicionários.
Socorro-me com uma professora.
Sou rato de sebos. Sócio de livrarias - brincadeira! Mas quase isso, de tanto que as frequento.
Na época da rapidez e da síntese do “WhatsApp”, dou-me ao trabalho, mas com prazer, de escrever bem escritas as minhas comunicações por este veículo, esmerando-me, de propósito, na Língua, na tentativa de fazê-la inteira e respeitada, não entrando pelo pouco caso do “pq”, “vc”, “obg”, “tb”, “rs”, “q” e o indefectível “kkkkk”, que, segundo um professor, coloca-nos adeptos do sódio (sal), representado pelo “K”.
A imagem escolhida para ilustrar este texto reproduz, no tronco do arbusto, a sinuosidade de posturas e de pensamentos, que vamos adquirindo ao longo da vida, em função dos experimentos, da vivência, das loucuras e, também, de outros ingredientes. Acho natural que ocorra o entrelaçamento de muitas coisas, até pela imprevisibilidade das circunstâncias. Há sobressaltos. Afinal, a mesmice cansa.
O mote desta conversa sinaliza para as condições de conhecer-se, correr atrás das soluções, procurar ajuda, dar volta por cima e insistir sempre, tateando pelos atalhos, para encontrar a estrada certa e segura.

Alfredo Domingos

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Divagação, saudação

Fonte da imagem: fotografia do autor

Chuva fina.
Escondi-me debaixo da marquise.
Peguei o material de escrita, que carregava. 
E para distrair a tensão e a tristeza, passei a escrever.
Divagação!

Pátio do Cemitério de Irajá, no Rio de Janeiro.
Sepultamento de Maria Aparecida, a Pia.
Em 13 de setembro de 2012.
Ali, eu não conhecia alguém.
Com ela própria, perdi contato há algum tempo.
Prima, que cedo saiu pro mundo.
O furgão preto estacionou.
Esperei vir alma conhecida. Veio.
Perguntei. Era ela mesma, no momento derradeiro.
Ponto final na escrevinhação, e fui.
Florar. Florei.
Rezar. Rezei.
Despedir. Despedi.
Saudação!
Tchau, Pia!

Na verdade, tudo é incógnita.
De nada sabemos.
Temos a pretensão de conhecer, apenas.
A cada dia, surge uma novidade.
As coisas acontecem não ao acaso.
Mas elas aparecem, assim, do nada. Ou será do tudo?
As portas são abertas para permitir a passagem.
Do que for. Para o que for.
Todos os instantes revelam um “Ah!”
Seja de alegria ou de tristeza.
É questão de ter exclamação ou não.
O grande barato é bem conduzir a nossa reação.
Não importa de qual forma ela venha.
A ordem das estrelas é aguentar firme.
Não é prioridade entender o que se passa.

Alfredo Domingos

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Zeppelin pela primeira vez



Pelo noticiário, que se depreende do Diario de Pernambuco, do dia 23 de maio de 1930, e depoimentos dos que assistiram e documentaram, a exemplo do compositor Raul Valença, que chegou a fazer um filme, foi uma verdadeira revolução na cidade, quando da chegada daquele dirigível, após 59 horas de viagem: 

Um vivo interesse se desenhava em todos os semblantes entorno desse acontecimento destinado a marcar uma data inesquecível na vida da cidade. […] às 18 horas e 35 minutos o dirigível foi avistado no Recife e logo entrou a tocar, para divulgar a boa nova, o carrilhão do Diario de Pernambuco, cujos terraços estavam ocupados por famílias do nosso escol social. […] O Diario de Pernambuco, em sua edição do dia seguinte, às 16 horas, era já compacta a multidão de curiosos que se empilhavam nas torres das igrejas e até nos tetos das casas. – inclusive nos terraços dos edifícios mais altos: Moinho Recife, Palácio da Justiça, Diario de Pernambuco, Hotel Central, etc. No mais alto da cúpula do Palácio da Justiça, em verdadeiro esporte de equilíbrio, agrupavam-se algumas dezenas de pessoas. O terraço desta folha, já às 17 horas, estava repleto de numerosa e compacta assistência. […] 

– Chegarei pouco depois do por do sol, foi a mensagem do comandante Eckener. […] 

É ele! É ele! É uma estrela!…. , gritava o povo. Mas a dúvida em breve dissipou-se. Alguns instantes mais e a sombra branca do imenso pássaro aéreo começou a surgir e a crescer. Já eram então visíveis os dois focos de proa e popa marcando o vulto imenso que desfilava dentre as nuvens. Precisamente às dezoito e meia passava o Graf Zeppelin, mais baixo acerca de trezentos metros de altura, sobre a torre da Catedral de Olinda…. E logo começou-se a ouvir o surdo rugido das suas hélices possantes …. Mas pode mencionar-se o emocionante espetáculo da nave imensa a deslizar dentro da noite, sobre a cidade, rumando do norte ao poente, numa grande curva, direto ao Campo do Jiquiá, como se conhecesse o caminho; como uma ave retardatária que se torna ao pouso, mil vezes demandado. 

O dirigível estava sob o comando do Comandante Hugo Eckener, que, juntamente com o infante Dom Affonso de Espanha, foi saudado pelo então secretário particular do governador Estácio Coimbra, Gilberto de Mello Freyre, após a sua amarração no Campo do Jiquiá. 

Tempos do Zeppelin, na sua linha regular ligando a Europa ao Brasil e Argentina, relembrados pelos mais antigos e assim descritos na poética de “Ascenso Ferreira” (abaixo): 

“Graf Zeppelin
WZ! KDKA! UZQP! 
Alô, Zeppelin! Alô, Zeppelin! Alô, Zeppelin! 
Usted me puede dar nuevas del Zeppelin? 
Dove il Zeppelin? 
Where is the Zeppelin? 
Passou agorinha em Fernando de Noronha.
Ia fumaçando! 
Chegou em Natal! 
(Augusto Severo, acorda de teu sono, bichão!)
 Alô, Zeppelin! Alô, Zeppelin! 
Rádio, rádio, rádio! 
WZ – QPQP – GQAA... = Jiquiá! 
 – Apontou! 
– Parece uma baleia se movendo no mar! 
– Parece um navio avoando nos ares! 
– Credo, isso é invento do cão! 
– Ó coisa bonita danada! 
– Viva seu Zé Pelin! 
– Vivôôô! 
Deutschland über alles! 
Chopp! Chopp! Chopp! 
– Atracou!"

O Graf Zeppelin realizou 63 viagens unindo o Recife à Europa. Em 1936, veio a ser substituído por outro dirigível, o Hindenburg, que possuía 804 pés de comprimento; 76 pés menos do que o transatlântico Titanic e 228 pés maior do que um boeing 747. Este último realizou sete viagens ao Brasil, antes do acidente que o destruiu, em 1937, ao pousar em Lakehurst, no estado norte-americano de New Jersey. – Um pé correspondente a 12 polegadas e equivalente, no sistema métrico decimal, a aprox. 30,48 cm. 

A primeira travessia aérea do Atlântico Sul veio a ser realizada pelos aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral, que saídos de Lisboa a bordo do hidroavião “Lusitânia”, em 3 de março de 1922, pousaram na bacia do Capibaribe, em 5 de junho daquele ano. Para comemorar o feito, fez-se erguer um grande monumento em mármore aos dois aviadores portugueses, esculpido por “Santos e Simões – estatuários” e foi ofertado pelos portugueses residentes em Pernambuco. A sua inauguração aconteceu, em 1927, sendo instalado no Cais Martins de Barros. 

Os primeiros brasileiros a cruzar o Atlântico Sul foram João Ribeiro de Barros (comandante), Newton Braga, João Negrão e Vasco Cinqüini, que, a bordo do hidroavião Jahú, fizeram o voo histórico Gênova-São Paulo, escalando no Recife em cinco de junho de 1927, amerissando na bacia do porto, sendo recebidos com grandes festas. No mesmo ano, comércio da Encruzilhada, a fim de assinalar o feito, mandou erguer uma coluna de oito metros de altura, encimada por uma águia pousada sobre o globo terrestre, com a inscrição: “Raid Gênova-Santos. À heroica tripulação do Jahú, homenagem do povo da Encruzilhada. Recife, 25 de setembro de 1927”. (¹) 

A correspondência aérea entre o Recife, o Rio de Janeiro e Buenos Aires, veio a ter início a 7 de março de 1927, através da Companhia Latecoére, depois denominada de Aeropostale, que veio a ser o embrião da Air France. 

Na bacia do Pina-Santa Rita passaram também a amerissar os hidroaviões da Condor-Lufhansa e da Panair-Panamerican. 

O primeiro aeroporto do Recife só veio a surgir, anos depois com os aviões utilizando a pista de areia do campo do Ibura, particularmente os pertencentes à aviação militar, ao Correio Aéreo Nacional e a LATI – Linhas Aéreas Transcontinentais Italianas, a “Ala Litoria”. Esta última veio contribuir para a construção de uma pista em concreto, a fim de pousar os trimotores Savoia-Marchetti-83, na ligação Roma-Rio de Janeiro. 

Com a criação da Força Aérea Brasileira, fez-se necessário a implantação da Base Aérea do Recife, por força do Decreto n.º 3459, de 24 de julho de 1941, seguindo-se da 2ª Zona Aérea, em 25 de outubro de 1941, formando assim um complexo militar de grande importância quando do segundo conflito mundial.(²)

As comunicações via-aérea com a Europa e a América do Norte vêm ganhar impulso após 1942, quando os Estados Unidos declaram guerra à Alemanha, em 22 de agosto daquele ano. 

O Recife possuía, então, uma população de 348.424 habitantes, passando assim a abrigar as bases militares norte-americanas. Na Base Aérea do Ibura aterrissavam os catalinas e as chamadas fortalezas-voadoras (B 29), enquanto no seu porto permaneciam ancorados modernos porta-aviões, cruzadores e destroiers das forças aliadas. 

As comunicações por via aérea do Recife para a Europa e a América do Norte vêm ganhar impulso após 1942, quando os Estados Unidos declaram guerra à Alemanha, em 22 de agosto daquele ano. Terminada a guerra, em 9 de maio de 1945, a Base Aérea do Recife passa, também, a servir de pouso obrigatório às aeronaves civis, oriundas da Europa, até a construção do moderno Aeroporto Internacional dos Guararapes, inaugurado em 18 de junho de 1958, pelo então presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira. 

O Aeroporto dos Guararapes vem a ser totalmente modificado, com novas instalações e aumento de sua pista para 3.500 metros, em 10 de novembro de 1982, a fim de atender à demanda dos modernos aviões – Jumbo, DC 10, Airbus. Após 18 anos de utilização, a pista foi ampliada e está sendo construída uma nova estação de passageiros. O aeroporto do Recife tem a denominação de Guararapes em virtude das duas batalhas (1648 e 1649) travadas nas colinas vizinhas. O sucesso obtido pelas tropas luso-brasileiras veio selar, de forma definitiva, a reconquista do território ocupado pelos holandeses entre 1630 e 1654. 

Nota: o texto acima foi colhido de http://www.diariodepernambuco.com.br, pela comemoração, em 19/05/2015, dos 85 anos da  primeira chegada do "Graf Zeppelin" ao Recife, Pernambuco, em matéria de Leonardo Dantas Silva. 
Fonte da imagem: diariodepernambuco.com.br

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Ser ético faz bem e é dever



ÉTICA - é palavra de origem grega (ethos), que significa “propriedade do caráter”. Ser ético é conduzir-se dentro dos padrões convencionais e das regras impostas, agindo convenientemente, em proveito próprio e da coletividade, sem prejudicar o próximo.
Para ilustrar:
Um homem decidiu levar seus filhos ao circo. Na bilheteria, a pergunta:
- Olá, quanto custa a entrada?
O vendedor responde: - R$ 40,00 para adultos, e R$ 30,00 para crianças de 7 a 14 anos. Crianças até 6 anos não pagam. Quantos anos eles têm?
E o pai responde:
- O menor tem 3 anos e o maior 7 anos.
O rapaz da bilheteria diz:
- Se o Sr. tivesse falado que o mais velho tem 6 anos, eu não perceberia, e o Sr. economizaria R$ 30,00.
E o pai responde:
- Talvez você não percebesse, mas meus filhos saberiam que eu menti, para obter uma vantagem, e jamais esqueceriam.
 E finaliza:
- A verdade não tem preço. O exemplo é educativo. Hoje, deixo de economizar R$30,00, que não me pertencem por direito, mas ganho a certeza de que meus filhos sabem a importância de sempre dizer a verdade.
Esta pequena história nos permite conceber que:
*- Nada deve substituir a verdade.*
*- Educar, entre outras coisas, é dar o exemplo.*
*- Jamais devemos fazer concessões, pequenas que sejam, à mentira, ao conluio, a levar vantagem indevida.*
*- Sermos corretos, em primeiro lugar, faz bem a nós mesmos.*
A corrupção começa nos pequenos gestos, e, além de tender a tomar grandes proporções, é passada às novas gerações como algo comum, que não tem problema, sem causar espanto. Mudar uma situação da qual reclamamos ou não concordamos depende, inicialmente, de nós. Façamos algo, do nosso alcance, no nosso “mundo”, para que haja melhora em vários setores da sociedade, inclusive nas atividades profissionais.
A falta da ética leva-nos a cometer absurdos e abusos, que resultam em prejuízo para os próprios delituosos e para os demais. Ficamos sem autocensura, a trava sobre nossas ações fica frouxa.
No caso dos agentes públicos, o exercício da ética é essencial e mandatório. Não se consegue sucesso e benefícios para todos, na gestão pública, quando inexiste ética. A ética, que não deixa de ser o bom modo de ser, tem como aliados o cumprimento às leis, a transparência, a escolha de auxiliares competentes, a experiência, o respeito ao que está sob a nossa guarda e às pessoas, e assim em diante.
A história acima, do pai e filhos, que foram ao circo, destaca o “exemplo”. No seio da família, quando faltam exemplos, a perda é relativamente pequena, com impacto somente para mais tarde. Na administração pública, a falta de exemplos contamina toda a cadeia hierárquica, inclusive, desestimulando aqueles que agem com seriedade, fazendo com que os cidadãos comuns deixem de receber os direitos que lhes cabem, ou recebam a menor, num curto espaço de tempo.
Deixamos um convite: pensemos seriamente nesta nossa conversa sobre ética, que, despretensiosamente, pretende incentivar a todos a conduzirem-se de forma reta, considerando os atributos necessários e favoráveis a uma sociedade.

Alfredo Domingos
(história inicial, do pai e filhos, de autor desconhecido, foi adaptada por este autor)